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Nietzsche, a genealogia e a História

Michel Foucault. In Microfísica do Poder.

I.

A genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente documentária. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos.

Paul Rée se engana, como os ingleses, ao descrever gêneses lineares, ao ordenar, por exemplo, toda a história da moral através da preocupação com o útil: como se as palavras tivessem guardado seu sentido, os desejos sua direção, as idéias sua lógica; como se esse mundo de coisas ditas e queridas não tivesse conhecido invasões, lutas, rapinas, disfarces, astúcias. Daí, para a genealogia, um indispensável demorar−se: marcar a singularidade dos acontecimentos, longe de toda finalidade monótona; espreitá−los lá onde menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história − os sentimentos, o amor, a consciência, os instintos; apreender seu retorno não para traçar a curva lenta de uma evolução, mas para reencontrar as diferentes cenas onde eles desempenharam papéis distintos; e até definir o ponto de sua lacuna, o momento em que eles não aconteceram (Platão em Siracusa não se transformou em Maomé).

A genealogia exige, portanto, a minúcia do saber, um grande número de materiais acumulados, exige paciência. Ela deve construir seus “monumentos ciclópicos”1 não a golpes de “grandes erros benfazejos” mas de “pequenas verdades inaparentes estabelecidas por um método severo”2. Em suma, uma certa obstinação na erudição. A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta−histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da “origem”.

II.

Encontram−se em Nietzsche dois empregos da palavra Ursprung. Um não é marcado: é encontrado em alternância com o termo Entestehung, Herkunft, A bkunft, Geburt. Para Genealogia da Moral, por exemplo, fala, a propósito do dever moral ou do sentimento da falta, de Entestehung ou de Ursprung3. Em A Gaia Ciência se trata, a propósito da lógica e do conhecimento, de Ursprung, de Entestehung, ou de Herkunft4.

O outro emprego da palavra é marcado. Nietzsche o coloca em oposição a um outro termo: o primeiro parágrafo de Humano Demasiadamente Humano coloca frente a frente a origem miraculosa (Wunder−Ursprung) que a metafisica procura e as análises de uma filosofia histórica que coloca questões über Herkunft und Anfang. Ursprung é também utilizado de uma maneira irônica e depreciativa. Em que, por exemplo, consiste esse fundamento originário (Ursprung) da moral que se procura desde Platão? “Em horríveis pequenas conclusões: Pudenda origo”5. Ou ainda: onde é preciso procurar essa origem da religião (Ursprung) que Schopenhauer situava em um certo sentimento do além? Simplesmente em uma invenção (Erftndung), em um passe de mágica, em um artifício (Kunststück), em um segredo de fabricação, em um procedimento de magia negra, no trabalho de Schwarzkünstler6.

Um dos textos mais significativos do uso de todas estas palavras e dos jogos próprios do termo Ursprung é o prefácio de Para Genealogia da Moral. O objeto da pesquisa é definido no início do texto como a origem dos preconceitos morais; o termo então utilizado é Herkunft. Em seguida, Nietzsche volta atrás, fazendo a história deste inquérito em sua própria vida; ele se lembra do tempo em que “caligrafava” a filosofia e em que se perguntava se era preciso atribuir a Deus a origem do Mal. Questão que agora o faz sorrir e sobre a qual ele diz justamente que era uma pesquisa de Ursprung; mesma palavra para caracterizar um pouco mais longe o trabalho de Paul Rée7. Em seguida, ele evoca as análises propriamente nietzscheanas que começaram com Humano, Demasiadamente Humano; para caracterizá−las, fala de Herkunfthypotesen. Ora, aqui o emprego da palavra Herkunft não é arbitrário: ela serve para caracterizar vários textos de Humano, Demasiadamente Humano consagrados à origem da moralidade, da justiça, do castigo. E contudo, em todos estes desenvolvimentos, a palavra que tinha sido utilizada então era Ursprung8. Como se na época de Para Genealogia da Moral, e nessa altura do texto, Nietzsche quisesse acentuar uma oposição entre Herkunft e Ursprung com a qual ele não trabalhava dez anos antes. Mas, imediatamente depois da utilização especificada desses dois termos, Nietzsche volta, nos últimos parágrafos do prefácio, a utilizá−los de um modo neutro e equivalente9.

Por que Nietzsche genealogista recusa, pelo menos em certas ocasiões, a pesquisa da origem (Ursprung)? Porque, primeiramente, a pesquisa, nesse sentido, se esforça para recolher nela a essência exata da coisa, sua mais pura possibilidade, sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma, sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo, acidental, sucessivo. Procurar uma tal origem é tentar reencontrar “o que era imediatamente”, o “aquilo mesmo” de uma imagem exatamente adequada a si; é tomar por acidental todas as peripécias que puderam ter acontecido, todas as astúcias, todos os disfarces; é querer tirar todas as máscaras para desvelar enfim uma identidade primeira. Ora, se o genealogista tem o cuidado de escutar a história em vez de acreditar na metafísica, o que é que ele aprende? Que atrás das coisas há “algo inteiramente diferente”: não seu segredo essencial e sem data, mas o segredo que elas são sem essência, ou que sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram estranhas. A razão? Mas ela nasceu de uma maneira inteiramente “desrazoável” − do acaso10. A dedicação à verdade e ao rigor dos métodos científicos? Da paixão dos cientistas, de seu ódio recíproco, de suas discussões fanáticas e sempre retomadas, da necessidade de suprimir a paixão − armas lentamente forjadas ao longo das lutas pessoais”. E a liberdade, seriada, na raiz do homem o que o liga ao ser e à verdade? De fato, ela é apenas uma “invenção das classes dominantes”12. O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem − é a discórdia entre as coisas, é o disparate.

A história ensina também a rir das solenidades da origem. A alta origem é o “exagero metafísico que reaparece na concepção de que no começo de todas as coisas se encontra o que há de mais precioso e de mais essencial”13: gosta−se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição; que elas saíram brilhantes das mãos do criador, ou na luz sem sombra da primeira manhã. A origem está sempre antes da queda, antes do corpo, antes do mundo e do tempo; ela está do lado dos deuses, e para narrá−la se canta sempre uma teogonia. Mas o começo histórico é baixo. Não no sentido de modesto ou de discreto como o passo da pomba, mas de derrisório, de irônico, próprio a desfazer todas as enfatuações. “Procura−se despertar o sentimento de soberania do homem mostrando seu nascimento divino: isto agora se tornou um caminho proibido; pois no seu limiar está o macaco”14 . O homem começou pela careta daquilo em que ele ia se tornar; Zaratustra mesmo terá seu macaco que saltará atrás dele e tirará o pano de sua vestimenta.

Enfim, o último postulado da origem, ligado aos dois primeiros: ela seria o lugar da verdade. Ponto totalmente recuado e anterior a todo conhecimento positivo ela tornará possível um saber que contudo a recobre e não deixa, na sua tagarelice, de desconhecê−la; ela estaria nesta articulação inevitavelmente perdida onde a verdade das coisas se liga a uma verdade do discurso que logo a obscurece, e a perde. Nova crueldade da história que coage a inverter a relação e a abandonar a busca “adolescente”: atrás da verdade sempre recente. avara e comedida, existe a proliferação milenar dos erros. Mas não acreditemos mais “que a verdade permaneça verdadeira quando se lhe arranca o véu; já vivemos bastante para crer nisto”15. A verdade, espécie de erro que tem a seu favor o fato de não poder ser refutada, sem dúvida porque o longo cozimento da história a tornou inalterável16, E além disto a questão da verdade, o direito que ela se dá de refutar o erro de se opor à aparência, a maneira pela qual alternadamente ela foi acessível aos sábios, depois reservada apenas aos homens de piedade, em seguida retirada para um mundo fora de alcance, onde desempenhou ao mesmo tempo o papel de consolação e de imperativo, rejeitada enfim como idéia inútil, supérflua, por toda parte contradita − tudo isto não é uma história, a história de um erro que tem o nome de verdade? A verdade e seu reino originário tiveram sua história na história. Mal saímos dela, “na hora da sombra mais curta” quando a luz não parece mais vir do fundo do céu e dos primeiros momentos do dia17.

Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca de sua “origem”, negligenciando como inacessíveis todos os episódios da história; será, ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos começos; prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê−los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro; não ter pudor de ir procurá−las lá onde elas estão, escavando os basfond; deixar−lhes o tempo de elevar−se do labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob sua guarda. O genealogista necessita da história para conjurar a quimera da origem, um pouco como o bom filósofo necessita do médico para conjurar a sombra da alma. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas mal digeridas, que dão conta dos atavismos e das hereditariedades; da mesma forma que é preciso saber diagnosticar as doenças do corpo, os estados de fraqueza e de energia, suas rachaduras e suas resistências para avaliar o que é um discurso filosófico. A história, com suas intensidades, seus desfalecimentos, seus furores secretos, suas grandes agitações febris como suas síncopes, é o próprio corpo do devir. E preciso ser metafísico para lhe procurar uma alma na idealidade longínqua da origem.

III.

Termos como Entestehung ou Herkunft marcam melhor do que Ursprung o objeto próprio da genealogia. São ordinariamente traduzidos por “origem”, mas é preciso tentar a reconstituição de sua articulação própria.

Herkunft:

é o tronco de uma raça, é a proveniência; é o antigo pertencimento a um grupo − do sangue, da tradição, de ligação entre aqueles da mesma altura ou da mesma baixeza. Freqüentemente a análise da Herkunft põe em jogo a raça18, ou o tipo social19. Entretanto, não se trata de modo algum de reencontrar em um indivíduo, em uma idéia ou um sentimento as características gerais que permitem assimilá−los a outros − e de dizer: isto é grego ou isto é inglês; mas de descobrir todas as marcas sutis, singulares, subindividuais que podem se entrecruzar nele e formar uma rede difícil de desembaraçar; longe de ser uma categoria da semelhança, tal origem permite ordenar, para colocá−las a parte, todas as marcas diferentes: os alemães imaginam ter chegado ao extremo de sua complexidade quando disseram que tinham a alma dupla; eles se enganaram redondamente, ou melhor, eles tentam como podem dominar a confusão das raças de que são constituídos20 Lá onde a alma pretende se unificar, lá onde o Eu inventa para si uma identidade ou uma coerência, o genealogista parte em busca do começo − dos começos inumeráveis que deixam esta suspeita de cor, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissociar o Eu e fazer pulular nos lugares e recantos de sua síntese vazia, mil acontecimentos agora perdidos.

A proveniência permite também reencontrar sob o aspecto único de um caráter ou de um conceito a proliferação dos acontecimentos através dos quais (graças aos quais, contra os quais) eles se formaram. A genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento; sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá, bem vivo no presente, animando−o ainda em segredo, depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Nada que se assemelhasse à evolução de uma espécie, ao destino de um povo. Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios − ou ao contrário as inversões completas − os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos − não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente21 Eis porque, sem dúvida, toda origem da moral, a partir do momento em que ela não é venerável − e a Herkunft nunca é − é crítica22.

Perigosa herança, esta que nos é transmitida por uma tal proveniência. Nietzsche associa várias vezes os termos Herkunft e Erbschaft. Mas não nos enganemos; essa herança não é uma aquisição, um bem que se acumula e se solidifica: é antes um conjunto de falhas, de fissuras, de camadas heterogêneas que a tornam instável, e, do interior ou de baixo, ameaçam o frágil herdeiro: “a injustiça e a instabilidade no espírito de alguns homens, sua desordem e sua falta de medida são as últimas conseqüências de inumeráveis inexatidões lógicas, de falta de profundidade, de conclusões apressadas de que seus ancestrais se tornaram culpados”23. A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Que convicção lhe resistiria? Mais ainda, que saber? Façamos um pouco a análise genealógica dos cientistas − daquele que coleciona e registra cuidadosamente os fatos, ou daquele que demonstra ou refuta; sua Herkunft logo revelará a papelada do escrivão ou as defesas do advogado − pai deles − 24 em sua atenção aparentemente desinteressada, em sua “pura” ligação à objetividade.

Enfim, a proveniência diz respeito ao corpo25. Ela se inscreve no sistema nervoso, no humor, no aparelho digestivo. Má alimentação, má respiração, corpo débil e vergado daqueles cujos ancestrais cometeram erros; que os pais tomem os efeitos por causas, acreditem na realidade do além, ou coloquem o valor eterno, é o corpo das crianças que sofrerá com isto. A covardia, a hipocrisia, simples rebentos do erro; não no sentido socrático, não porque seja preciso se engajar para ser malvado, nem também porque alguém se desviou da verdade originária, mas porque o corpo traz consigo, em sua vida e em sua morte, em sua força e em sua fraqueza, a sanção de todo erro e de toda verdade como ele traz consigo também e inversamente sua origem − proveniência. Por que os homens inventaram a vida contemplativa? Por que eles atribuíram a esse gênero de existência um valor supremo? Por que atribuíram verdade absoluta às imaginações que nela se formam? “Durante as épocas bárbaras … se o vigor do indivíduo diminui, se ele se sente cansado ou doente, melancólico ou saciado e, por conseqüência, de uma maneira temporária, sem desejos e sem apetites, ele se torna um homem relativamente melhor, quer dizer, menos perigoso e suas idéias pessimistas se formulam apenas por palavras e reflexões. Neste estado de espírito ele se tornará um pensador e anunciador ou então sua imaginação desenvolverá suas superstições”26. O corpo − e tudo o que diz respeito ao corpo, a alimentação, o clima, o solo − é o lugar da Herkunft: sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados do mesmo modo que dele nascem os desejos, os desfalecimentos e os erros nele também eles se atam e de repente se exprimem, mas nele também eles se desatam, entram em luta, se apagam uns aos outros e continuam seu insuperável conflito.

O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as idéias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência, está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo.

IV.

Entestehung

designa de preferência a emergência, o ponto de surgimento. E o princípio e a lei singular de um aparecimento. Do mesmo modo que se tenta muito freqüentemente procurar a proveniência em uma continuidade sem interrupção, também seria errado dar conta da emergência pelo termo final. Como se o olho tivesse aparecido, desde o fundo dos tempos, para a contemplação, como se o castigo tivesse sempre sido destinado a dar o exemplo. Esses fins, aparentemente últimos, não são nada mais do que o atual episódio de uma série de submissões: o olho foi primeiramente submetido à caça e à guerra; o castigo foi alternadamente submetido à necessidade de se vingar, de excluir o agressor, de se libertar da vítima, de aterrorizar os outros. Colocando o presente na origem, a metafísica leva a acreditar no trabalho obscuro de uma destinação que procuraria vir à luz desde o primeiro momento. A genealogia restabelece os diversos sistemas de submissão: não a potência antecipadora de um sentido, mas o jogo casual das dominações.

A emergência se produz sempre em um determinado estado das forças. A análise da Herkunft deve mostrar seu jogo, a maneira como elas lutam umas contra as outras, ou seu combate frente a circunstâncias adversas, ou ainda a tentativa que elas fazem − se dividindo − para escapar da degenerescência e recobrar o vigor a partir de seu próprio enfraquecimento. Por exemplo, a emergência de uma espécie (animal ou humana) e sua solidez são asseguradas “por um longo combate contra condições constantes e essencialmente desfavoráveis”. De fato “a espécie tem necessidade da espécie enquanto espécie como de qualquer coisa que, graças à sua dureza, à sua uniformidade, à simplicidade de sua forma, pode se impor e se tornar durável na luta perpétua com os vizinhos ou os oprimidos em revolta”. Em compensação, a emergência das variações individuais se produz em um outro estado das forças. quando a espécie triunfou, quando o perigo externo não a ameaça mais, e quando “os egoísmos voltados uns contra os outros que brilham de algum modo lutam juntos pelo sol e pela luz”27 Acontece também que a força luta contra si mesma: e não somente na embriaguez de um excesso que lhe permite se dividir, mas no momento em que ela se enfraquece. Contra sua lassidão ela reage, extraindo sua força desta lassidão que não deixa então de crescer, e se voltando em sua direção para abatê−la, ela vai lhe impor limites, suplícios, macerações, fantasiá−la de um alto valor moral e assim por sua vez se revigorar. Este é o movimento pelo qual nasce o ideal ascético “no instinto de uma vida em degenerescência que luta por sua existência”28. Este também é o movimento pelo qual a Reforma nasceu, onde previamente a Igreja se encontrava menos corrompida29; na Alemanha do séc. XV o catolicismo tinha ainda muita força para se voltar contra si próprio, castigar seu próprio corpo e sua própria história e se espiritualizar em uma religião pura da consciência.

A emergência é portanto a entrada em cena das forças; é sua interrupção, o salto pelo qual elas passam dos bastidores para o teatro, cada uma com seu vigor e sua própria juventude. O que Nietzsche chama Entestehungsherd’30 do conceito de bom não é exatamente nem a energia dos fortes nem a reação dos fracos; mas sim esta cena onde eles se distribuem uns frente aos outros, uns acima dos outros; é o espaço que os divide e se abre entre eles, o vazio através do qual eles trocam suas ameaças e suas palavras. Enquanto que a proveniência designa a qualidade de um instinto, seu grau ou seu desfalecimento, e a marca que ele deixa em um corpo, a emergência designa um lugar de afrontamento; é preciso ainda se impedir de imaginá−la como um campo fechado onde se desencadeara uma luta, um plano onde os adversários estariam em igualdade; é de preferência − o exemplo dos bons e dos malvados o prova− um “não−lugar”, uma pura distância, o fato que os adversários não pertencem ao mesmo espaço. Ninguém é portanto responsável por uma emergência; ninguém pode se auto−glorificar por ela; ela sempre se produz no interstício.

Em certo sentido, a peça representada nesse teatro sem lugar é sempre a mesma: é aquela que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados. Homens dominam outros homens e é assim que nasce a diferença dos valores31; classes dominam classes e é assim que nasce a idéia de liberdade32; homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidade para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força − e é o nascimento da lógica33. Nem a relação de dominação é mais uma “relação”, nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças nas coisas e até nos corpos; ela se torna responsável pelas dívidas. Universo de regras que não é destinado a adoçar, mas ao contrário a satisfazer a violência. Seria um erro acreditar, segundo o esquema tradicional, que a guerra geral, se esgotando em suas próprias contradições, acaba por renunciar à violência e aceita sua própria supressão nas leis da paz civil. A regra é o prazer calculado da obstinação, é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma violência meticulosamente repetida. O desejo da paz, a doçura do compromisso, a aceitação tácita da lei, longe de serem a grande conversão moral, ou o útil calculado que deram nascimento à regra, são apenas seu resultado e propriamente falando sua perversão: “Falta, consciência, dever têm sua emergência no direito de obrigação; e em seus começos, como tudo o que é grande sobre a terra, foi banhado de sangue”34. A humanidade não progride lentamente, de combate em combate, até uma reciprocidade universal, em que as regras substituiriam para sempre a guerra; ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim de dominação em dominação.

É justamente a regra que permite que seja feita violência à violência e que uma outra dominação possa dobrar aqueles que dominam. Em si mesmas as regras são vazias, violentas, não finalizadas; elas são feitas para servir a isto ou àquilo; elas podem ser burladas ao sabor da vontade de uns ou de outros. O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfarçar para pervertê−las, utilizá−las ao inverso e voltá−las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar−se−ão dominados por suas próprias regras. As diferentes emergências que se podem demarcar não são figuras sucessivas de uma mesma significação; são efeitos de substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas. Se interpretar era colocar lentamente em foco uma significação oculta na origem, apenas a metafísica poderia interpretar o devir da humanidade. Mas se interpretar é se apoderar por violência ou sub−repção, de um sistema de regras que não tem em si significação essencial, e lhe impor uma direção, dobrá−lo a uma nova vontade, fazê−lo entrar em um outro jogo e submetê−lo a novas regras, então o devir da humanidade é uma série de interpretações. E a genealogia deve ser a sua história: história das morais, dos ideais, dos conceitos metafísicos, história do conceito de liberdade ou da vida ascética, como emergências de interpretações diferentes. Trata−se de fazê−las aparecer como acontecimentos no teatro dos procedimentos.

V.

Quais são as relações entre a genealogia definida como pesquisa de Herkunft e de Entestehung e o que se chama habitualmente história? Sabe−se das apóstrofes célebres de Nietzsche contra a história, e será preciso voltar a elas agora. Contudo, a genealogia é designada por vezes como “Wirkliche Historie”; em várias ocasiões ela é caracterizada pelo “espírito” ou “sentido histórico”35 De fato, o que Nietzsche não parou de criticar desde a segunda das Considerações Extemporâneas é esta forma histórica que reintroduz (e supõe sempre) o ponto de vista supra−histórico: uma história que teria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma a diversidade, enfim reduzida, do tempo; uma história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma da reconciliação; uma história que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de mundo. Essa história dos historiadores constrói um ponto de apoio fora do tempo; ela pretende tudo julgar segundo uma objetividade apocalíptica; mas é que ela supôs uma verdade eterna, uma alma que não morre, uma consciência sempre idêntica a si mesma. Se o sentido histórico se deixa envolver pelo ponto de vista supra−histórico, a metafísica pode retomá−lo por sua conta e, fixando−o sob as espécies de uma ciência objetiva, impor−lhe seu próprio “egipcianismo”. Em compensação, o sentido histórico escapará da metafísica para tornar−se um instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apoia sobre nenhum absoluto. Ele deve ter apenas a acuidade de um olhar que distingue, reparte, dispersa, deixa operar as separações e as margens − uma espécie de olhar que dissocia e é capaz ele mesmo de se dissociar e apagar a unidade deste ser humano que supostamente o dirige soberanamente para seu passado.

O sentido histórico, e é nisto que ele pratica a “Wirkliche Historie”, reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado imortal no homem. Cremos na perenidade dos sentimentos? Mas todos, e sobretudo aqueles que nos parecem os mais nobres e os mais desinteressados, têm uma história. Cremos na constância dos instintos e imaginamos que eles estão sempre atuantes aqui e ali, agora como antes. Mas o saber histórico não tem dificuldade em colocá−los em pedaços − em mostrar seus avatares, demarcar seus momentos de força e de fraqueza, identificar seus remos alternantes, apreender sua lenta elaboração e os movimentos pelos quais, se voltando contra eles mesmos, podem obstinar−se em sua própria destruição36. Pensamos em todo caso que o corpo tem apenas as leis de sua fisiologia, e que ele escapa à história. Novo erro; ele é formado por uma série de regimes que o constróem; ele é destroçado por ritmos de trabalho, repouso e festa; ele é intoxicado por venenos − alimentos ou valores, hábitos alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria resistências37. A história “efetiva” se distingue daquela dos historiadores pelo fato de que ela não se apoia em nenhuma constância: nada no homem − nem mesmo seu corpo − é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles. Tudo em que o homem se apoia para se voltar em direção à história e apreendê−la em sua totalidade, tudo o que permite retraçá−la como um paciente movimento contínuo: trata−se de destruir sistematicamente tudo isto. E preciso despedaçar o que permitia o jogo consolante dos reconhecimentos. Saber, mesmo na ordem histórica, não significa “reencontrar” e sobretudo não significa “reencontrar−nos”. A história será “efetiva” na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a si mesmo. Ela não deixará nada abaixo de si que teria a tranqüilidade asseguradora da vida ou da natureza; ela não se deixará levar por nenhuma obstinação muda em direção a um fim milenar. Ela aprofundará aquilo sobre o que se gosta de fazê−la repousar e se obstinará contra sua pretensa continuidade. E que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar.

Podem−se apreender a partir de então as características próprias do sentido histórico como Nietzsche o entende, e que opõe a “Wirkliche Historie” à história tradicional. Aquela inverte a relação habitualmente estabelecida entre a irrupção do acontecimento e a necessidade continua. Há toda uma tradição da história (teleológica ou racionalista) que tende a dissolver o acontecimento singular em uma continuidade ideal − movimento teleológico ou encadeamento natural. A história “efetiva” faz ressurgir o acontecimento no que ele pode ter de único e agudo. E preciso entender por acontecimento não uma decisão, um tratado, um reino, ou uma batalha, mas uma relação de forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se distende, se envenena e uma outra que faz sua entrada, mascarada. As forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação, nem a uma mecânica, mas ao acaso da luta38. Elas não se manifestam como formas sucessivas de uma intenção primordial; como também não têm o aspecto de um resultado. Elas aparecem sempre na álea singular do acontecimento. Â diferença do mundo cristão, universalmente tecido pela aranha divina, contrariamente ao mundo grego dividido entre o reino da vontade e ó da grande besteira cósmica, o mundo da história “efetiva” conhece apenas um único reino, onde não há nem providência, nem causa final, mas somente “as mãos de ferro da necessidade que sacode o copo de dados do acaso”39. É preciso ainda compreender este acaso não como um simples sorteio, mas como o risco sempre renovado da vontade de potência que a todo surgimento do acaso opõe, para controlá−lo, o risco de um acaso ainda maior40. De modo que o mundo tal qual nós o conhecemos não é essa figura simples onde todos os acontecimentos se apagaram para que se mostrem, pouco a pouco, as características essenciais, o sentido final, o valor primeiro e último; é ao contrário uma miriade de acontecimentos entrelaçados; ele nos parece hoje “maravilhosamente colorido e confuso, profundo, repleto de sentido”; é que uma “multidão de erros e fantasmas” lhe deu movimentos e ainda o povoa em segredo41. Cremos que nosso presente se apoia em intenções profundas, necessidades estáveis; exigimos dos historiadores que nos convençam disto. Mas o verdadeiro sentido histórico reconhece que nós vivemos sem referências ou sem coordenadas originárias, em miríades de acontecimentos perdidos.

Ele tem também o poder de interverter a relação entre o próximo e o longínquo tal como foi estabelecido pela história tradicional em sua fidelidade à obediência metafísica. Esta de fato se compraz em lançar um olhar para o longínquo, para as alturas: as épocas mais nobres, as formas mais elevadas, as idéias mais abstratas, as individualidades mais puras. E para fazer isto ela procura se aproximar destas coisas ao máximo, colocar−se aos pés destes cumes em condições de ter com relação a elas a famosa perspectiva das rãs. A história “efetiva”, em contrapartida, lança seus olhares ao que está próximo: o corpo, o sistema nervoso, os alimentos e a digestão, as energias; ela perscruta as decadências; e se afronta outras épocas é com a suspeita − não rancorosa, mas alegre − de uma agitação bárbara e inconfessável. Ela não teme olhar embaixo. Mas olha do alto, mergulhando para apreender as perspectivas, desdobrar as dispersões e as diferenças, deixar a cada coisa sua medida e sua intensidade. Seu movimento é o inverso daquele que os historiadores operam sub−repticiamente: eles fingem olhar para o mais longe de si mesmos, mas de maneira baixa, rastejando, eles se aproximam deste longínquo promete−dor (no que eles são como os metafísicos que vêem, bem acima do mundo, um além apenas para prometê−lo a si mesmos a titulo de recompensa); a história “efetiva” olha para o mais próximo, mas para dele se separar bruscamente e se apoderar à distância (olhar semelhante ao do médico que mergulha para diagnosticar e dizer a diferença). O sentido histórico está muito mais próximo da medicina do que da filosofia. “Historicamente e fisiologicamente” costuma dizer Nietzsche42. Nada espantoso, uma vez que na idiossincrasia do filósofo se encontra a negação sistemática do corpo e “a falta de sentido histórico, o ódio contra a idéia do devir, o egipcianismo”, a obstinação “em colocar no começo o que vem no fim” e em “situar as coisas últimas antes das primeiras”43. A história tem mais a fazer do que ser serva da filosofia e do que narrar o nascimento necessário da verdade e do valor; ela tem que ser o conhecimento diferencial das energias e desfalecimentos, das alturas e desmoronamentos, dos venenos e contravenenos. Ela tem que ser a ciência dos remédios44.

Finalmente, última característica desta história efetiva: ela não teme ser um saber perspectivo. Os historiadores procuram, na medida do possível, apagar o que pode revelar, em seu saber, o lugar de onde eles olham, o momento em que eles estão, o partido que eles tomam − o incontrolável de sua paixão. O sentido histórico, tal como Nietzsche o entende, sabe que 6 perspectivo, e não recusa o sistema de sua própria injustiça. Ele olha de um determinado ângulo, com o propósito deliberado de apreciar, de dizer sim ou não, de seguir todos os traços do veneno, de encontrar o melhor antídoto. Em vez de fingir um discreto aniquilamento diante do que ele olha, em vez de aí procurar sua lei e a isto submeter cada um de seus movimentos, é um olhar que sabe tanto de onde olha quanto o que olha. O sentimento histórico dá ao saber a possibilidade de fazer, no movimento de seu conhecimento, sua genealogia. A Wirkliche Historie” efetua, verticalmente ao lugar em que se encontra, a genealogia da história.

VI.

Nesta genealogia da história que esboça em vários momentos, Nietzsche liga o sentido histórico à história dos historiadores. Um e outro possuem um único começo, impuro e misturado. Eles saíram, ao mesmo tempo, de um mesmo signo em que se pode reconhecer tanto o sistema de uma doença quanto o germe de uma flor maravilhosa − e é em seguida que eles terão que se distribuir. Sigamos, portanto, sem diferenciá−los ainda, sua comum genealogia.

A proveniência (Herkunft) do historiador não dá margem a equívoco: ela é de baixa extração. Uma das características da história é a de não escolher: ela se coloca no dever de tudo compreender sem distinção de altura; de tudo aceitar, sem fazer diferença. Nada lhe deve escapar mas também nada deve ser excluído. Os historiadores dirão que isto é uma prova de tato e discreção: com que direito fariam intervir seu gosto quando se trata daquilo que se passou realmente? Mas de fato é uma total ausência de gosto, uma certa grosseria que procura tomar, com o que é mais elevado, ares de familiaridade, que procura se satisfazer em encontrar o que é baixo. O historiador é insensível a todos os nojos: ou melhor, ele tem prazer com aquilo mesmo que o coração deveria afastar. Sua aparente serenidade se obstina em não reconhecer nada de grande e em reduzir tudo ao mais fraco denominador. Nada deve ser mais elevado do que ele. Se ele deseja tanto saber e tudo saber é para surpreender os segredos que rebaixam. “Baixa curiosidade”. De onde vem a história? Da plebe. A quem se dirige? Á plebe. E o discurso que ele lhe faz parece muito com o do demagogo: “ninguém é maior do que vocês” diz este “e aquele que tiver a presunção de querer ser superior a vocês − a vocês que são bons − é malvado”; e o historiador, que é seu duplo, o imita: “nenhum passado é maior do que seu presente e tudo o que na história pode se apresentar com ar de grandeza, meu saber meticuloso lhes mostrará a pequenez, a crueldade, e a infelicidade”. O parentesco do historiador remonta a Sócrates.

Mas esta demagogia deve ser hipócrita. Deve esconder seu singular rancor sob a máscara do universal. E assim como o demagogo deve invocar a verdade, a lei das essências e a necessidade eterna, o historiador deve invocar a objetividade, a exatidão dos fatos, o passado inamovível. O demagogo é levado à negação do corpo para melhor estabelecer a soberania da idéia intemporal; o historiador é levado ao aniquilamento de sua própria individualidade para que os outros entrem em cena e possam tomar a palavra. Ele terá portanto que se obstinar contra si mesmo: calar suas preferências e superar o nojo, embaralhar sua própria perspectiva para lhe substituir uma geometria ficticiamente universal, imitar a morte para entrar no reino dos mortos, adquirir uma quase existência sem rosto e sem nome. E neste mundo em que ele terá refreado sua vontade individual ele poderá mostrar aos outros a lei inevitável de uma vontade superior. Tendo pretendido apagar de seu próprio saber todos os traços do querer, ele reencontrará do lado do objeto a conhecer a forma de um querer eterno. A objetividade do historiador é a interversão das relações do querer no saber e é ao mesmo tempo a crença necessária na Providência, nas causas finais, e na teologia. O historiador pertence à família dos ascetas. “Eu não posso mais suportar estes eunucos concupiscentes da história, todos os parasitas do ideal ascético; eu não posso mais suportar estes sepulcros caiados que produzem a vida; eu não posso suportar seres fatigados e enfraquecidos que se cobrem de sabedoria e apresentam um olhar objetivo”.45

Passemos à Entestehung da história; seu lugar é a Europa do séc. XIX: pátria das misturas e das bastardias, época do homem−mistura. Com relação aos momentos de alta civilização ei−nos como bárbaros: temos diante dos olhos cidades em ruínas e monumentos enigmáticos; detemo−nos diante das muralhas abertas; perguntamo−nos que deuses puderam habitar aqueles templos vazios. As grandes épocas não tinham tais curiosidades nem tão grandes respeitos; elas não reconheciam predecessores; o classicismo ignorava Shakespeare. A decadência da Europa nos oferece um espetáculo imenso cujos momentos mais fortes são omitidos ou são dispensados. O próprio da cena em que nos encontramos hoje é representar um teatro; sem monumentos que sejam nossa obra e que nos pertençam, nós vivemos cercados de cenários. Mas há mais: o europeu não sabe quem ele é; ele ignora que raças se misturaram nele; ele procura que papel poderia ter; ele não tem individualidade. Compreende−se então porque o séc. XIX é espontaneamente historiador: a anemia de suas forças, as misturas que apagaram todas as suas características produzem o mesmo efeito que as macerações do ascetismo; a impossibilidade em que ele se encontra de criar, sua ausência de obra, a obrigação em que ele se encontra de se apoiar no que foi feito antes e em outros lugares o constrangem à baixa curiosidade do plebeu.

Mas se esta é a genealogia da história, como ela pode se tornar análise genealógica? Como não permanecer um conhecimento demagógico e religioso? Como pode, nesta mesma cena, mudar de papel? A não ser que nos apoderemos dela, que a dominemos e a voltemos contra seu nascimento. Isto é de fato o próprio de Entestehung: não é o surgimento necessário daquilo que durante muito tempo tinha sido preparado antecipadamente; é a cena em que as forças se arriscam e se afrontam, em que podem triunfar ou ser confiscadas. O lugar de emergência da metafísica foi a demagogia ateniense, o rancor plebeu de Sócrates, sua crença na imortalidade. Mas Platão teria podido apoderar−se desta filosofia socrática, teria podido voltá−la contra ela mesma − e sem dúvida mais de uma vez ele foi tentado a fazê−lo. Sua derrota foi ter conseguido fundá−la. O problema do séc. XIX é não fazer pelo ascetismo popular dos historiadores o que Platão fez pelo de Sócrates. E preciso despedaçá−lo a partir daquilo que ele produziu e não fundá−lo em uma filosofia da história; tornar−se mestre da história para dela fazer um uso genealógico, isto é, um uso rigorosamente antiplatônico. E então que o sentido histórico libertar−se−á da história supra−histórica.

VII.

O sentido histórico comporta três usos que se opõem, palavra por palavra, às três modalidades platônicas da história. Um é o uso paródico e destruidor da realidade que se opõe ao tema da história−reminiscência, reconhecimento; outro é o uso dissociativo e destruidor da identidade que se opõe à história−continuidade ou tradição; o terceiro é o uso sacrificial e destruidor da verdade que se opõe à história−conhecimento. De qualquer modo se trata de fazer da história um uso que a liberte para sempre do modelo, ao mesmo tempo, metafísico e antropológico da memória. Trata−se de fazer da história uma contramemória e de desdobrar consequentemente toda uma outra forma do tempo.

Em primeiro lugar o uso paródico e burlesco. A esse homem confuso e anônimo que é o europeu − e que não sabe mais quem ele é e que nome deve usar − o historiador oferece identidades sobressalentes aparentemente melhor individualizadas e mais reais do que a sua. Mas o homem do sentido histórico não deve se enganar com este substituto que ele oferece: é apenas um disfarce. Alternadamente, se ofereceu à Revolução Francesa o modelo romano, ao romantismo a armadura de cavaleiro, à época wagneriana a espada do herói germânico; mas são ouropéis cuja irrealidade reenvia à nossa própria irrealidade. Deixe−se a alguns a liberdade de venerar essas religiões e de celebrar em Bayreuth a memória desse novo além. Deixe−se a eles se fazerem algibebes das identidades disponíveis. O bom historiador, o genealogista saberá o que é necessário pensar de toda esta mascarada. Não que ele a rechace por espírito de seriedade; pelo contrário, ele quer levá−la ao extremo: quer colocar em cena um grande carnaval do tempo em que as máscaras reaparecem incessantemente. Em vez de identificar nossa pálida individualidade às identidades marcadamente reais do passado, trata−se de nos irrealizar em várias identidades reaparecidas: e retomando todas estas máscaras − Frederic de Hohenstaufen, César, Jesus, Dionísio e talvez Zaratustra − recomeçando a palhaçada da história, nós retomaremos em nossa irrealidade a identidade mais irreal do Deus que a traçou, “talvez nós descobriremos aqui o domínio em que a originalidade nos é ainda possível, talvez como parodistas da história e como polichinelos de Deus”46 Reconhece−se aqui o duplicador paródico daquilo que a segunda Extemporânea chamava de “história monumental”: história que se dava como tarefa restituir os grandes cumes do devir, mantê−los em presença perpétua, reencontrar as obras, as ações, as criações segundo omonograma de sua essência íntima. Mas, em 1874, Nietzsche criticava essa história inteiramente devotada à veneração por obstruir as intensidades atuais da vida e suas criações. Trata−se, ao contrário, nos últimos textos, de parodiá−la para deixar claro que ela é apenas paródia. A genealogia é a história como um carnaval organizado.

Outro uso da história: a dissociação sistemática de nossa identidade. Pois esta identidade, bastante fraca contudo, que nós tentamos assegurar e reunir sob uma máscara, é apenas uma paródia: o plural a habita, almas inumeráveis nela disputam; os sistemas se entrecruzam e se dominam uns aos outros. Quando estudamos a história nos sentimos “felizes, ao contrário dos metafísicos, de abrigar em si não uma alma imortal mas muitas almas mortais”47. E, em cada uma destas almas, a história não descobrirá uma identidade esquecida, sempre pronta a renascer, mas um sistema complexo de elementos múltiplos, distintos, e que nenhum poder de síntese domina. “e um signo de cultura superior manter em toda consciência certas fases da evolução que os homens menores atravessam sem pensar… O primeiro resultado é que nós compreendemos nossos semelhantes como sistemas inteiramente determinados e como representantes de culturas diversas, quer dizer, como necessários e modificáveis. E em contrapartida: que em nossa própria evolução nós somos capazes de separar pedaços e considerá−los à parte”48. A história, genealogicamente dirigida, não tem por fim reencontrar as raízes de nossa identidade, mas ao contrário, se obstinar em dissipá−la; ela não pretende demarcar o território único de onde nós viemos, essa primeira pátria à qual os metafísicos prometem que nós retornaremos; ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam. Essa função é o contrário daquela que queria exercer, segundo as Considerações Extemporâneas, a “história−antiquário”. Tratava−se, então, de reconhecer continuidades nas quais se enraíza nosso presente: continuidades do solo, da língua, da cidade; tratava−se, “cultivando−se com uma mão delicada o que sempre existiu, de conservar, para aqueles que virão, as condições sob as quais se nasceu”49. A segunda das Considerações Extemporâneas lhe objetava que ela corre o risco de prevenir toda criação em nome da lei de fidelidade. Um pouco mais tarde − já em Humano, Demasiadamente Humano − Nietzsche retoma a tarefa antiquária, mas em direção inteirarnente oposta. Se a genealogia coloca, por sua vez, a questão do solo que nos viu nascer, da língua que falamos ou das leis que nos regem, é para clarificar Os sistemas heterogêneos que, sob a máscara de nosso eu, nos proíbem toda identidade.

Terceiro uso da história: o sacrifício do sujeito de conhecimento. Aparentemente, ou melhor, segundo a máscara que ela usa, a consciência histórica é neutra, despojada de toda paixão, apenas obstinada com a verdade. Mas se ela se interroga e se de uma maneira mais geral interroga toda consciência científica em sua história, ela descobre, então, as formas e transformações da vontade de saber que é instinto, paixão, obstinação inquisidora, refinamento cruel, maldade; ela descobre a violência das opiniões preconcebidas: contra a felicidade ignorante, contra as ilusões vigorosas através das quais a humanidade se protege, opiniões preconcebidas com relação a tudo aquilo que há de perigoso na pesquisa e de inquietante na descoberta50. A análise histórica deste grande querer−saber que percorre a humanidade faz portanto aparecer tanto que todo o conhecimento repousa sobre a injustiça (que não há, pois, no conhecimento mesmo um direito à verdade ou um fundamento do verdadeiro), quanto que o instinto de conhecimento é mau (que há nele alguma coisa de assassino e que ele não pode, que ele não quer fazer nada para a felicidade dos homens). Tomando, como ele o faz hoje, suas maiores dimensões, o querer−saber não se aproxima de uma verdade universal; ela não dá ao homem um exato e sereno controle da natureza; ao contrário, ele não cessa de multiplicar os riscos; ele sempre faz nascer os perigos; abate as proteções ilusórias; desfaz a unidade do sujeito; libera nele tudo o que se obstina a dissociá−lo e a destruí−lo. Em vez de o saber se separar, pouco a pouco, de suas raízes empíricas, ou das primeiras necessidades que o fizeram nascer, para se tornar pura especulação submetida às exigências da razão; em vez de estar ligado, em seu desenvolvimento, à constituição e à afirmação de um sujeito livre, ele traz consigo uma obstinação sempre maior; a violência instintiva se acelera nele e cresce; as religiões outrora exigiam o sacrifício do corpo humano; o saber conclama hoje a experiências sobre nós mesmos, ao sacrifício d6 sujeito de conhecimento. “O conhecimento se transformou em nós em uma paixão que não se aterroriza com nenhum sacrifício, e tem no fundo apenas um único temor, de se extinguir a si próprio… A paixão do conhecimento talvez até mate a humanidade… Se a paixão do conhecimento não matar a humanidade ela morrerá de fraqueza. Que é preferível? Eis a questão principal. Queremos que a humanidade se acabe no fogo e na luz, ou na areia?”52. É tempo de substituir os dois grandes problemas que dividiram o pensamento filosófico do sêc. XIX (fundamento recíproco da verdade e da liberdade, possibilidade de um saber absoluto), os dois temas principais legados por Fichte e Hegel, pelo tema segundo o qual “morrer pelo conhecimento absoluto poderia fazer parte do fundamento do ser53. 0 que não quer dizer, no sentido da critica, que a vontade de verdade seja limitada pela finitude do conhecimento! Mas que ela perde todo o limite e toda intenção de verdade no sacrifício que deve fazer do sujeito de conhecimento. “E talvez haja uma única idéia prodigiosa que ainda poderia aniquilar qualquer outra aspiração, de modo que ela ganharia das mais vitoriosas − eu quero dizer a idéia da humanidade se sacrificando a si própria. Pode−se jurar que se a constelação dessa idéia aparecesse no horizonte, o conhecimento da verdade permaneceria a única grande meta a que semelhante sacrifício seria proporcionado porque para o conhecimento nenhum sacrifício é grande demais. Esperando, o problema nunca foi colocado…”54

As Considerações Extemporâneas falavam do uso crítico da história: tratava−se de colocar o passado na justiça, de cortar suas com faca, destruir as venerações tradicionais a fim de libertar o homem e não lhe deixar outra origem senão aquela em que ele quer se reconhecer. Nietzsche criticava esta história crítica por nos desligar de todas as nossas fontes reais e sacrificar o próprio movimento da vida apenas à preocupação com a verdade. Vê−se que, um pouco mais tarde, Nietzsche retoma por sua conta própria o que ele então recusava. Ele o retoma, mas com uma finalidade inteiramente diferente: não se trata mais de julgar nosso passado em nome de uma verdade que o nosso presente seria o único a deter. Trata−se de arriscar a destruição do sujeito de conhecimento na vontade, indefinidamente desdobrada, de saber.

Em certo sentido a genealogia retorna às três modalidades da história que Nietzsche reconhecia em 1874. Retorna a elas, superando objeções que ele lhes fazia então em nome da vida, de seu poder de afirmar e criar. Mas retorna a elas, metamorfoseando−as: a veneração dos monumentos torna−se paródia; o respeito às antigas continuidades torna−se dissociação sistemática; a crítica das injustiças do passado pela verdade que o homem detém hoje torna−se destruição do sujeito de conhecimento pela injustiça própria da vontade de saber.

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A vida feliz das vítimas

Paulo Vaz

1 – Direito à felicidade e cultura terapêutica

O direito à felicidade de cada indivíduo é um lema maior das culturas ocidentais contemporâneas. Essa felicidade à qual teríamos direito e seria nosso dever perseguir é apresentada como residindo na esfera privada e estaria relacionada ao consumo de bens e serviços. Graças ao onipresente discurso publicitário, basta pensar em ser feliz que surgem em nossa mente imagens de uma família sorrindo numa casa repleta de objetos que trariam conforto e aliviariam a dureza do trabalho doméstico; ou então cenas de jovens se aventurando por praias, florestas e montanhas ou se divertindo em festas.

Embora seja decisivo inquietar esse nexo entre felicidade, vida ordinária, esfera privada e consumo para realçar nossa singularidade histórica, colocando questões a partir da memória de que já se valorizou a esfera pública ou de que se acreditou que a felicidade só seria possível na vida após a morte, também cabe problematizar o lugar central ocupado pelos estados mentais de cada indivíduo. Pois essa centralidade das emoções permite conceituar as culturas ocidentais contemporâneas como culturas terapêuticas, onde o relevante é “uma sensação manipulável de bem-estar”, onde a felicidade deixa de ser “consequência colateral da busca de algum fim comunal superior” e se torna uma finalidade a ser assumida por cada indivíduo (Rieff, 1996, p. 13, p. 261 ).

A maior parte dos estudos que sucederam à formulação original de cultura terapêutica frisou a dimensão do bem-estar e propôs como conceitos-chave o hedonismo e o narcicismo. Está explícito no próprio termo que esse tipo de cultura se caracteriza também por um modo singular de lidar com o sofrimento. Nas culturas ocidentais anteriores, as instituições que orientavam a conduta individual eram a família e Nação, ou a Igreja e o Partido; sua existência proporia aos indivíduos que renunciassem a seus prazeres e suportassem o sofrimento da renúncia em nome de algum bem comum. Numa cultura terapêutica, porém, o único “bem comum” é a felicidade de cada indivíduo; desse modo, as instituições relevantes são o Teatro e o Hospital, a busca da excitação e o cuidado com o sofrimento (Rieff, 1996, p. 24).

O Teatro e o Hospital  são os dois lados de uma mesma moeda – o lugar central ocupado pelas emoções dos indivíduos. Desse modo, a análise das culturas terapêuticas não pode se deter nos valores e práticas que autorizam e estimulam a busca do bem-estar; ela deve também considerar, em primeiro lugar, que sofrimentos são selecionados como contingentes, como estando ao alcance da ação humana, e, em segundo lugar, qual é a distribuição de responsabilidade entre a ação individual e a ação coletiva pela existência desses sofrimentos selecionados.

Uma narrativa simples de progresso suporia que, cada vez mais, graças aos avanços tecnológicos e políticos, sofrimentos antes tidos como necessários passam a depender da ação humana. Propor que há seleção ao invés de progresso indica que a relação é mais complexa. Alguns sofrimentos que, anteriormente, eram vistos como contingentes podem passar a ser concebidos como necessários. A relação é complexa, sobretudo, porque a dependência dos sofrimentos em relação às ações humanas não tem relação direta com o que conseguimos fazer e, sim, com o que desejamos que exista. Durante muito tempo na cultura ocidental acreditou-se que a morte estaria ao alcance das ações dos indivíduos sobre eles mesmos: se bem agissem, conquistariam a imortalidade bem-aventurada. A seleção e a distribuição de responsabilidade pelos sofrimentos depende dos valores que uma dada cultura mantém; assim, o sentido ético da cultura terapêutica aparece quando se analisa o modo como se lida hoje com pobreza, desigualdade, doenças, crimes, acidentes e catástrofes.

 

2 – Sujeito, sofrimento e sexualidade

Uma objeção imediata ao esforço de apreender a singularidade das culturas ocidentais contemporâneas através do conceito de “cultura terapêutica” é a observação de que todas as culturas promovem terapia, consolam os indivíduos. Rieff nota, porém, que as terapias anteriores, ao menos no ocidente, se caracterizavam pelo comprometimento e, ao mesmo tempo que consolavam, admoestavam, articulando causalmente a existência do sofrimento a alguma imoralidade cometida pelo indivíduo. Daí serem culturas da culpa; quando sofriam, os indivíduos deveriam dizer “sofro por minha culpa” (Rieff, 1996, p. 15 ).

Devido à relevância histórica do cristianismo no Ocidente, os prazeres do sexo durante séculos delimitaram a parte dos indivíduos que, simultaneamente, deve ser renunciada e que, caso não haja renúncia, provoca sofrimento. Para usar uma formulação de Foucault, mais ampla historicamente, na medida em que inclui a antiguidade greco-romana, foi na problematização dos prazeres sexuais que emergiu o sujeito (Foucault, 1994, p. 14). Para apreender como as culturas contemporâneas lidam com o sofrimento, é preciso, portanto, estimar as consequências morais da profunda transformação na sexualidade ocorrida nas últimas décadas. Com a liberação sexual, talvez tenhamos perdido o princípio a partir do qual os indivíduos de culturas ocidentais anteriores explicavam grande parte dos sofrimentos que lhes ocorriam.

Em O Crepúsculo dos ídolos, na sua famosa crítica à causalidade em sua dimensão moral, Nietzsche propõe a metáfora do sonhador e do tiro de canhão para se pensar a relação entre presente e passado e, mais radicalmente, o sentido de ser sujeito. O estampido ecoa, mas só irá aparecer na consciência após o sonhador ter inventado para si uma história que explique o advento do som como tendo dele dependido de alguma forma: o que veio após o tiro aparece na consciência como sendo anterior. Trata-se da transformação do acaso em sentido: o sofrimento inesperado torna-se consciente após uma explicação causal que o torna dependente das ações do indivíduo (Nietsche, 2006, p. 42). A apreensão linear do tempo, onde o passado causa o presente que, por sua vez, causa o futuro é errônea por ignorar o sentido existencial das construções causais. O acontecimento inesperado perturbador é a abertura do tempo, pois força o presente a inventar para si um novo passado explicativo. Na sequência, Nietzsche mostra que as construções causais inventadas pela moral e pela religião são de dois tipos básicos: ou o indivíduo sofre pela ação de outros que lhe querem mal (o que mantém seu papel central nas narrativas que inventa) ou seu sofrimento é causado por suas falhas morais (Nietzsche, 2006, p. 44-5). Todo sofrimento que nos chega inesperadamente é imaginariamente concebido como tendo dependido da obediência ou não a regras morais. O que vale para o eixo entre sofrimento presente e ação passada vale para aquele entre ação presente e estado mental futuro, só que numa dimensão de esperança: o indivíduo pode não sofrer se for moral.

O sujeito emerge pela e com a ilusão de controle da consciência do indivíduo sobre uma parte dele mesmo e, graças a esse controle, sobre os eventos que podem vir a lhe ocorrer. Através da ação do indivíduo sobre uma parte de si mesmo, o futuro se tornaria passível de ser conhecido, calculado e dependente da ação individual. Como a ação sobre si é ascese, é renúncia aos prazeres do corpo, o sujeito é caracterizado pela fórmula: “é preciso sofrer para não sofrer”. Se um sofrimento experimentado pelo indivíduo é atribuído a alguma falha moral, a ascese, a renúncia voluntariamente imposta,  é condição para evitar os sofrimentos que chegarão por acaso. No seu aspecto positivo, a fórmula se torna: “a renúncia ao prazer é condição de se obter prazer”. Também aqui o paradoxo é aparente: os prazeres a que se deve renunciar são os prazeres do corpo, qualitativamente distintos e inferiores à “alegria” a ser obtida no futuro.

É preciso que a parte de nós mesmos a ser controlada seja particularmente rebelde a nossos esforços; caso contrário, talvez se torne evidente que o controle de si não tem relação com o controle do acaso. Apesar da renúncia total aos prazeres, os sofrimentos continuariam a ocorrer. Freud, em Moisés e o Monoteísmo, sintetiza com argúcia a relação entre impossibilidade de domínio absoluto sobre si mesmo e a manutenção da crença no controle do futuro. A sabedoria do povo judaico consistiu em criar uma lei moral impossível de ser cumprida: quem não deseja a mulher do próximo ou não precisa desagradar seus pais para se tornar minimamente autônomo, para ser o que deseja e não o que eles desejam? Sob um primeiro ponto de vista, essa sabedoria consiste na produção de culpa; os indivíduos se angustiarão com seu desejo, pois nunca conseguirão ser o que se deve. E indivíduos culpados são frágeis e dóceis, dispostos a escutar e a seguir recomendações morais. De outro ponto de vista, a impossibilidade de cumprir a lei torna abundante a oferta de atos imorais, assegurando a possibilidade de reconduzir um dado sofrimento a uma ação anterior do indivíduo. A impossibilidade de domínio completo sobre si é condição para que se continue a acreditar na possibilidade de controlar os sofrimentos que nos ocorrem.

Após a definição do sujeito, cabe retomar a questão proposta por Foucault: mas por que foi na renúncia aos prazeres sexuais que emergiu o sujeito? Responder por afirmar que é difícil dominá-los equivale apenas a mostrar uma relação estrutural entre os prazeres sexuais e a crença no domínio do futuro. Não se compreende como se dá a relação. Foucault propôs um primeiro caminho ao tentar conceituar o poder pastoral, voltando-se, como Freud, para o surgimento do monoteísmo. Haveria uma diferença fundamental entre deuses que possuem a terra e o Deus que promete uma terra, seja ela Israel ou o paraíso (Foucault, 2004 a, p. 670). No primeiro caso, a hierarquia entre os homens segue sua maior ou menor proximidade com os deuses, legitimando o uso diferencial da terra e estabelecendo, ao mesmo tempo, a oferenda como forma da relação entre o poder dos deuses e o desejo dos homens. Segundo a Ilíada e a Odisséia, todo nobre grego era descendente de algum deus, ao mesmo tempo em que se mantinha com rigor a lógica de que, quanto mais difícil é o que se deseja, maior deve ser a oferenda.

Um Deus que promete a terra, por sua vez, pode salvar a todos; contudo, exige que os indivíduos sigam suas regras para chegar à terra prometida. A crença nessa forma do divino reforça a consciência de si, a atenção dos indivíduos à sua conduta, pois é esta que se oferece ao Deus como sacrifício. Como não há recompensa maior do que a terra prometida, para manter alguma equivalência entre a oferenda e o que se espera em retorno, a renúncia deve incidir sobre o prazer mais intenso.

Embora interessante, essa resposta é duplamente parcial. Depende da crença em um Deus onipotente, não sendo, portanto, capaz de explicar a existência do sujeito na Grécia ou o sujeito nas culturas Modernas, marcadas pela “morte de Deus”. Também só explica a relação positiva entre renúncia ao prazer sexual e conquista da alegria. A resposta se completa quando se compreende que, desde os gregos, os prazeres sexuais são tidos como perigosos, induzindo os indivíduos à perda, mesmo que instantânea, da consciência de si, fragilizando sua saúde pelo gasto de uma substância preciosa e, assim, conduzindo-o à morte (Foucault, 1994, p. 114-26). Para crer que agindo sobre uma parte de si mesmo o indivíduo controla uma série de eventos negativos que podem vir a lhe ocorrer, é preciso conectar esta parte a que se deve controlar ou renunciar a uma série de males. Quanto maior for a lista, mais sólida será a crença na possibilidade de controlar o futuro e maior será o esforço de restringir os prazeres.

O cristianismo reforçou absolutamente o nexo entre prazer sexual e sofrimentos ao articular a própria fragilidade humana não mais ao fato de sermos mortais, mas às perturbações da consciência de si provocadas pelos pazeres sexuais. De fato, a própria finitude teria como signo e experiência a incapacidade da vontade em controlar os prazeres sexuais. Seguindo os estudos do historiador Peter Brown, Foucault destaca a inovação de Santo Agostinho na narrativa da gênese como sintoma desse poder inaudito dos prazeres sexuais (Brown, 1990, p. 342-44; Foucault, 2004 b, p. 800-2). Para o filósofo cristão, teria havido sexo antes do paraíso. Contudo, o corpo obedecia plenamente à vontade de Adão; o ato sexual se assemelharia ao ato de semear a terra por um agricultor. Quando quis ter vontade própria e desobedeceu a Deus, Adão perdeu o suporte ontológico que permitia o controle do corpo pela vontade; de imediato, sua carne se ergue em rebeldia à sua vontade, o que explica o uso da folha de parreira. E Santo Agostinho, já idoso, lamentava que ainda tivesse emissões noturnas; era a lembrança de que era mortal, de que não havia, como houve com Adão, harmonia entre sua vontade e seu corpo.

Os cristãos também fizeram do desejo sexual uma potência capaz de insidiosamente disfarçar sua presença à consciência. Um desejo opaco à consciência implica o esforço indefinido de saber o que verdadeiramente se deseja quando se deseja. A fragilidade da presença a si provocada pelos prazeres sexuais, isto é, tanto a ausência de domínio de si durante o ato sexual quanto a opacidade do desejo, está diretamente articulada à finitude, ao fato de sermos mortais e de experimentarmos todo e qualquer sofrimento nessa vida. A contrapartida dessa crença é uma imensa esperança; o esforço em tomar consciência sobre o que se deseja e de renunciar aos prazeres sexuais é modo de lutar contra a morte e conquistar a imortalidade bem aventurada. Se a finitude está vinculada ao fato de os prazeres sexuais fazerem com que escapemos de nós mesmo, é possível sonhar com a imortalidade.

Pelo declínio da relevância social da esperança de imortalidade e pela valorização da vida ordinária, as culturas modernas tiveram que retrabalhar o nexo entre sexualidade e sofrimento. Não se tratava mais de colocar o prazer sexual como origem da finitude, mas de associá-lo à perda da saúde. Em A vontade de saber, Foucault propõe que o sexo teria sido dotado de “um poder causal inesgotável e polimorfo” (Foucault, 1984, p. 64). Um mínimo desvio poderia ter consequências terríveis e toda doença ou perturbação física ou mental teria, ao menos em parte, uma etiologia sexual. Uma vez mais, esse poder imenso em causar males alimenta a crença na possibilidade de ser sujeito.

Ao longo do século XX esse potencial causal inesgotável e polimorfo foi sendo questionado, mas uma outra crença manteve o lugar central do sexo na economia moral dos indivíduos, aquela afirmando que não é a renúncia, mas a repressão sexual o que causa inúmeros sofrimentos, até pelo nexo imaginado entre repressão sexual e dominação capitalista. Se grande parte dos sofrimentos experimentados pelos indivíduos podem ser atribuídos ao capitalismo e esse, por sua vez, depende da repressão sexual para existir, agir sobre essa parte de si mesmo, agora tentando liberar ao invés de renunciar, seria modo de evitar sofrer. Também o sexo se inscreve no futuro, pois “a crônica menor do sexo e de suas vexações se transpõe, imediatamente, na cerimoniosa história dos modos de producão” (Foucault, 1984, p. 11). Uma vez mais, é possível transformar o acaso em sentido, fazer com que os acontecimentos que nos chegam pareçam depender do que fazemos com nós mesmos.

O conceito de cultura terapêutica foi formulado por Rieff considerando especialmente as teorias de Reich e D. H. Lawrence, defensores ardorosos da liberação sexual e do seu potencial de transformação social. Mas é contingente o nexo entre cultura terapêutica e os discursos que articulam revolução social e liberação sexual. O capitalismo continuou a ser o modo de organização da economia, ao mesmo tempo em que ocorreu uma transformação profunda nas práticas sexuais. De fato, pode ser dito que é a perda do lugar central do sexo na moralidade social o que caracteriza a cultura terapêutica hoje. E essa perda de lugar talvez tenha sido a herança deixada pela “revolução de maio de 68” e pela AIDS.

Uma primeira conceituação da mudança nas prática sexuais ocorrida desde a década de 60 seleciona a relativização da castidade, da monogamia e da heterossexualidade (Taylor, 2007, p. 485). E certamente essas transformações mudaram as práticas sexuais. As duas primeiras favorecem a multiplicação das possibilidades de prazer. A terceira reduz a inquietação com o que verdadeiramente se deseja quando se deseja, desestigmatizando grande parte das práticas sexuais anteriormente qualificadas como perversas e, senão convidando, ao menos não impedindo uma maior experimentação dos indivíduos em relação às formas de se obter prazer no ato sexual. Contudo, se o que importava, para a existência do sujeito, era a crença na possibilidade de controlar o futuro através da ação sobre a sexualidade, a mudança decisiva nos últimos 40 anos foi a desvinculação entre prazer sexual, perturbação da consciência de si e finitude. Que o prazer sexual seja intenso, que o indivíduo tenha reduzida a sua presença a si e a sua capacidade de comandar seu corpo quando o experimenta, isso não parece ter mais nenhuma relação com as doenças orgânicas e mentais que podem lhe acontecer; inversamente, não se pode imaginar nenhuma recompensa articulada a sua renúncia ou desrepressão. Daí também a relevância da AIDS, pois conecta ato sexual e morte sem nenhum vínculo direto com a perturbação da consciência de si.

A mudança no sentido e valor das práticas sexuais dificulta aos indivíduos atribuírem o sofrimento experimentado a uma falha moral, dificulta afirmarem “sofro por minha culpa”, afirmação que, ao mesmo tempo, lhes dava esperança de não sofrer se bem agissem. As terapias de maior sucesso social não admoestam ou sequer propõem aos indivíduos pensarem a implicação de seu desejo no que lhes acontece; seu único ensinamento parece ser aliviá-los da culpa que tanto os obceca e que os faz se depreciarem, ensinando-os, não a aceitar o acaso, mas a descobrirem que sofrem por culpa do outro. A liberação da sexualidade institui a figura da vítima como a forma subjetiva da cultura terapêutica. Essa nova figura implica tanto a elevação de certos sofrimentos ao estatuto de contingentes, quanto redistribui a responsabilidade pelo seu advento entre ação individual e ação coletiva.

 

3 – A responsabilidade pela existência de doenças orgânicas

Um modo de transformar o direito à felicidade em preceito moral é articulá-lo ao princípio do não-dano, formulado ainda no século XIX por Stuart Mill. Numa forma simplificada, de modo a indicar sua hegemonia na atualidade, o princípio afirmaria que ninguém tem o direito de interferir na busca singular de prazer de cada indivíduo, a não ser que cause dano ao outro. O vigor cultural desse princípio implica, em primeiro lugar, que não há consenso sobre o que é a boa vida. Mas por reversibilidade, isto é, o que vale para um indivíduo deve valer para todos, três valores gerais são derivados: o hedonismo, a tolerância e a compaixão. Bom será aquele que é tolerante e que, na busca medida de seus prazeres, considera a possibilidade de fazer o outro sofrer.

A inexistência de consenso sobre a boa vida conduz ao esforço de extrair das emoções dos indivíduos a capacidade de agir moralmente. A compaixão tem uma posição central; de um lado, participa da redução do limiar a partir do qual se considera socialmente que é preciso ajudar alguém; de outro lado, será uma forma de propor a limitação nas práticas de prazer dos indivíduos. Essa posição aparece com clareza no modo como são pensadas hoje as causas para as doenças orgânicas e mentais.

No caso das doenças orgânicas, a diferença histórica aparece na compreensão causal das doenças crônico-degenerativas, principalmente as doenças cardio-vasculares e os cânceres, que se tornaram a principal causa de morte após a invenção dos antibióticos e a consequente redução da morbidade das doenças infecto-contagiosas. A nova compreensão da causalidade é a formulação do conceito de fator de risco, que aparece desde o final da Segunda Guerra na análise da relação entre câncer de pulmão e consumo de cigarros, mas que se torna presente no senso comum a partir dos anos 70.

O conceito de fator de risco, em primeiro lugar, propõe um nexo probabilístico e um intervalo temporal longo  entre exposição ao fator e aparecimento do sintoma, da contrapartida subjetiva de uma doença. Um fator de risco para uma determinada doença não é uma causa nem necessária, nem suficiente; é, sim, o que amplia a probabilidade de seu surgimento. E pelo intervalo longo, o indivíduo deve se preocupar com sua saúde mesmo sem experimentar nenhum mal estar; de fato, o conceito de fator de risco faz dos indivíduos doentes virtuais, ou quase-doentes, recomendando, portanto, a modificação das práticas tendo em vista a redução das chances de adoecer.

O terceiro elemento decisivo do conceito de fator de risco está implícito na frase anterior: trata-se da conexão probabilística entre o advento de doenças e hábitos cotidianos, especialmente as práticas de prazer na alimentação, bebida e uso de drogas. Também aqui o futuro se torna calculável e dependente de uma ação do indivíduo sobre uma parte dele mesmo; tambem aqui o futuro aparece segundo a relação entre crédito e dívida: bem agir significa receber um crédito na forma da esperança de não sofrer no futuro e fazer o que não se deve tem como contrapartida a possibilidade algum castigo.

No caso das doenças crônico-degenerativas, pelo vínculo entre sofrimento futuro e práticas de prazer, parecemos estar diante da continuidade do sonho de controlar os sofrimentos através da restrição do prazer corporal. É preciso, porém, atentar para as diferenças entre os ascetismos anteriores e o contemporâneo. A primeira diferença é não haver mais a prescrição de restringir os prazeres sexuais. Mesmo que seja um mero signo, mais uma curiosidade do que uma evidência, pode-se recordar do comentário recente do ministro da saúde do Brasil recomendando que se praticasse o sexo ao menos cinco vezes por semana: o ato sexual seria um bom exercício e sua prática frequente reduziria a hipertensão e, assim, ajudaria a evitar doenças cardiovasculares.

Uma outra diferença importante reside na própria idéia de uma causa probabilística. Uma temporalidade ordenada pelos conceitos de crédito e dívida será tão mais exigente quanto mais poderoso for o credor. A vacância do divino nos deixa apenas com a medicina, um saber falível porque humano, saber que, no caso do conceito de fator de risco, limita-se a estabelecer relações mais ou menos prováveis entre prazer e sofrimento. Não há certeza nem no castigo, nem na recompensa. O indivíduo pode ter hábitos saudáveis e, mesmo assim, contrair a doença que queria evitar; ele só tinha reduzido as chances da doença aparecer. Inversamente, pode não adoecer mesmo sendo descuidado com sua saúde; seu desleixo só tinha aumentado a probabilidade de contrair a doença.

A incerteza perturba a moralidade. A função moral do conceito de risco é a de antecipar o arrependimento: os indivíduos devem agir agora considerando o que pensarão no futuro de sua ação presente se porventura adoecerem. Mas a incerteza não reside só na existência ou não do evento futuro antecipado; reside também no tipo de observador de suas ações que o indivíduo será no futuro. Dependendo de quem ele será, talvez se arrependa não de ter feito, mas de não ter feito, de não ter aproveitado a vida como deveria e enquanto tinha chance. Por reafirmar a incerteza do futuro, o impulso à ascese é contrabalançado internamente pelo impulso oposto, de aproveitar a vida enquanto é possível.

O impulso à ascese também é contrabalançado do exterior. O discurso médico não é o único a orientar nossas vidas – e é difícil determinar se é o mais importante. O capitalismo de consumo torna essencial não mais a capacidade de poupança, de adiar o gozo para fazer face à possibilidade de eventos negativos no futuro, e, sim, a capacidade de receber crédito (Bell, 1996, p. 293). O discurso incitando ao consumo enfatizará não uma temporalidade em que o futuro é calculável e está ao alcance da ação humana, mas aquela que frisa o efêmero e as oportunidades que talvez sejam únicas, irrepetíveis. Ao invés de renunciar, o lema é “goze agora e deixe para pagar depois”; afinal, a chance de ter prazer pode não aparecer novamente e iremos morrer, de todo modo.

A ausência de hierarquia entre formas de prazer também favorece a pressão da temporalidade do consumo na limitação do impulso à ascese. De fato, o prazer a ser obtido através da renúncia é qualitativamente idêntico ao que se renuncia; trata-se do prazer vinculado ao corpo. É certo que o “bem-estar” como objetivo a ser alcançado não é descrito como um prazer corporal; contudo, é um sentimento e está vinculado a uma série de práticas que envolve os prazeres do corpo. O “bem-estar” não tem a dimensão de sublimação.

A ausência de consenso sobre a boa vida e a valorização da experimentação faz com que os indivíduos, a cada oportunidade de prazer, sejam pressionados pela questão “e por que não fazer?”. A ausência de diferença qualitativa entre o prazer a que se renuncia e aquele a ser obtido pela renúncia faz com que os indivíduos, diante da recomendação de ascese ou de adiamento da gratificação, sejam pressionados pela questão “e para que fazer?”. Pela semelhança entre o presente da renúncia e o futuro da recompensa e pela incitação ao consumo, as culturas terapêuticas contemporâneas não estimulam os indivíduos a se projetarem no futuro. Como veremos, não é por acaso que um dos critérios mais usados na definição de doença mental hoje seja a “impulsividade”, a incapacidade de se projetar no futuro, tanto na forma de consideração das consequências negativas, quanto na capacidade de renunciar a um prazer presente tendo em vista um “prazer maior” no futuro.

Em suma, embora o conceito de fator de risco recomende a restrição aos prazeres, essa restrição não incide sobre os prazeres sexuais e é contrabalançada, internamente, pela incerteza do futuro implícita na forma da causalidade e, externamente, pela incitação ao consumo e pela ausência de hierarquia entre o prazer da renúncia e aquele da recompensa. A solução é um compromisso entre prazer e moderação. O indivíduo deve ser capaz de considerar os riscos, mas deve saber também que a moderação absoluta é sem sentido, e moderar, portanto, a própria moderação.

Há um lugar onde a moderação é absoluta. O princípio do não-dano orienta a sensibilidade dos indivíduos na relação entre prazer e doença. Diante daquele que contraiu uma doença crônico-degenerativa e tinha um estilo de vida desleixado, embora não haja compaixão, pois, de certo modo,  encontrou o que procurava, haverá a tolerância: mesmo que não fosse saudável, ele também tinha direito a sua busca singular de prazer. Haverá indignação e, crescentemente, restrição legal se, na sua busca de prazer, ele causa dano ao outro. Os temas sociais do “fumo passivo”, do “motorista bêbado” e da “grávida que bebe ou se droga” indicam esse lugar onde a renúncia é obrigatória.

Para sintetizar, é interessante comparar a experiência contemporânea da doença gerada pelo conceito de fator de risco com a experiência moderna, marcada pelas doenças infecto-contagiosas. A primeira característica da experiência moderna é a normalidade ser um dado imediato, sem definição; era apenas o sentimento subjetivo associando vitalidade e ausência de sintoma: “a saúde é a vida no silêncio dos órgãos” (Canguilhem, 1998, p. 164). Por isso mesmo, a normalidade era a regra, no sentido de que a maior parte dos indivíduos, na maior parte do tempo, se sentiam saudáveis. E como as doenças infecto-contagiosas são agudas e tem tipicamente um intervalo curto entre a exposição ao agente e a manifestação do sintoma, o cuidado com a saúde era limitado no tempo e no espaço. Ao sentir dor, o indivíduo ia ao médico na esperança de que ele transformasse a dor em sintoma e definisse um tratamento; enquanto experimentava a limitação das normas vitais próprias da doença, o indivíduo, exatamente por estar limitado, aceitava as restrições de comportamento propostas pelo médico. Se o tratamento fosse bem-sucedido, o indivíduo retornava à vida ordinária, sem se preocupar com sua saúde até o momento onde uma outra dor aparecesse.

A primeira mudança trazida pelo conceito de fator de risco é a produção de uma normalidade cada vez mais difícil de ser conquistada e, segundo algumas definições, inatingível. Thomas Dawber, um dos médicos que ajudou a estabelecer a hipertensão e o colesterol alto como fatores de risco para doenças cardiovasculares, afirmou, ainda na década de 60, que o normal não é mais o indivíduo que não possui doença; é, sim, aquele que, além de não estar doente, tem uma baixa probabilidade de adoecer de qualquer coisa e que, no limite, não contrairá doença alguma (apud Aronowitz, 1998, p. 140). Embora seja curiosa a suposição implícita de imortalidade nessa vida – se não contrair doença alguma, de que morreria o indivíduo? – a definição sinaliza o movimento que ocorreu recentemente com diversos índices de normalidade, que se tornaram cada vez mais exigentes, como o nível saudável de colesterol, de tensão arterial, de glicose, etc. A contrapartida dessa normalidade difícil de ser conquistada, pois definida pela probabilidade de adoecer, é a generalização do estado de quase-doença. Como não existe risco zero, o indivíduo nunca estará nem saudável e nem curado, o que provoca um cuidado crônico com a saúde, sem limites espaciais e temporais. O indivíduo deve cuidar de sua saúde desde o nascimento até o instante em que percebe não ser mais possível adiar a morte. O sintoma mais evidente do cuidado crônico é a crescente indistinção entre alimentação, que é cotidiana, e medicação, antes temporária. Talvez nenhum indivíduo de meia-idade coma hoje uma feijoada sem se angustiar com a quantidade de colesterol que está ingerindo; ao mesmo tempo, são aconselhados a procurar alimentos leves e que contenham substâncias capazes de reduzir as chances de adoecer.

 

4 – A distribuição de responsabilidade nas doenças mentais

Na cultura moderna, três personagens, aparentados, ocupavam o lugar do anormal: o louco, o perverso sexual e o delinquente (Foucault, 1984, p. 41). Esse parentesco implica que a loucura seja percebida na sua relação com o crime (deliquência) e a imoralidade (perversão sexual). Sob outra perspectiva, a loucura deixa de ser percebida a partir da desrazão e do delírio, e passa a ser percebida segundo a dimensão de uma vontade que não se controla ou que se dirige a objetos inapropriados. Daí a importância, no século XIX, do tratamento moral da loucura, onde a vontade rigorosa do psiquiatra substituía a vontade deficiente do paciente até que este aprendesse a se dominar, e da noção de monomania, que designava um indivíduo absolutamente normal em seu comportamento a não ser por uma única prática, com sua loucura se revelando através de algum ato criminoso ou imoral, como no caso da monomania homicida, da cleptomania ou da ninfomania.

Essa relação entre loucura, crime e imoralidade implicava que o número de doentes mentais era relativamente pequeno e que a grande maioria dos loucos fosse internada, ao invés de voluntariamente buscar tratamento. Afinal, sua loucura se manifestava em atos desviantes e, inversamente, onde houvesse comportamento desviante, haveria a suspeita de doença mental. Mais profundamente, essa relação indica a formação do poder normalizador, pastoral. Imorais e criminosos não deveriam ser o objeto de indignação e desprezo; seriam doentes, com seu comportamento sendo determinado, ocorrendo apesar de si mesmos. Pode-se mesmo propor que não houve uma modificação grande no código moral e criminal no surgimento da modernidade; a mudança maior residiria no modo de lidar com esses desviantes: a punição, ao invés de espetacular e dolorosa, deveria ser, de fato, um tratamento.

Embora a anormalidade fosse rara, o poder normalizador dividia os indivíduos entre si e, por isso mesmo, dividia o interior de cada um segundo a polaridade entre normal e anormal. Com a anormalidade internalizada como virtualidade, cada um se inquieta sobre o que verdadeiramente deseja quando deseja e qual é o sentido e valor do que deseja e faz. Uma das formas do anormal é o “incorrigível corrigível”, alguém que até agora não teria conseguido ser normalizado por instituições disciplinares como a família e a escola, mas que, por isso mesmo, precisa entrar em instituições mais rigorosas, como o internato, o reformatório, a prisão e o asilo (Foucault, 2002, p. 73). Inversamente, o normal é aquele que conseguiu objetivar a parte de si mesmo que o tornaria anormal.

Por ser um incorrigível ainda corrigível, é suposto haver um resto de normalidade em todo anormal. Assim, a cura de um doente mental requeria que este tomasse consciência de sua loucura, enunciando então a frase “Eu sou louco”, enunciação que, ao contrário dos atos de fala teorizados por Austin, não estabelecem a realidade do referente que designam, mas a desfazem (Foucault, 2004 b, p. 791). Cabe notar ainda que esse resto de normalidade não apenas determinava a objetivação de si,  a tomada de consciência como forma de cura; também era um requisito básico da atitude compassiva, pois abria a esperança de fazer do diferente o mesmo.

Como síntese da experiência moderna da loucura, teríamos uma estrutura parecida com a experiência das doenças orgânicas na modernidade. Embora incerta sobre si mesmo, a normalidade era um dado reiterado pela diferença com os internados; desse modo, a população fora do asilo era numericamente bem superior. O cuidado com a saúde mental, por sua vez, era restrito no tempo e espaço, seja pela praticamente do internamento, seja pela possibilidade teórica de cura nos asilos através da tomada de consciência.

O que chama imediatamente atenção nas culturas ocidentais contemporâneas é o fato de as doenças mentais terem se tornado um fenômeno de massa. A OMS afirma que, a cada ano, cerca de um quarto da população mundial passa por algum problema de saúde mental (apud Ehrenberg, 2004, p. 141). Como a sobreposição não deve ser absoluta, é possível pensar que, após alguns anos, a maioria da população mundial terá passado por algum problema de saúde mental.

Como é possível explicar essa posição majoritária? Diversos estudiosos propõem como resposta que nossa cultura está considerando como doentios comportamentos e emoções antes tidas como normais, movimento que é favorecido pelo interesse econômico de empresas farmacêuticas que produzem medicamentos capazes de alterar o funcionamento químico do cérebro. Embora esse nexo entre comportamentos tornados patológicos e interesses econômicos contenha, em linhas gerais, parte da resposta, ele tem uma dimensão de denúncia simplificadora que se torna aparente pela reação de pacientes a cada ocasião em que um estudioso procurou “descontruir” a realidade de sua doença mental. Imediatamente, os pacientes denunciam a insensibilidade e o preconceito do pesquisador. Ao menos para os que desejam se enquadrar nos novos diagnósticos, reconhecer o sofrimento não implica, como antes, mostrar que não há doença mental onde se pensava haver; implica, sim, aceitar a realidade da doença e participar de grupos de pressão visando a obter mais verbas de pesquisa para a descoberta de tratamentos eficazes.

Não estamos mais em uma sociedade onde a moralidade supõe haver, no desvio, doença ao invés de diferença e convite a experimentação de si mesmo e do mundo. É preciso, portanto, repensar a relação entre loucura e moralidade hegemônica, pois houve uma transformação do código e não meramente da forma de poder. E essa transformação foi capaz de incorporar diversos aspectos da crítica à normalidade formulada na década de 60, especialmente o direito ao prazer aqui e agora, a liberação da sexualidade e a recusa do paternalismo próprio ao poder pastoral.

É preciso, porém, frisar a necessidade de análise do nexo entre moralidade e doença mental. Afinal, a abertura dos muros do asilo não fez com que todos se considerem e sejam considerados normais. Ao contrário, como afirmam as estatísticas, todos parecem ter se tornado doentes. Como estratégia de análise, o princípio do não-dano será articulado a conceituação contemporânea das doenças mentais, pois este princípio distribui os indivíduos, e os doentes mentais, entre agressores e vítimas. No caso dos agressores, será mantido o nexo entre doença mental, crime e imoralidade, assim como a sua relativa raridade – embora, claro, para haver medo, será dito que esses criminosos e imorais podem estar em toda parte e ser qualquer um. Haverá também o caso de doentes que oscilam entre serem agressores e vítimas: são os compulsivos, que, por serem incapazes de dominar a relação com o que lhes dá prazer,  não consideram o risco para si e para os outros. Afirmar que há doença terá, como no caso anterior, a função de alertar para o perigo. Por fim, haverá a situação dos doentes mentais que só são vítimas, estatuto criado pelos conceitos de estresse pós-traumático, auto-estima e sofrimento. O impressionante aumento da prevalência nas doenças mentais estará vinculado aos compulsivos e às vítimas.

As doenças mentais cujo diagnóstico é trabalhado pela imoralidade e o crime são a pedofilia, o estupro sexual e o transtorno de personalidade anti-social. O interessante aqui é que o estatuto de doente mental não atenua a pena e nem propõe a compaixão; eles são apresentados como meros agressores. Talvez porque exista duas diferenças decisivas entre esses doentes mentais e o anormal. A primeira é a insistência médica e de senso comum na ausência de compaixão que os caracterizaria e que explicaria que eles possam fazer o que fazem. A segunda, mais presente nas narrativas sobre seus crimes nos meios de comunicação, é a de que eles não têm cura. Talvez porque o que seja necessário instalar nesses indivíduos não seja mais o domínio da consciência de si sobre o comportamento e, sim, a presença da consideração com o sofrimento do outro. A história típica, tantas vezes repetidas nos meios de comunicação de diversos países, é a de esses doentes mentais continuarem a cometer crimes imediatamente após a sua saída de um asilo ou prisão.

Para haver compaixão em casos onde criminosos provocam sofrimentos, não é suficiente a suposição de comportamento determinado; é preciso acreditar na possibilidade de cura. Daí ter surgido em diversos países leis que autorizam a prática de detenção indefinida. Dado o juízo de peritos sobre o risco que continuam a representar para a sociedade, esses criminosos, mesmo após terem cumprido sua pena, podem ficar presos indefinidamente, sem ter, portanto, a oportunidade de provar que não seriam mais perigosos. São punidos segundo o risco que incorporam, pois continuarão presos não pelo que fizeram, mas pelo que é cientificamente provável que façam.

A pedofilia e o estupro são problemáticos pela escolha de objeto. Já o transtorno de personalidade anti-social, além da ausência de compaixão, traz como outro elemento caracterizador a impulsividade, isto é, a desconsideração do risco para si e para os outros quando se está diante de uma oportunidade de prazer e a dificuldade em adiar a gratificação tendo em vista a consecução de algum objetivo.

Pelo critério de impulsividade, esses doentes mentais se aproximam de muitos outros indivíduos, sejam eles doentes ou não. O transtorno do deficit de atenção e hiperatividade, por exemplo, também coloca a impulsividade como crucial. A “criminologia do desenvolvimento”, por sua vez, propõe que a presença de déficit de atenção e hiperatividade em crianças seria fator de risco para a criminalidade futura, sugerindo implicitamente a supervisão de tais crianças para evitar que se tornem criminosos (Farrington, 2002, p. 667-69). E uma teoria científica bastante difundida sobre os adolescentes propõe que seu “comportamento de risco” seria explicado pela interação entre duas redes cerebrais, a primeira dedicada ao processamento de recompensa e transformada imediatamente após as mudanças hormonais da puberdade, enquanto a segunda seria a rede cognitiva de controle, que antecipa riscos e, diante da antecipação, regula o comportamento. Como seria de se esperar, a segunda “amadurece lentamente” (Steinberg, 2007, p. 56). Embora saibam dos riscos, os adolescentes não conseguiriam regular seu comportamento pela pressão da rede que “processa a recompensa”.

É irônico que nossa cultura torne patológica a impulsividade, uma atitude que, ao mesmo tempo, é recomendada no registro do discurso publicitário. Constatar a ironia não basta. A cultura terapêutica tem a singularidade histórica do direito à felicidade e se instalou através do discurso de liberação do prazer aqui e agora. Mais do que tornar patológico aqueles que não seguem as suas regras morais e desejam ou praticam o que não devem, o que seria o caso nas culturas valorizando o bem comum e a renúncia, ela se preocupa com os excessos nas práticas de prazer que autorizou. E se o único lugar de garantia de “bom comportamento” na busca do bem-estar é a esfera psíquica do indivíduo na forma da compaixão e do cálculo do futuro, a cultura terapêutica proporá haver doença mental – e orgânica – onde quer que a busca do prazer ameace a possibilidade de uma vida longa e saudável, para si e para os outros.

Os comportamentos compulsivos estão estreitamente aparentados à impulsividade, pois também desconsideram as consequências futuras negativas das práticas de prazer. O que faz existir doença não é o objeto provocador de prazer; mesmo no caso de drogas, proibidas na grande maioria dos países, se houver moderação no uso, não há doença. O problemático é o que o prazer extraído do objeto provoca na relação do sujeito com seu futuro. Por isso mesmo, os comportamentos capazes de se tornarem excessivos e, assim, compulsivos parecem se multiplicar indefinidamente, ao menos segundo a iniciativa zelosa de alguns psiquiatras que contam com a anuência concernida dos meios de comunicação, sempre dispostos a alertar sua audiência dos perigos a rondar suas vidas. Além do álcool, das drogas, do cigarro e de medicamentos, reconhecidos oficialmente pelos manuais de psiquiatria, também poderia gerar compulsão diferentes alimentos (chocolate ou coca-cola poderiam causar dependência), a própria alimentação (uma explicação proposta para a obesidade), o prazer extraído do ato de consumir (credit card addiction), o trabalho (workaholics), e até o próprio exercício (vigorexia), supostamente manifestação de domínio da vontade sobre o prazer na busca da saúde, mas que pode se desvirtuar pelo próprio prazer que o autocontrole provoca.

Os indivíduos presos em comportamentos compulsivos oscilam entre as posições de agressor e vítima. Talvez pela força do movimento dos alcóolicos anônimos nos Estados Unidos, que serve de modelo para diversos grupos de auto-ajuda, eles são imediatamente identificados como vítimas, pois a compulsão dependeria do poder de causar dependência do próprio objeto ao qual está associada – ou da substância neuroquímica que o comportamento produz. Mas como a desconsideração do risco também vale para o que o comportamento provoca em outros, a sensibilidade social pode frisar a posição de agressor, propondo que o indivíduo deveria ser capaz de moderar suas práticas de prazer. De todo modo, a multiplicação dos diagnósticos no caso dos comportamentos compulsivos parece ter função semelhante àquela da relação entre doencas crônico-degenerativas e estilo de vida: temer excessos em praticamente todos os comportamentos, alertar os indivíduos para os riscos de um prazer que não se domina e desenvolver intervenções eficazes para indivíduos percebidos como descontrolados.

Para realçar ainda uma vez a perda de posição central da sexualidade na moral individual, é curioso o destino do diagnóstico de compulsão sexual. Foi formulado ainda no final de década de 70 e está adequado à mudança cultural, pois não se preocupa com a escolha de objeto sexual e, sim, com o risco: tanto heterosexuais quanto homosexuais poderiam sofrer de compulsão sexual. Os proponentes da doença dispõem de uma revista acadêmica publicada regularmente há 15 anos (Sexual Addiction and Compulsivity), organizam congressos e encontram espaço nos meios de comunicação para afirmar a existência da doença e mostrar que alguns indivíduos famosos dela padecem. Apesar de todos esses fatores favoráveis, não foi até hoje reconhecida pela associação de psiquiatria norte-americana e provavelmente não aparecerá no DSM-V. Com a exceção da pedofilia e do estupro, o prazer sexual parece estar aquém do limiar de preocupação social, só sendo relevante na vida afetiva dos indivíduos, mas não para sua moralidade.

O último grupo de diagnósticos irá definir os doentes mentais que só são vítimas. A psiquiatria, aqui, se desvincula do controle social, ao menos imediatamente, e deixa de se preocupar com o sofrimento que um indivíduo pode causar na sociedade. Sua atitude consiste em estar ao lado de todos aqueles que a sociedade e a vida fariam sofrer. Ao invés de zelar pela moralidade do grupo, trata-se de mostrar como o “moralismo” adoece inocentes. Para os sofrimentos individuais causados pela sociedade, o conceito-chave é o de auto-estima devido a sua relação com a dinâmica do reconhecimento e devido ao fato de essa dinâmica ter sido usada pelos movimentos de minoria para criticar a sociedade. Se a sociedade é marcada de preconceitos em relação a gênero, raça e preferência sexual, ela pode recusar reconhecer a dignidade de um dado indivíduo. Este, por sua vez, pode internalizar o preconceito e ter uma visão negativa sobre si mesmo, uma baixa auto-estima, o que limita suas capacidades de ser e agir. Tomemos o caso do estupro. Se é machista, a sociedade pode recusar que tenha havido crime e sequer reconhecer o sofrimento da vítima ao pensar que ela provocou o estuprador ou, mesmo, desejava o ato. A mulher, por sua vez, pode ter internalizado o preconceito e pensar que seu sofrimento teria sido causado por seu comportamento “provocador”. A possibilidade de cura dependerá de esse indivíduo compreender que a culpa não foi sua, mas do estuprador e, mais genericamente, da sociedade preconceituosa que, por preconceito, não previne nem pune tais comportamentos.

Essa forma de intervenção terapêutica e política pode ser aplicada para uma série de sofrimentos. Além da raça e da escolha sexual, a internalização de preconceitos ou de valores e modelos de ser dúbios, com a consequente baixa da auto-estima, estaria na origem de problemas como o desemprego crônico, a timidez excessiva, a depressão, os transtornos alimentares, etc.  A anoréxica internalizaria como ideal o corpo de modelos e, desse modo, ao se olhar no espelho, se depreciaria e nunca se acharia magra, isto é, boa, o suficiente, mesmo que esteja esquálida. O desempregado crônico, por sua vez, teria internalizado a reprovação social e fantasiaria uma culpabilidade individual quando, de fato, seu desemprego derivaria de uma multiplicidade de circunstâncias, grande parte delas sendo de responsabilidade coletiva (para a definição e posterior crítica dessa relação entre desemprego e auto-estima, ver Ehrenberg, 2010, p. 321-5). E retirar a fantasia de culpabilidade individual, aprender a dizer que o sofrimento é culpa da sociedade, seria condição para o indivíduo aumentar sua auto-estima e, assim, sua capacidade de agir, conduzindo-o a estudar, a se reciclar, a se projetar no futuro e, assim, talvez, conseguir um emprego.

A modificação recente no conceito de trauma psíquico é o segundo elemento a ampliar o número de indivíduos que se consideram e são considerados doentes mentais-vítimas. Pela hegemonia da psicanálise durante grande parte do século XX, pensava-se, primeiro, que um evento, por mais trágico que tenha sido, não seria nem causa suficiente, nem necessária de trauma: nem todos os que experimentavam um dado evento ficariam traumatizados e, inversamente, haveria traumatizados que não teriam experimentado nenhum evento trágico. Em segundo lugar, a posição central do complexo de édipo assegurava não só que a sexualidade seria traumatizante, mas também que o perturbador seriam as fantasias inconscientes – e não o evento.

Desde o final da década de 60, o lugar do desejo e da fantasia no trauma é fortemente criticado pelo movimento feminista. Se uma paciente recordasse uma cena de sua infância onde teria sido assediada sexualmente por um adulto, a escuta psicanalítica tenderia a supor que o evento não aconteceu e que a paciente se lembrava de uma fantasia. Em última instância, não importava se o assédio ocorreu ou não, pois o decisivo era revelar para o próprio indivíduo o seu desejo. Para o movimento feminista, recusar a realidade do evento e frisar a dimensão do desejo equivaleria a não reconhecer o sofrimento das vítimas de estupro e pedofilia. Ao invés de uma sexualidade traumatizante, trata-se de afirmar a existência de uma sexualidade traumatizada (Fassin e Rechtman, p. 34); pela violência do outro, suas vítimas não conseguiriam experimentar os prazeres do sexo.

O movimento de veteranos do Vietnam também foi decisivo na mudança do conceito de trauma. Uma demanda difícil de ser recusada é a de reconhecer o sacrifício daqueles que expuseram suas vidas para o bem comum, mesmo quando se questiona a legitimidade da guerra. Ao mesmo tempo, a sociedade norte-americana estava repleta de imagens mostrando que os supostos heróis tinham se comportado como criminosos, matando velhos, mulheres e crianças. A solução de compromisso foi a de supor que os responsáveis pelas atrocidades não seriam os soldados, mas os governantes que os tinham colocado em uma situação desumana capaz de suscitar o pior em indivíduos normais. De fato, os soldados seriam heróis nem tanto ou nem só por terem se arriscado pelo bem de todos, mas por serem vítimas, por terem sobrevivido e por sofrerem O trauma dos veteranos, seu sofrimento psíquico na forma de lembranças intrusivas do que experimentaram e fizeram, seria o testemunho vivo da presença de um resto de humanidade que se mantém em condições desumanas. Pela relação entre testemunho, condições desumanas e sofrimeto psíquico, o trauma dos veteranos será articulado ao sofrimento dos sobreviventes do holocausto (Fassin e Rechtman, 2009, p. 88-93).

A conjunção do movimento feminista e do movimento de veteranos do Vietnam produziu a primeira versão do conceito de estresse pós-traumático no DSM-III. Ao invés de dizerem “sofro por minha culpa” ou “sofro porque resisto a desejar meu desejo”, deverão aprender a dizer “sofro por culpa do outro”. E o evento causador tinha uma definição que buscava a objetividade, no sentido de privilegiar o olhar daqueles que observam as vítimas: um evento traumático causaria sintomas significativos em quase todo mundo e seria raro, fora da experiência ordinária. Os eventos trágicos selecionados eram as guerras, o holocausto, a tortura, o estupro e as catástrofes naturais. A condição de vítima não era generalizada. Desde o DSM-IV, assistimos a essa generalização. A ênfase não está mais na gravidade do evento admitida por qualquer observador externo; está, sim, na resposta emocional dos que passam pelos eventos, sua sensação de vulnerabilidade e desamparo, não importando que sejam ordinários e que parte significativa dos indivíduos possa experimentá-los sem nenhum transtorno psíquico. Desde então, serão estressores eventos tais como “ver um morto”, “saber da morte inesperada de conhecidos”, “testemunhar um acidente”, “saber da doença grave de parentes ou amigos”, etc.

Um segundo modo de generalização da condição de vítima pelo conceito de estresse pós-traumático se dá pela relação de proximidade dos indivíduos com o evento trágico. Anteriormente, só os sobreviventes de um evento e seus parentes poderia ficar traumatizados; após o atentado terrorista de 11de Setembro, diversos estudos sugeriram que até os norte-americanos que assistiram ao evento pela TV estariam com sintomas de estresse pós-traumático. Aqui no Brasil, seguindo essa estratégia, há estudos afirmando que também quem assiste a notícias de crime na TV estariam ficando traumatizados (Soares et alli, 2006, p. 25-85).

A contrapartida da generalização da condição de vítima é tornar patológicos eventos que necessariamente fazem parte da vida, como nascer, perder ou estar ameaçado de perder amigos e parentes, deparar-se subitamente com a morte de alguém ou estar diante da possibilidade de morrer. A disseminação desse conceito de doença mental no senso comum significa o aprendizado de um novo modo de dar sentido aos sofrimentos que, talvez, amplie a sensação de desamparo: os indivíduos saberão agora que podem “sofrer por ter sofrido” e que pode ser preciso consultar um especialista e tomar medicamentos para viver.

Cabe notar, uma vez mais, que essa produção de vulnerabilidade pode ser desejada por aqueles que serão considerados e se consideram como traumatizados. Diversas práticas contemporâneas mostram que não basta mais ser cidadão ou um ser humano para merecer a solidariedade social; é preciso, também, sofrer e nada melhor do que ter esse sofrimento atestado cientificamente pelo conceito de stress pós-traumático. Didier Fassin mostrou que a redução do número de imigrantes acolhidos opela França por razões políticas (direito de asilo) ao longo da década de 90 foi acompanhada do aumento do número de imigrantes aceitos porque sofriam de alguma doença que não teria tratamento em seu país de origem (Fassin, 2002, p. 681-83). Ao mesmo tempo, ser uma vítima eleva imediatamente o estatuto de um indivíduo: tem até o direito de confrontar os poderosos. Não surpreende, portanto, que alguns indivíduos hoje, quando são tomados por delírios de grandeza, não fantasiem terem sido generais, reis ou princesas e, sim, terem sido veteranos de guerra, que cometeram atrocidades, certamente, mas que, por sua coragem de confessar publicamente o que fizeram, testemunham da grandeza do ser humano que se angustia com o que foi forçado a fazer pela situação desumana em que foi jogado. Em 1988, um prestigioso programa de jornalismo norte-americano apresentou cinco veteranos do Vietnam  diagnosticados com stress pós-traumático narrando dramaticamente sua participação em massacres; dois anos depois, um investigador descobriu que só um deles tinha participado de operações de combate e, mesmo assim, não tinha participado das atrocidades narradas. Situações semelhantes aconteceram com o New York Times  em 2000 (veterano da guerra da Coréia afirmando que ocorreram massacres) e com a CNN em 1998: um veterano da guerra do Vietnam afirmou falsamente que teria usado gás Sarin (Young, 2002, p. 631).

O terceiro elemento é a centralidade do sofrimento na conceituação de grande parte das doenças mentais. De fato, argumenta Ehrenberg, um problema de saúde mental hoje é pura e simplesmente um sentimento de sofrimento psíquico (Ehrenber, 2004, p. 144). Antes, na modernidade, o sofrimento psíquico era, no máximo, um elemento no conjunto de sintomas que definiam uma determinada doença mental. Hoje, pode haver doença mental onde houver sofrimento.

Essa centralidade do sofrimento implica uma imensa ampliação no número de pessoas que podem ser consideradas ou que se consideram com problemas de saúde mental. Esse aumento não decorre só do fato de o sofrimento fazer parte da vida; também se deve à incerteza cotidianamente produzida sobre a normalidade de nossas emoções. Retomemos o argumento contrário à existência de uma linguagem privada proposto por Wittgentstein. Se o aprendizado do sentido de termos mentais como dor, tristeza, amor e raiva seguisse a gramática de uma relação entre designação e objeto (Wittgenstein, 2001, p. 85), isto é, se ocorresse por generalização das diversas ocasiões onde um indivíduo experimentou tais sentimentos, a incomunicabilidade seria a regra. Quando alguém dissesse nos amar ou odiar, nunca saberíamos se seus referentes para “amor” e “ódio” são os mesmos que os nossos. O aprendizado do sentido dos termos mentais ocorre em domínio público, quando se conjuga comportamentos visíveis às experiências de cada um.

Na cultura terapêutica, esse aprendizado do sentido dos termos mentais está sendo acompanhado pelo aviso de que nossas emoções podem ser patológicas. Incapazes de compararmos o que experimentamos com o que os outros experimentam e convidados a nos inquietarmos com o excesso ou insuficiência do que experimentamos, só nos resta fantasiar nossa possível patologia e procurar o conselho de especialistas. Afinal, por exemplo, a timidez, o temor, a tristeza e a alegria podem ser excessivas e, assim, doentias; e já sabemos que nossa auto-estima pode ser insuficiente. É trabalhando a partir dessa incerteza e no esforço de ampliá-la que os fabricantes de medicamentos conseguem vender seus medicamentos, vendendo primeiro a existência da própria doença.

Em síntese, também nas doenças mentais ocorre o tríplice movimento de normalidade inatingível, generalização do estado de quase-doença e cuidado crônico. Enquanto nas doenças orgânicas, a normalidade tem a forma da baixa probabilidade de adoecer, no caso das doenças mentais, o indivíduo normal, segundo o DSM-IV, seria aquele que teria um nível superior de funcionamento num grande número de atividades, que nunca é superado pelos problemas que enfrenta ao longo de sua vida e que é procurado pelos outros em razão de suas numerosas qualidades e que não apresenta sintomas (apud Ehrenberg, 2004, p. 149). E quem seria capaz de ser tudo isso – bem sucedido em muitas atividades, capaz de superar adversidades sem sofrer em demasia, confiável, compassivo…

A generalização do estado de quase-doença ocorre, de um lado, pela preocupação com a impulsividade que é, ao mesmo tempo, estimulada pela sociedade e, de outro lado, porque os eventos ordinários podem ser patológicos, porque os indivíduos podem sofrer ao internalizarem as diversas intolerâncias e incompreensões dos outros e porque é preciso suspeitar de uma possivel dimensão patológica nas emoções que se experimenta, especialmente o sofrimento. Essa generalização recomenda o cuidado crônico, pois não há mais um “antes” da doença onde o indivíduo não precisava se inquietar com a saúde. Tampouco há depois, pois cada vez menos é possível distinguir a cura do simples alívio de sintoma, o que torna a doença crônica, com o indivíduo devendo constantemente acompanhar a possibilidade de seu retorno. Aqui, é o medicamento que se torna uma espécie de alimento, a ser consumido ao longo da vida.

5 – A ação coletiva: Estado, rotina e sofrimento

A transformação do conceito de stress pós-traumático dá a chave do lugar da ação coletiva na cultura terapêutica. Os sofrimentos selecionados como contingentes e que dependem da ação coletiva não tem mais relação com uma estrutura social supostamente transformável. O capitalismo parece ter se tornado o horizonte de nossas sociedades – o que implica, senão tornar necessário, ao menos reduzir a significação social dos sofrimentos vinculados à pobreza e à desigualdade econômica. Os sofrimentos que dependem da ação coletiva, hoje, terão, sim, vínculos com a idealização da vida privada segura e feliz. Crimes, atentados terroristas, acidentes, catástrofes e epidemias, isto é, tudo aquilo que interrompe trágica e subitamente a rotina prazerosas dos indivíduos comuns, serão considerados sofrimentos contingentes, com sua existência atribuída à falhas do Estado.

A propriamente dizer, o escandaloso consiste na irrupção fortuita do sofrimento na rotina de indivíduos quaisquer que se supõem no direito de estar perfeitamente protegidos (Vilain e Lemieux, 1998, p. 136). Tais tipos de eventos trágicos podem ser fonte de indignação na medida em que, de um lado, o Estado é suposto ser uma entidade que, de direito, poderia garantir a segurança dos indivíduos, não importando o quão improvável é o evento que os afeta. De outro lado, é fonte de indignação na medida em que o acaso trágico não pode ser recuperado, não é mais um mal que vem para um bem, não é chamado de Deus, nem é algo ao qual os indivíduos se resignam e, muito menos, uma abertura de possibilidades de ser; ao contrário, ele só deixa atrás de si o trauma. É sintoma de mudança histórica que psiquiatras estejam presentes para atender parentes de vítimas quando ocorre um acidente aéreo; também é significativo que presidentes sejam denunciados por não terem se encontrado com os parentes das vítimas, como ocorreu recentemente no Brasil, ou que ministros coloquem seu cargo à disposição após um acidente, como ocorreu este ano na Índia, mesmo que o acidente tenha sua origem na falha do piloto e que a pista fosse extensa o suficiente para o tipo de avião acidentado.

Em seu artigo “Espaço de experiência e horizonte de expectativa”, que trata da origem da história como categoria estruturante de nossa percepção das sociedades e das coisas, Koselleck comenta que as expectativas humanas nunca são completamente determinadas pela experiência, pois podemos esperar o que nunca existiu (Koselleck, 2006, p. 315). Essa reserva utópica presente nas expectativas já se dirigiu para a existência da vida após a morte e, depois, voltou-se para o tempo que sempre ainda não existe, o futuro. Nas culturas terapêuticas contemporâneas, pela valorização do bem-estar, essa reserva parece se endereçar à vida privada rotineira e feliz que, de direito, quando o indivíduo é compassivo e cuidadoso com o risco presente em seus prazeres, deveria se prolongar por muito tempo, sem ser perturbada por doenças, sofrimentos, catástrofes naturais, acidentes e crimes.

Um outro modo de apreender a singularidade na forma de pensar a responsabilidade coletiva é dado pela comparação entre o lugar do Estado hoje na explicação de sofrimentos e aquele da bruxaria em culturas arcaicas. De acordo com o estudo clássico de Evans-Pritchard, os Azande, diante, por exemplo, da queda de um telhado, não se contentavam com a explicação de que os cupins corroeram a madeira. Além da atividade dos cupins, seria preciso recorrer à bruxaria para compreender porque o telhado caiu naquele momento em cima daquelas pessoas (Evans-Pritchard, 1976, p. 18-25). Do mesmo modo, quando chuvas, por exemplo, provocam deslizamento de terras, não basta indicar a raridade de uma tal quantidade de água cair em tão pouco tempo; será dito também que foi o descaso do Estado, provocado pela incompetência e imoralidade dos seus agentes, o que permitiu a existência da tragédia. Uma primeira diferença entre os Azande e nossas construções causais é que a bruxaria explicaria não o “como” dos eventos, mas seu “porque”, enquanto que a negligência do Estado é vista como causa eficiente. A outra diferença, mais significativa porque remete ao contexto social, é a de que, antes, a plausibilidade da explicação dependia da intensa concorrência entre vizinhos e, agora, parece depender da sensação de vulnerabilidade de indivíduos a demandar proteção do Estado.

Pelo modo como distribui a responsabilidade pelos sofrimentos que selecionou como contingentes, a cultura terapêutica é também a cultura da vítima, aquela onde os indivíduos estão novamente aprendendo a se conceber como inocentes e a afirmar que sofrem por culpa de imorais. Espero ter sido evidente o objetivo de questionar essa nova figura subjetiva. Não porque, como quer o discurso conservador, a vítima não “assume suas responsabilidades”. Esse tipo de crítica à figura da vítima mantém a culpa como lugar para se pensar nossa responsabilidade pelo que nos acontece.

A atitude cética diante das construções causais propostas por nossa cultura para explicar o sofrimento humano reitera parte da sabedoria ética formulada pela filosofia ocidental: o poder do pensamento não reside só no esforço de controlar o que nos acontece; reside também no modo como somos capazes de atribuir sentido ao que nos acontece. A inquietação é a de que certas formas de atribuir sentido ao sofrimento podem provocar mais sofrimento. Constantemente incitados a se conceber como desamparados, os indivíduos, hoje, se pensam como precisando de especialistas para viver suas vidas e como incapazes de encontrar qualquer positividade nas tragédias que necessariamente encontrarão ao longo de suas vidas. E ciosos de sua inocência, serão facilmente tomados pelo ressentimento, pela indignação, saindo em busca de bodes expiatórios e não questionando a moralidade que anima sua busca. Se sofrem quando são moderados e compassivos, isso se deveria aos imorais, isto é, aos monstros sem compaixão e moderação e aos agentes do Estado corruptos e incompetentes. Essa atitude indignada tanto afasta os indivíduos da ação coletiva, pois acarreta a crítica moral da política, quanto legitima a vingança como modo de lidar com todos aqueles que a moralidade constrói como monstros.

 

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A afilhada rebelde

por Daniela Pinheiro

O estilo, as ideias, as decisões e a ambígua relação de Dilma com Lula

Era o final de uma manhã de brisa fria e sol quente, no início de setembro, quando o presidente do sindicato dos taxistas de São Paulo, Natalício Bezerra da Silva, tomou o microfone e se dirigiu à restrita plateia: “Vamos respeitar, hein? Nada de gracinhas. Não se convida uma pessoa para vir na casa da gente e a gente hostiliza.” O grupo aguardava a chegada da presidente da República e candidata à reeleição, Dilma Vana Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, que naquele momento tinha 36% das intenções de votos – o que a colocava em empate técnico, no primeiro e segundo turnos, com Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro, catapultada às alturas nas pesquisas depois da morte do cabeça da chapa, o ex-governador Eduardo Campos, em agosto.

“Eu não estou preocupado com vocês, não. Nossa categoria é respeitosa, mas pode aparecer alguém de fora, querer aprontar, tumultuar, aí vai ter”, continuou o sindicalista, ainda que sua preocupação fosse infundada, já que o ambiente estava cirurgicamente controlado. A imprensa foi espremida num pequeno palanque. Apenas dirigentes sindicais identificados – a maioria trazendo estampados no peito adesivos com a cara da candidata – tinham acesso à área diante do palco. Populares eram vetados. Uma mulher, moradora de um prédio vizinho, foi orientada por um segurança a dar a volta no quarteirão para entrar em casa. Meia hora depois, Dilma Rousseff foi recebida por uma audiência calorosa. A equipe da candidata filmava tudo.

A menos de um mês das eleições, a campanha da presidente precisava se blindar de vaias, perguntas incômodas, manifestações populares fora do script. E pior: tinha que lidar com uma inédita e sombria perspectiva nas urnas. Dentre os eleitores, apenas 38% achavam sua gestão “boa ou ótima”. Ainda segundo o Datafolha, mais da metade da população a considerava entre regular e péssima. Sua rejeição em São Paulo – maior colégio eleitoral do país – alcançava 47%. Em âmbito nacional, 34% do eleitorado afirmavam não votar nela “de jeito nenhum”. Era o maior percentual negativo entre os presidenciáveis. Desde o início da corrida eleitoral, pela primeira vez parecia concreto o risco de o PT deixar o poder depois de doze anos no comando do país.

A popularidade de Dilma Rousseff, ao chegar ao governo, ultrapassava os 70% de aprovação. O caminho entre o pedestal e a corda bamba foi curto e difuso. É difícil determinar a pedra que pavimentou a rota do declínio: se as decisões econômicas ou a inexperiência política da governante; se a onda de mudança que veio à tona nas manifestações de junho ou o temperamento insular da mandatária; se a ojeriza aos rituais da política ou a tentativa de imprimir a própria marca ao governo; se a persistência da crise internacional ou o espectro de seu padrinho político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe fez sombra durante todo o processo. Uma relação peculiar que – como disse certa vez o ministro Gilberto Carvalho – ainda vai merecer estudos acadêmicos. Para esta reportagem, foram ouvidas 26 pessoas ligadas à presidente ou ao Partido dos Trabalhadores. A maioria pediu anonimato. Dentre os procurados, apenas Dilma Rousseff e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, se negaram a falar com piauí.

Ao assumir o mandato, Dilma Rousseff – a gerentona, a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento – tinha em mente o que queria fazer: dar continuidade às políticas de inclusão social do governo Lula e implementar uma agenda desenvolvimentista, das grandes obras de infraestrutura, assunto que sempre lhe foi caro, para mover a economia. O país tinha crescido em ritmo chinês e parecia recuperado do impacto da crise global de 2008. Além disso, havia a perspectiva dos ganhos do pré-sal e da vitrine da Copa do Mundo. A primeira equipe ministerial tinha a cara da dupla. Dos 37 ministros, quinze haviam sido indicados por Lula. Entre eles, Guido Mantega, mantido na Fazenda, e Fernando Haddad, na Educação, com vistas à sua campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo. O ex-presidente também pediu para segurar José Sérgio Gabrielli no comando da Petrobras. Dilma ainda herdou boa parte dos dirigentes de estatais e autarquias, e até a chefe do escritório da Presidência em São Paulo, a então desconhecida Rosemary Noronha. E acomodou as nomeações de ocasião feitas pelos partidos da coligação. De sua lavra, emplacou as ministras mulheres e o ex-prefeito de Belo Horizonte, o amigo Fernando Pimentel, no Desenvolvimento.

Desde que Lula inventou a candidatura de sua ex-ministra das Minas e Energia e da Casa Civil, o que ele via como qualidade em Dilma, uma fatia do petismo e dos partidos aliados enxergava como defeito intransponível: o voluntarismo, as opiniões fortes, o temperamento irascível, a inexperiência política e até o vocabulário prolixo, de falas longas e enfadonhas, permeadas de termos técnicos. Um dos mais próximos interlocutores de Lula disse ter sempre defendido que ela precisava de “assessoria emocional” para ser presidente.

Lula parecia calcular que sua presença ao alcance em caso de emergência, a competência gerencial da sucessora, a boa onda na economia e a força do apoio de dezessete partidos e de mais de 80% do Congresso Nacional garantiriam um governo de sucesso. O resto era contornável. No mais, ele era o grande vencedor da eleição. Seu poste havia chegado lá.

Os primeiros meses de governo foram redentores. Em poucas semanas, Dilma já mostrava a que viera: vetou a distribuição de cargos federais para parlamentares da base governista e anunciou um corte de 50 bilhões de reais no Orçamento. Foi à China, visitou vizinhos latino-americanos, recebeu no Planalto o presidente americano Barack Obama. Jactava-se de ser a primeira mulher a discursar na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Era uma estadista. A classe média e a elite enfim reconheciam um rosto familiar: Dilma era discreta, tinha compostura, falava português sem erros de concordância, fazia o estilo durona e parecia intransigente diante de evidências de corrupção. Distanciava-se do jeito Lula de ser. Rapidamente, a impressão foi captada pelas pesquisas de opinião. Em maio de 2011, o Ibope registrava que ela tinha 73% de aprovação popular.

Ainda na primeira quadra do ano, Dilma teve uma pneumonia e precisou se afastar. A bancada do PMDB aproveitou para fazer o que melhor sabe: escambo político. Na votação do Código Florestal, ameaçou ir contra o governo caso não fossem atendidos os pedidos de emendas e cargos. Em seu primeiro choque de realidade, a presidente também respondeu com as armas que melhor maneja: ameaçou demitir os ministros do partido. Instalou-se a primeira das muitas crises com a base aliada. Sem avisar Dilma, Lula desembarcou em Brasília para acalmar os ânimos dos correligionários. Reuniu-se com o vice-presidente, Michel Temer, foi fotografado ao lado de José Sarney e Renan Calheiros, dourou a pílula e, para alguns, atribuiu à inexperiência da sucessora a confusão, afinal contornada.

A mensagem ficou clara: a luz do poste era ele. Dilma, é lógico, não gostou. Sentiu-se atropelada por Lula, enquanto ele acreditava estar apenas acomodando a situação. O PMDB acabou votando em peso a favor da emenda que anistiava os desmatadores, derrotando o governo. E ninguém foi demitido. Recentemente, um petista paulista resumiu o caso: “Essa inabilidade política, misturada com arrogância, marcou as ações dela. Como pôde achar que era ligar, ameaçar o vice e ele ia pedir desculpas?” Mas Dilma saiu maior do episódio: era ela brigando quixotescamente contra os venais da política.

Em maio, o país tomou conhecimento do portentoso aumento de patrimônio do ministro Antonio Palocci. Em apenas um ano, sua empresa de consultoria havia faturado 20 milhões de reais. Na época, uma ministra disse ter ouvido da presidente: “Eu achei que fossem 3 ou 4, mas 20 é foda.” A saída de Palocci da Casa Civil foi um divisor de águas. Além de ter a confiança do empresariado mais graúdo, era ele quem negociava a votação de projetos e o preenchimento de cargos no governo. No Planalto, também acalmava o ambiente. Com ele, Dilma não precisava se expor às querelas brasilienses, à romaria dos parlamentares atrás de verbas, às visitas de ocasião dos representantes do PIB. Palocci fazia bem o serviço.

No lugar dele, assumiu a senadora petista Gleisi Hoffmann. Ao lado da também petista Ideli Salvatti, na articulação política, elas formavam, com Dilma, a trinca que passou a dar o tom das negociações do governo com seus aliados. A nomeação repercutiu mal no entorno, que ficou com a impressão de que as duas eram “café com leite”: não tinham pulso firme ou estofo político. Como verbalizou o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, a piauí, em agosto de 2011: “Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília.”

A presidente tinha suas razões. Primeiro, não queria outro “superministro” para lhe fazer frente – Palocci era uma exceção. Até o último minuto, Lula garantiu ao titular da Casa Civil que ele ficaria no cargo, mas Dilma sepultou a hipótese. Em público, ele pediu demissão, aceita por ela depois de vinte dias de crise. Quis para o lugar alguém em que pudesse confiar, mas, sobretudo, mandar. Agradava- lhe ainda a ideia de valorizar duas mulheres naqueles cargos, antes só ocupados por homens. Nesse momento, para vencer a tentação de dar palpites – como ele mesmo declarou –, Lula se embrenhou numa maratona de viagens internacionais que lhe tomaram quase todo o ano de 2011. Coincidiu com a época em que o governo Dilma começou a ter uma feição própria. As demissões em série deram ao marqueteiro João Santana uma senha para colar na presidente: Dilma era a faxineira da corrupção.

Em seis meses, sete ministros foram demitidos – seis envolvidos em denúncias de irregularidades no cargo. Se a faxina encantou parte da opinião pública, internamente acendeu um sinal de alerta. Entre os aliados, o crachá de faxineira pressupunha a corrupção incrustada na máquina do Estado, expondo-lhe as tripas. Quatro dos seis ministros vinham do governo Lula. No PT, comentava-se a facilidade com que Dilma rifava companheiros. “Demissões por malfeito são ossos do ofício”, disse ela à época.

Sem Lula e sem Palocci, Dilma ia ficando mais Dilma. Em meados de 2011, por ocasião do aniversário de 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, ela enviou um cartão de felicitações cheio de elogios ao ex-presidente tucano. O petismo estremeceu. Não bastasse, ela tomava providências em áreas das quais seus antecessores mal haviam tido coragem de se aproximar: instalou a Comissão da Verdade para esclarecer crimes da ditadura militar, assunto que Lula procrastinava, e aprovou a Lei de Acesso à Informação, acabando com o sigilo eterno de documentos públicos. O empresariado estava encantado. Como havia assumido o governo com o dólar depreciado, o que prejudicava a indústria, Dilma Rousseff procurou beneficiar o setor controlando o câmbio, por exemplo. Preparava o maior pacote de concessões da história, que daria à iniciativa privada um bom pedaço das estradas, aeroportos e ferrovias do país. Com a imprensa, o clima era de início de namoro.

O governo seguia em velocidade de cruzeiro quando, no final de outubro, veio o baque: Lula foi diagnosticado com um câncer na laringe. Ela, que havia tratado a mesma doença havia pouco mais de dois anos, ficou devastada com a notícia. Sem o padrinho por perto, o poder dos lulistas no Planalto foi se esvaziando. A começar pelo do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais, sobre os quais ela costuma dizer que “falam coisas que não são do nosso governo”. No Planalto, ela já era chamada de “a tia”, apodo cunhado pela velha guarda lulista. Até hoje, não raro um estranho pode escutar durante uma visita que “a tia está procurando” por alguém.

No fim de 2011, Dilma atingiu o maior índice de aprovação de um presidente: 59% dos brasileiros consideravam sua gestão ótima ou boa. Foi o maior percentual já alcançado desde a volta das eleições diretas no país. A economia cresceu menos que no ano anterior, mas o Brasil havia criado 2 milhões de empregos e superado a Inglaterra, tornando-se a sexta economia do mundo. O poste começava a brilhar sozinho.

Por essa época, num encontro no Planalto, ela confidenciou a um ex-ministro do governo Lula, com quem ambos mantêm boas relações: “Se o Lula quiser, a próxima é dele. É só ele me falar”, disse, referindo-se às eleições de 2014.

O segundo ano de governo começou tépido e inodoro como uma fala de Michel Temer. Com a perspectiva das eleições municipais em outubro, Dilma diminuiu a agenda de viagens e se trancou no Planalto para traçar os termos do bilionário pacote de concessões em infraestrutura. Estava em seu ambiente: imersa em números, cláusulas, índices, percentagens, muito PowerPoint. A performance da presidente já era conhecida desde os tempos das Minas e Energia: ela abria o computador, vertia uma miríade de estatísticas, elencava planilhas, “espancava o projeto” – como gosta de dizer – até não sobrar de pé nenhuma brecha ou dúvida. Comandava reuniões infindáveis, em que se debatia por horas um mero ponto e vírgula. Nas negociações do pacote dos aeroportos, um ministro disse terem passado oito meses falando sobre a TIR – a taxa de retorno dos investidores. O detalhismo emperrava o processo, decisões se arrastavam e o projeto demorava a sair do papel.

A essa altura, já estava evidente sua ojeriza pelos rituais da vida brasiliense: reuniões com ministros, encontros com deputados, recepções no Itamaraty, fuxicos com a base aliada. Receber entidades de classe era um parto. Movimentos sociais, muito de vez em quando. Empresários tentavam, em vão, marcar audiências na agenda sempre lotada – pelo menos para eles. Nos encontros com parlamentares, chamava atenção a falta de autonomia de Ideli Salvatti. Ou ela respondia às demandas dizendo que “ia ver com a presidente”, ou chegava chutando a canela dos interlocutores, como um ventríloquo da chefe. Dilma não falava nem com a bancada do PT. “Para ela, a política era o mal em si. Empresário era abutre, e político era picareta. É assim que ela pensa”, disse um importante dirigente do Partido dos Trabalhadores, durante um café da manhã, no Rio. Dilma não liberava dinheiro, dificultava a distribuição de cargos, não recebia os políticos, não respondia aos empresários. Um assessor da Presidência resumiu as razões do comportamento: “Ela achava que já sabia o que eles iam pedir ou reclamar. Então, na cabeça dela, não tinha que gastar tempo com isso.” Os caprichos desnorteavam o cerimonial do Palácio do Planalto. Uma vez, na Espanha, ela quis fazer compras no El Corte Inglés, mas vetou a companhia de seguranças. O grupo precisou se esconder atrás das araras da loja de departamentos. Em Londres, quis andar de metrô, causando rebuliço entre os seguranças da Scotland Yard, que iam abrindo passagem para a comitiva brasileira. Em Washington, deixou em apuros o embaixador Mauro Vieira porque se recusava a se sentar, durante o encontro com Barack Obama, no salão de entrevistas da Casa Branca. Depois de muita argumentação, ela concordou. Um ex-integrante do cerimonial disse que era para evitar ser fotografada sentada – ela usava saia. Aos poucos, as reuniões ministeriais também foram minguando. Desde a posse, todos os ministros haviam sido proibidos de falar com a imprensa. Qualquer declaração oficial, só por meio do porta- voz ou da própria presidente. Em seu governo, Lula usava os vazamentos de informação para testar várias ideias. Deixava deputados fomentarem boatos de maneira a ter um termômetro do que pensava em fazer – ou não fazer. Também aproveitava os discursos paramandar recados, responder a ataques, fazer a defesa do governo, dar a tônica da disputa política. Conseguia traduzir questões complexas nos termos das massas. Com Dilma, nada disso acontecia. Para ela, vazamento era apenas insubordinação, traição. Quem o fazia era posto na geladeira. O senador Vital do Rêgo, do PMDB da Paraíba, perdeu um ministério porque a hipótese de sua nomeação vazou. Testar uma ideia, só nas pesquisas qualitativas encomendadas pelo marqueteiro João Santana, partilhadas com um ou dois interlocutores. Logo se evidenciou que a comunicação era um empecilho incontornável no caso de Dilma: ela se expressava numa sequência de elipses de árdua compreensão; suas frases eram desconexas, longas, truncadas. A imprensa registrou: nascia o dilmês. “Temos um sistema hidrológico muito sensível à água”; “Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante”; “Precisamos cada vez mais cooptar e captar novas fronteiras tanto na Ásia quanto no Oriente Médio”; “Todos nós aqui sabemos que cada um de nós escolhe – a vida faz a gente escolher – alguma das datas em que a gente nunca vai esquecer dessa data.” Assessores afirmam que, quando escreve, ela é clara, objetiva e focada.

Acumulam-se ao redor de Dilma histórias de gritos, esculachos e rompantes. Mais de uma pessoa me contou ter visto a filha Paula repreender em público as grosserias da mãe, extensivas a ministros, secretárias, funcionários do palácio. Um ex-ministro do governo Lula, com quem Dilma trabalhou diretamente na Casa Civil, presenciou cenas de descontrole. “O que é perverso é que os esporros dela são sempre para quem está embaixo. Ela sabe com quem pode gritar. É que nem lobisomem, sabe para quem pode aparecer”, disse, irônico. Quatro entrevistados se valeram de conceitos do livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, para definir a maneira de Dilma lidar com o poder. Se Fernando Henrique queria ser admirado e Lula queria ser amado, Dilma quer ser temida. Certa brutalidade seria uma maneira de se fazer respeitar, um sintoma de insegurança. “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, Dilma aprendeu a repetir desde a campanha de 2010, sempre que seu temperamento era questionado. Acertos da equipe nunca são comemorados, não passam de obrigação; desculpas, sinal de fraqueza; dúvidas, prova de desconhecimento. Ela costuma formar sua opinião ouvindo pequenos grupos distintos – sem que eles tenham conhecimento dessa comunicação estereofônica. Insiste em saber tudo o que pode dar errado, e só então se interessa pelo que pode dar certo. Bombardeia de perguntas o mensageiro de um projeto ou uma ideia. Faz isso uma oitava acima, com expressão similar à exibida quando entregou a taça de campeões do mundo para os jogadores alemães. Os mais vulneráveis tremem. Nas discussões com a equipe, muitas vezes ela externa de cara sua opinião sobre o assunto a ser tratado – o que intimida boa parte dos presentes, que se cala, ainda mais se tiver ponto de vista contrário. O resultado é que metade da equipe não gosta dela e a outra metade tem medo. “Esse método prejudicou muito porque ninguém tinha coragem, ânimo ou saco de se contrapor a ela. A ausência do contraditório fez com que ela embarcasse em muitas canoas furadas”, comentou um ex-integrante da equipe econômica do governo, em meados de setembro, durante um almoço, no Rio. “Na econômica, por exemplo”, disse.

Em uma manhã de setembro, o elétrico Roberto Kalil Filho, diretor do Hospital Sírio-Libanês, médico de Dilma e Lula, estava de mau humor. “Hoje é bandeira vermelha”, disse uma de suas assistentes, num código que indica o espírito do chefe. Amigo e responsável pela saúde de autoridades, empresários e famosos, Kalil também é a ponte de vários políticos e jornalistas com a cúpula do PT. Fala frequentemente com a presidente ao telefone. Dão-se muito bem porque, ele disse, são parecidos. As conversas costumam começar com: “Oi, como estamos de humor hoje?” Sentado em frente ao computador, ele falava sobre a paciente e amiga. Para provar o que dizia, chamou uma secretária. “Vem aqui, quem é mais cão? Eu ou a Dilma?” A moça perguntou se podia falar a verdade. “É o doutor Kalil, ele é o professor dela.” Segundo o cardiologista, avaliações sobre o temperamento da presidente são a maior injustiça contra seu governo. “Você acha que alguém chega num cargo desses sendo boazinha, pedindo por favor?”, perguntou. “Ela é incrível, maravilhosa, mas não está aqui para ficar de nhe-nhe-nhém. É igual a mim aqui no Sírio: o povo fala mal porque a gente cobra.” Kalil também dirige o Instituto do Coração. Quando se está no comando, disse, “se a gente não mantém o tônus de doido, as coisas não andam”. “Ela é igualzinha. A gente leva no chicote porque senão não sai nada”, comentou enquanto mastigava um sanduíche de queijo. “Claro que toda pessoa como eu e ela às vezes erra na maneira de se expressar, acontece.” Mas desculpas, acrescentou, ele não costuma pedir: “Até porque estou certo.” Quando a conversa derivou para as decisões políticas e econômicas da presidente, ele saiu pela tangente. “Palpitei no Mais Médicos. E só. Disse para ela que foi uma coisa enfiada goela abaixo, mas hoje conheço melhor o programa e acho muito bom”, afirmou. Para Kalil, se as pessoas soubessem do outro lado de Dilma, entenderiam melhor sua gestão. “Poucas vezes vi alguém tão comprometido em mudar a vida dos pobres. Mas a Dilma é fechada. Por tudo que ela passou na vida, ela é isolada, é o perfil dela.” Segundo ele, a “verdadeira Dilma” é a mulher que sai de madrugada, driblando a segurança, para andar de moto por Brasília – como havia revelado meses antes uma reportagem da Folha de S.Paulo. “Olha que ser pitoresco! Ninguém a conhece de verdade.” A maioria dos entrevistados confirmou a impressão. Ao conversar sobre assuntos variados, fora da Presidência, Dilma relaxa, conta casos engraçados, deixa brotar o lado leve, tem o humor afiado. Vaidosa, fica lisonjeada quando seu conhecimento sobre artes, música ou literatura é reconhecido. “Ela também tem uma certa coquetterie”, disse-me um ex-ministro. “Mas, em geral, é muito defensiva”, acrescentou. Nas ocasiões em que se permitiu baixar as armas – foram dez –, Dilma chorou em público. “Ela sempre tratou o governo como uma grande família. E sempre no papel da mãe durona, repressora, que coloca de castigo o ministro que desobedece”, comentou um ex-integrante do Ministério da Fazenda. A exigência se estende a ela própria. “Não posso errar, não posso errar” é uma frase recorrente da presidente ouvida nos corredores do Planalto. Perguntei a Kalil se Dilma contaria com seu voto. “Claro que não! Sou malufista! O pastor Everaldo é meu candidato”, respondeu, num tom em que a troça soou ambígua. E o que seu paciente mais famoso pensava disso? “A gente não fala do assunto. O Lula diz que eu ainda sou do tempo dos macacos e que no dia que eu evoluir para humano a gente pode conversar sobre política”, respondeu.

A equipe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência era obrigada a preparar relatórios periódicos só para Dilma e Gleisi Hoffman, listando as besteiras cometidas pelos ministros. Detalhe: só as besteiras. Dilma não confia, não delega, não divide informação sobre o governo com o próprio time. Nas reuniões, avisava aos presentes: “Nem todo mundo vai saber de tudo. A informação aqui será compartimentada. Quem tem que saber de tudo sou eu, não vocês.” Se um ministro demitia alguém sem consultá-la, corria o risco de se ver desmoralizado, como ocorreu com Fernando Pimentel, que exonerou o secretário executivo Alessandro Teixeira. Quando soube, Dilma repreendeu o ministro e chamou o demitido para trabalhar no Planalto. Da agenda dos ministros nos fins de semana – eles eram proibidos de deixar Brasília sem avisá-la – a conversas de pé de ouvido entre auxiliares, ela quer saber de tudo. Não raro, toma satisfações com os envolvidos. Há quem veja nesse comportamento um eco do próprio passado. Dilma foi torturada pela ditadura e ficou presa durante três anos. “A cabeça dela é a cabeça de célula, de aparelho, como se ainda estivéssemos na luta armada, com gente do nosso lado podendo nos trair ou gente atrás de nós querendo nos pegar”, disse um ministro que passou pelos governos tucano e petista. Segundo ele, tudo faz sentido: a preferência pelo isolamento, a autossuficiência, a desconfiança, o controle da informação, o hábito de guardar grandes somas de dinheiro em casa “para qualquer emergência” ou, ainda, a mania de dormir de sapatos, “caso precisasse sair às pressas”, que a acompanhou por anos. “Ela ainda é a menina dos anos 60”, disse.

Embora o modo de governar e o estilo pessoal prenunciassem ruídos, Dilma estava nas alturas quando começou o segundo ano do seu governo. Elogiada pela imprensa, respeitada pelos empresários, aprovada pelo eleitorado, temida pelos seus – chegara a hora de dar seu primeiro grito de independência. O poste queria luz própria. Em vez de recuar nas medidas de incentivo ao consumo e ao investimento que haviam sido tomadas para contornar a crise global de 2008, ela decidiu pôr o pé no acelerador. A seu lado, Guido Mantega funcionava como um “aperfeiçoador das ideias”. Na concepção econômica da presidente, valia tudo para promover o crescimento, proteger a indústria e o emprego, bombar o consumo e manter a balança comercial positiva. Um pouquinho de inflação não fazia mal a ninguém, essa era a ideia. Dilma passou a ser acusada de abandonar o tripé econômico – meta de inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante – sobre o qual se sustentara a estabilidade da economia nos últimos doze anos. Críticos alertavam para o risco de promover uma expansão econômica baseada no endividamento. “Ela não ligava para críticas. Nunca ligou. Tinha na cabeça uma ideia de país clara. De fato, ela sabe mais de economia do que as pessoas pensam, e sabe menos do que ela pensa que sabe”, afirmou um ex-integrante dos governos Dilma e Lula. Na concepção da presidente, a interferência do Estado na economia é crucial. Há em suas decisões um viés ideológico, de esquerda, muito mais arraigado do que no governo Lula. A má vontade em relação à independência do Banco Central é um exemplo. Dilma costuma dizer que, no dia em que se colocar um banco privado para financiar obras de infraestrutura e programas sociais – como o Minha Casa Minha Vida, cujos recursos são 95% do governo –, o país não vai ter mais nenhuma moradia subsidiada para os pobres. Guiada por suas convicções, ela baixou as taxas de juros dos bancos estatais para fomentar o crédito e obrigar as instituições privadas a fazer o mesmo. No primeiro pacote de concessão das rodovias, limitou a lucratividade das empresas. “Ela acha que é preciso controlar tudo. Caso contrário, o empresário ia oferecer o pior serviço pelo maior preço, o que podia ser verdade. Mas você pode controlar isso aumentando a concorrência, por exemplo”, observou o ex-integrante da equipe econômica. Na Petrobras, fez o mesmo para controlar a inflação: represou os preços dos combustíveis, ainda que a medida representasse um baque para o caixa da estatal. A fim de forçar a queda do preço da eletricidade, antecipou a renovação das concessões das geradoras e distribuidoras de energia, impedindo-as de continuar a cobrar do consumidor a reposição do que haviam investido. As ações das empresas elétricas despencaram. Em paralelo, Dilma lançava mão do que a imprensa batizou de “contabilidade criativa”: inflou as “receitas” do governo e mascarou as “despesas” de modo a aumentar artificialmente o superávit primário – dinheiro reservado para o pagamento dos juros da dívida pública e que sinaliza ao mercado que as contas internas vão bem. Em uma tarde na sede do Partido dos Trabalhadores, o presidente da legenda, Rui Falcão, falava sobre as críticas à gestão econômica. “Por má vontade ou desinformação, ela é acusada de ser intervencionista, mas, na verdade, ela tomou decisões que beneficiaram a população, não acionistas ou empresários”, comentou. “Por que a grita? Porque muita gente rica, pela primeira vez, perdeu dinheiro.” À medida que Dilma ia imprimindo sua marca, parte do petismo castiço perdia terreno, como ocorreu nos fundos de pensão e nos bancos estatais. Em abril de 2012, ela deu o passo mais ousado. Mandou a nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, demitir parte da diretoria da empresa. Três diretores ligados a três partidos foram defenestrados. Um deles era Paulo Roberto Costa, responsável pelo Abastecimento. No PT, as demissões caíram mal. Sobretudo a de Renato Duque, da diretoria de Serviços e Engenharia, responsável por grandes encomendas de plataformas e sondas de perfuração. Petista da corrente Construindo um Novo Brasil, tendência interna mais poderosa do partido, Duque fora indicado pelo ex-ministro José Dirceu. É bom guardar esse nome. Ainda convalescente do tratamento contra o câncer e mergulhado na campanha de Fernando Haddad à prefeitura paulistana, Lula assistia de longe ao movimento. Quando vinham lhe falar mal do governo, costumava responder com uma frase pronta: “Calma, ela vai mudar. Aquela cadeira muda as pessoas.”

O Instituto Lula ocupa um sobrado de três andares no bairro do Ipiranga, na Zona Sul de São Paulo. Decorado com móveis de escritório em ferro, divisórias de fórmica e chão acarpetado, lembra as instalações de um sindicato. É lá que Lula despacha desde que deixou a Presidência. O local virou também o ponto de romaria de empresários e políticos para se queixar de Dilma. Logo, ganhou o apelido de “Serpentário do Ipiranga”. Ali, dizem, as víboras destilam veneno puro contra o Planalto. Numa manhã de agosto, um dos dirigentes do Instituto falava sobre o governo e as eleições vindouras. Segundo ele, Dilma enfrentava uma combinação de fatores preocupante: a crise internacional, o ressentimento da elite – que se viu dividindo aeroportos e tendo de pagar hora extra para a empregada doméstica – e a dificuldade de vender o próprio governo. “Gastaram meses querendo emplacar a gerentona e a faxineira. Isso pegou muito bem para a elite, mas não quer dizer nada para o povão”, comentou. Em sua avaliação, o que ganha votos são ações sociais – Dilma as tinha, mas não conseguia mostrar. Para provar o que disse, ele citou pesquisas internas do partido evidenciando que os eleitores atribuíam a Lula programas implementados por Dilma. Nas hostes petistas, Dilma sempre foi vista como forasteira. Com passado de esquerda, fez sua trajetória no Partido Democrático Trabalhista, nas fileiras caudilhistas de Leonel Brizola. Por muito tempo – e ainda hoje –, os petistas fazem questão de lembrar: Brizola foi aquele que se referia a Lula como “o sapo barbudo”. Petistas mais mordazes comentam que ela herdou tudo do brizolismo, menos a qualidade: a coragem de enfrentar a TV Globo. No mandato de Dilma, os petistas imaginavam pôr em prática a regulamentação dos meios de comunicação, defendida com ardor pelo partido. Mas ela não chegou nem perto do assunto. Na sua gestão, ocorreu uma mudança significativa na distribuição de verbas publicitárias para a imprensa. No segundo mandato de Lula, o então ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, irrigou pequenos jornais, rádios e blogueiros. Com Dilma, esses veículos perderam dinheiro e influência. Cobrada pelo PT, ela também ficava presa à necessidade de justificar o que não havia feito. Havia uma pressão enorme para que fosse a público defender os réus do partido no caso do mensalão. Nem Lula o fez. Os petistas se sentiam sem uma cúmplice. E Lula, às vezes, idem. Quando estourou o caso Rosemary Noronha – funcionária da Presidência em São Paulo, apontada como “amiga íntima” de Lula e acusada de tráfico de influência –, Dilma nem titubeou. “Ela mandou demitir na hora, não quis nem saber”, contou uma ex-assessora da presidente. A todo tempo, os petistas trazem à tona que Dilma nunca pensou, desejou, quis ou se preparou para ser presidente da República. Repetem que ela se comportava como alguém independente, que não havia entendido que na verdade era apenas parte de um projeto político mais amplo. “Ela foi eleita para um projeto político. Não é dela, nem do Lula, é de todos. Ela nunca será a candidata dela mesma”, disse-me o dirigente do Instituto Lula. “O que vai ser julgado nas urnas são doze anos, não quatro”, concluiu. No final de 2012, as queixas dos empresários, a revolta dos parlamentares que se sentiam desprestigiados e sobretudo o baixo crescimento (0,9%) deram fim ao clima de lua de mel. Na imprensa, a presidente era criticada pelo fracasso das medidas para impulsionar a economia e prometia em troca um “pibão” para breve. O Brasil havia perdido a posição para a Inglaterra e voltado a ser a sétima economia do mundo. O governo tinha 62% de aprovação.

Pouco depois, a revista inglesa The Economist pediu a cabeça de Guido Mantega em extensa reportagem com críticas à condução da política econômica brasileira. O “pibinho” assustava investidores e empresários. Durante todo tempo, o governo acreditou que a queda da taxa de juros e o aumento do crédito dos bancos oficiais implicariam um enorme incentivo ao investimento privado – que entretanto não aumentou. Ocorreu o inverso. De seu lado, Dilma respondia com evasivas e mantinha o pé firme nas diretrizes. A dificuldade de admitir erros é uma de suas características mais notáveis. Na mesma época, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o do Rio, Eduardo Paes, estiveram no Planalto para tratar do aumento das tarifas de transporte público. Mantega teve uma ideia: já que a inflação continuava próxima de 6%, resistindo a voltar para o centro da meta (4,5%), era melhor segurar o reajuste. A resposta veio das ruas meses depois, quando o aumento foi enfim anunciado. Em fevereiro, o “Volta, Lula” já havia se espalhado como gripe no inverno. Institutos de pesquisa simulavam o nome do ex-presidente nas apostas eleitorais – e ele ganhava com folga –, o petismo alimentava o boato e os empresários, insatisfeitos, engrossavam o coro. Dilma procurou Lula e pediu-lhe um gesto capaz de aplacar a boataria. Dias depois, durante a comemoração do aniversário do PT, Lula fez seu papel: antes de encerrar sua fala, como se cumprisse uma tarefa, finalmente mencionou a reeleição de Dilma. O resultado foi dúbio. Parte da legenda achou que era um erro antecipar a campanha, já que ainda havia quase dois anos de governo pela frente. Outros entenderam ter sido uma maneira de fortalecer o projeto de poder num momento delicado. A verdadeira opinião de Lula ficou restrita a amigos e familiares. “Lula é igual à Bíblia, cada um interpreta como quer”, disse José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e atual diretor da Petrobras. Na casa do próprio Lula, o anúncio da reeleição de Dilma repercutiu mal. A ex-primeira-dama Marisa Letícia achou um absurdo, uma ingratidão, uma traição que Dilma não tivesse perguntado a Lula, em nenhum momento, se ele queria ser candidato – conforme a presidente havia confidenciado para um ex-ministro, amigo de ambos, um ano antes. A família ficou magoada. E especialmente Lula. Desde que deixara o Alvorada, Marisa Letícia sentia falta da rotina brasiliense – as manhãs pescando no píer da Presidência, o entourage, os salamaleques, o poder. Dizia que Lula ainda era a única pessoa capaz de manter o país nos trilhos. Fazia coro com o Serpentário do Ipiranga. “Ele sempre quis voltar, a Marisa queria que ele voltasse, os filhos queriam e boa parte do PT também”, disse-me um advogado de renome ligado ao partido, em seu escritório, em São Paulo. De sua parte, Dilma defendia que o mandato era dela. Deveria terminar o que havia começado e, como seus antecessores, tinha o direito à reeleição. Nada disso, no entanto, era explicitado. Em público, Lula negava a hipótese de se candidatar, mas no privado era sempre ambíguo. Ainda que não estimulasse o boato, não movia uma palha para matá-lo na origem. Em encontros reservados, ele passou a criticar a presidente. Durante todo o mandato, Dilma e Lula nunca se afastaram ou deixaram de se falar. Ele sempre foi cuidadoso na aproximação e nas críticas. Dava sugestões de modo que sua interlocutora pudesse acatá-las ou não. Em vez de dizer que ela estava negligenciando a política externa, Lula perguntava, como do nada: “E a África, Dilminha? Está abandonada…” Quando se estranhavam, um ou outro “sumia”. Como relatou um auxiliar direto da presidente: “Mito não telefona. Ele nunca telefonou, mas ele sumia. E ela, quando achava que ele estava dando declarações demais à imprensa, ou se julgava estar no caminho certo e queria preservar-se de ingerências externas, fazia o mesmo.”

O comitê central da campanha de Dilma Rousseff está localizado em um centro comercial de Brasília. Na entrada, veem-se cartazes de crianças com camisetas vermelhas, a serigrafia de uma foto da candidata quando militava contra a ditadura e um enorme painel com a imagem dela, sorridente, ao lado de Lula. No mezanino, fica a sala de Giles Azevedo, ex-chefe de gabinete da presidente no Planalto, hoje um dos coordenadores da campanha. Há vinte anos, ele é a sombra de Dilma Rousseff, que o chama carinhosamente de “Gil e Les” – como se ele fosse duas pessoas. Se há no mundo alguém em quem ela confie, é ele. Em uma tarde de julho – quando ainda não havia Marina Silva no páreo –, Azevedo comentava as dificuldades da chefe: “As pessoas não querem resolver problema, querem carinho, atenção. Ela quer resolver, não quer gastar tempo com firula.” Segundo ele, a praticidade e a discrição da presidente eram uma novidade no cargo. “Ela trabalha para dentro. Não quer holofote, quer resultado, isso é uma coisa diferente na política brasileira.” Para ele, é um grande equívoco afirmar que Dilma não sabe fazer política. “Baixar os juros do sistema financeiro mexendo com lucros de banqueiros, desafiar interesses econômicos nos contratos de energia elétrica, criar a Comissão da Verdade, isso é não fazer política?”, indagou. “Ela fez isso sozinha.” O celular tocou. Passaram-lhe o resultado de uma pesquisa recente, mas ele não quis comentar os números. Com voz mansa, pôs-se a listar as conquistas do governo: o Minha Casa Minha Vida havia construído 2 milhões de moradias; o Brasil Carinhoso retirara 8,7 milhões de pessoas da miséria; das dez maiores hidrelétricas do mundo, três seriam construídas no Brasil; o Pronatec ofereceu cursos técnicos a 8 milhões de estudantes. “Na crise, o mundo perdeu 60 milhões de empregos, e o Brasil ganhou 11 milhões. Como que alguém pode dizer que esse governo fracassou?” Naqueles dias, a dicotomia entre o Ipiranga e o Planalto era explícita. Os mais próximos da presidente se incomodavam com o fato de Lula despontar como um gênio da lâmpada, sempre com uma frase de efeito, uma solução mágica, um conselho incrível, ainda que o PT amargasse derrotas fragorosas em dois dos principais estados brasileiros: Lindberg Farias, no Rio, e Alexandre Padilha, em São Paulo. A eterna comparação entre ela e Lula também a incomodava. Ela sorria amarelo quando ele falava em público sobre “o criador e a criatura” ou quando explicitava que o governo era “meu e da Dilma”, ratificando ataques de adversários. Ela também percebia que o “Volta, Lula” aparecia sempre nos momentos em que o governo estava fragilizado, quase como um corretivo a sua gestão. E quem está a seu lado repara que Dilma se refere a Lula como “presidente” e o trata de “senhor”, enquanto ele, a despeito do cargo que ela ocupa, sempre se refere à presidente como “Dilminha” e “você”. Entre os dois, a relação nunca foi de paridade. Quando o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, visitou o Brasil, no ano passado, engatou numa conversa animada com Lula. Deixaram Dilma, a presidente, esperando por quarenta minutos. Mas era fato que, depois de quase quatro anos de mandato, ela ainda precisava umbilicalmente de Lula para se eleger. “É difícil suceder o Lula. O carisma, o processo de transferência, é um peso muito grande”, afirmou Giles Azevedo. Segundo ele, qualquer candidato do partido estaria na mesma situação. A relação de ambos, ele disse, para aplacar qualquer boato de desentendimento, era excelente. “Mas ela pensa, né?”

O prejuízo de se ter antecipado a campanha eleitoral logo ficou visível. O governo passou a ser avaliado com lupa, cada ação de Dilma ficou sob suspeição de ser eleitoreira. Quando o preço do tomate chegou a 10 reais o quilo – um aumento de 80% em menos de um ano –, a opinião pública gritou: a inflação está mordendo a dona de casa. No Congresso, a relação com o Executivo também ia mal. Nos primeiros dois anos, Dilma havia feito algo se mover no pântano do fisiologismo brasiliense. “Acabou a conversinha mole, tangenciada, uma coisa querendo dizer outra, segundas intenções. Com ela, não tem”, comentou um ministro do PMDB, durante um jantar em Brasília. Um ex-ministro paulista também me disse: “Ela é honesta, não pensa em dinheiro e não tem filho para fazer negócio. Isso já cria uma barreira para as conversas esquisitas.” Pressionada por Lula, ela cedia nas alianças, mas até a última hora tentava uma carta diferente. Foi o caso da ida de Renan Calheiros para a presidência do Congresso Nacional. Ainda que o PT tivesse combinado, por escrito, o revezamento com o outro partido, quando a posse se aproximou, ela insinuou que Calheiros desistisse do cargo em troca do apoio incondicional do governo para elegê-lo governador de Alagoas. Ele agradeceu. “Ela ia com o milho e eles voltavam com a pipoca. Ela não entendia o quão mais fundo era o buraco”, comentou uma ex-auxiliar da presidente. O estilo Dilma tinha um preço. Uma coisa era ser faxineira quando estava por cima, outra era manter a pose sendo bombardeada de todos os lados. “Deputado dá troco. É um horror, mas é fato”, comentou um parlamentar da base aliada, em Brasília. A retaliação vinha do próprio quintal. Numa ocasião, o então presidente da Câmara, o petista Marco Maia, queria indicar um afilhado político para o Banco do Brasil. Dilma não o atendeu. Em represália, ele abandonou uma sessão no meio para atrapalhar a votação. No Congresso, Dilma perdeu em várias votações relevantes para o governo. Com uma articulação política frágil, sem vocação para fazer o jogo da arraia-miúda, ela ficou à mercê do fisiologismo. “No segundo e terceiro anos de governo, como estava sem anteparo, ela se expôs muito”, comentou o deputado Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, em seu gabinete na Câmara, em agosto. Um dos exemplos ocorreu durante a votação da Lei dos Portos, quando o deputado Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, emparedou o governo. “A presidente ficou em simetria com um deputado. Isso não pode. Na Fazenda, a mesma coisa. Ela foi virando o alvo direto das críticas por não ter esse muro de defesa”, comentou. Ao longo do tempo, o pragmatismo ganhou. Dilma liberou o aumento dos ministérios para acomodar aliados, ministros faxinados indicaram sucessores, e ela trocou um ministro por causa de um minuto a mais no programa eleitoral na tevê. A imagem de faxineira ficara para trás.

Vieram as manifestações de junho de 2013. Começaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas logo ganharam dimensão nacional e se transformaram em revolta contra os gastos com a Copa, a precariedade dos serviços públicos, a venalidade da política brasileira. Em vinte dias, a aprovação do governo Dilma despencou de 57% para 30%. O grito de independência não tinha mais eco. No meio da crise, foi ela quem pegou um avião para São Paulo para se encontrar com Lula. O poste precisava de luz. Foi quando Lula sugeriu a saída de Guido Mantega. Mais uma vez, ela se fez de surda. “A maior força de Mantega durante todo o governo foi ter sido vulnerável. Poucos naquele cargo permitiram tamanha ingerência do presidente da República”, comentou um ex-integrante da equipe econômica. Para ela, demiti-lo significava perder o poder irrestrito de mandar na economia. Nessa época, Lula comentou com um grupo no Ipiranga: “Ela não vai mudar.” E viajou para uma longa série de compromissos na África. Mais uma vez, ela entendeu o recado. Paradoxalmente, depois de junho, teve início o período mais profícuo do governo Dilma. Em poucos dias, os protestos fizeram o Congresso aprovar projetos contra a corrupção, governos recuaram no reajuste do transporte público e o Judiciário mandou para a cadeia um político acusado de corrupção – o deputado Natan Donadon, do PMDB de Roraima. O Planalto emplacou o Mais Médicos e conseguiu aprovar no Congresso a lei para destinar à educação o dinheiro dos royalties do petróleo. As manifestações também provocaram uma reação inédita na presidente: ela mudou de ideia. Quando não apareceu nenhum interessado no leilão pela concessão de um trecho da rodovia BR- 262, que liga o Espírito Santo a Minas Gerais, ela flexibilizou as regras do jogo e só aí as negociações deslancharam. Ao mesmo tempo, Dilma passou a se encontrar com os movimentos sociais, lideranças indígenas, representantes de igrejas evangélicas. Reuniu-se até com o presidente da Central Única das Favelas, o Preto Zezé. Recebeu parlamentares, ministros, empresários. Também ficou assídua no Twitter, em sintonia direta com os eleitores. “Ali, deu uma revigorada em todo mundo. As coisas andavam, aconteciam”, disse-me um ministro do governo, no final de setembro. Na imprensa, ela era atacada sem dó: as obras para a Copa não ficariam prontas, os protestos paralisariam o país, a imagem do Brasil no exterior seria abalada – em suma, o desastre era iminente. Dois meses depois das manifestações de junho, o governo era aprovado por 44% da população. A presidente tinha coisas a resolver e se trancou no Planalto novamente. Em pouco tempo, a rotina voltou ao normal: reuniões infindáveis, encontros secretos, broncas. A gerentona estava de volta.

A reforma ministerial, no início de 2014, produziu o primeiro homem forte do governo: Aloizio Mercadante, alçado para a Casa Civil depois que Gleisi Hoffmann se desincompatibilizou para concorrer ao governo do Paraná. Ao longo do mandato, os interlocutores de Dilma eram Ideli, Gleisi, Giles Azevedo, Fernando Pimentel e José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça. Quando substituiu Fernando Haddad na Educação, Mercadante foi galgando espaço no grupo. Ainda ministro da Educação, passou a acompanhar a presidente nas viagens internacionais, mesmo que o assunto não dissesse respeito à sua pasta. Aproveitava os longos voos para palpitar sobre o governo em geral. Diz-se dele ser “o maior especialista no ministério dos outros”. A demissão de Antonio Patriota, do Ministério das Relações Exteriores, foi gestada entre os fios do hirsuto bigode. Comenta-se de um jantar em que Mercadante trocou a identificação dos lugares à mesa para se sentar perto de Dilma. Ele desabrochou aos olhos da presidente durante as revoltas de junho. Nas reuniões no Alvorada para debater as providências diante da crise, Mercadante tinha sempre uma opinião aguerrida, era assertivo, não titubeava – o que, para Dilma, é uma virtude. Entregava resultados num governo que tinha pouco a mostrar e teve importante papel na elaboração do Mais Médicos e do Pronatec – duas vitrines do governo. Logo, mais um apelido foi cunhado nos corredores do Planalto. Mercadante se tornara “O Príncipe”. Quadro histórico do PT, ele sempre teve uma relação conturbada com Lula e a ala paulista do partido. É considerado vaidoso, arrogante, megalômano. No governo Lula, jamais teve um ministério. Mas, na ausência de nomes de peso do partido – José Dirceu, José Genoino, Antonio Palocci –, era ele a melhor opção caseira para auxiliar a presidente. Quando se tornou um dos poucos a ter coragem de enfrentá-la, seu passe dobrou. Há quem enxergue na parceria uma declaração de independência em relação a Lula. Foi o que disse um ministro do governo durante um café da manhã, no final de agosto. “A impressão é que ela e Mercadante sequestraram nosso projeto e agora acham que podem melhorá-lo”, afirmou. Com agenda política própria, Mercadante tem planos altos. Quando comentei com Rui Falcão ter ouvido que ele estava convencido de ser o sucessor de Dilma, o presidente do PT riu. “Cada um pode sonhar com o que quiser”, disse. Era inegável que a presença de Mercadante dera mais confiança à presidente. Ela não estava mais sozinha.

Em maio deste ano, as pesquisas apontavam para a perspectiva de haver segundo turno nas eleições presidenciais. A reação do governo veio a reboque: aumentou o valor do Bolsa Família e anunciou a correção na tabela do Imposto de Renda. Dilma teve de lidar com as críticas e adversidades. Na abertura da Copa, fora vaiada e insultada em coro pela torcida presente ao Itaquerão. Sua popularidade despencara e o padrinho a deixara sozinha. “Ela não passa recibo, não deixa a emoção tomar conta”, disse um ministro do governo. É mesmo uma búlgara. Na lapela, nos bordados, no crepe, nos botões trabalhados, nas cores, nos modos, no paladar, mas, sobretudo, na maneira de externar emoções. “É como se ela tivesse uma missão. Você não vai vê-la se lamentando por aí. É uma causa, é uma missão”, observou. Nem quando fala do assunto que lhe é mais doloroso – a tortura –, ela o faz em tom de lamúria. O relato, reservado a poucos, é contado com detalhes estarrecedores. Um dos episódios mais degradantes envolveu um rato vivo. Fora dos campos, a Copa do Mundo transcorreu melhor do que se esperava. Infraestrutura, segurança, telecomunicações, tratamento aos turistas, às seleções e aos chefes de Estado – em geral, não houve problemas. Os poucos foram acobertados pela simpatia da hospitalidade. Logo depois do campeonato, o governo convocou uma entrevista coletiva com a presença de todos os ministros para falar do sucesso do evento. Mas já no dia seguinte Rui Falcão disse à imprensa que era hora de “reeleger Dilma e trazer Lula de volta em 2018”. A presidente mal tivera tempo de colher os louros quando a luz do poste a ofuscou novamente. “Aquela fala era uma maneira de dar um horizonte à militância para a continuidade do projeto”, disse-me Falcão, dias depois. Um pouco antes da Copa, o ex-presidente Lula esteve em Milão para visitar a sede da Pirelli. À noite, num jantar privado, fez uma breve explanação sobre o Brasil e a América Latina. Ali, para os cerca de vinte convidados, desancou a sucessora. Disse que ela não o “consulta para nada”, ressaltou sua inabilidade política e a dificuldade de tocar o governo. Dois dos presentes relataram o ocorrido a um conhecido empresário brasileiro do ramo do comércio exterior. “Se ela depender dele para se eleger, coitada dela”, comentou um deles, segundo o empresário contou, em seu escritório, em São Paulo. A declaração na Itália foi apenas uma das várias feitas por Lula em reuniões fechadas. Recentemente, a um grupo de executivos de um grande banco de investimentos, com sede na avenida Faria Lima, na capital paulista, a cena se repetiu.

Desde março de 2011, uma auditoria interna da Petrobras investigava a venda da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. O negócio custou 1,18 bilhão à Petrobras, quase 27 vezes mais do que o valor pelo qual a empresa americana havia sido vendida em 2005. Como presidente do Conselho de Administração da estatal, Dilma foi uma das pessoas que aprovou a transação. Quando engrossaram as suspeitas sobre o negócio, em março deste ano, Graça Foster preparou uma nota, limitando-se a dizer que o assunto era objeto de sindicância interna. Dilma rechaçou a explicação e considerou a nota “ingênua”. Sentada em seu gabinete, batucou no computador, durante horas, outra resposta, sob o olhar de quatro assessores, entre eles o advogado- geral da União, Luis Inácio Adams. “É para sair assim”, ordenou. Em nenhum momento ela consultou Lula ou o PT. Na nova versão, ela indicava que a compra havia se baseado em “documentação falha” e “informações incompletas”. A nota caiu como uma bomba de nêutron. Baseada nela, a oposição pediu a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito a fim de apurar as denúncias. Na opinião de um renomado advogado que trabalha para as empreiteiras envolvidas, Dilma “trouxe o assunto para o centro do palco”. A interlocutores, Lula propalava que ela havia dado “um tiro no pé” ao jogar dúvidas sobre o embasamento técnico e jurídico para a compra da refinaria. O assunto, apostavam os petistas, teria morrido por si só com a vaga explicação da Petrobras. Pouco depois, o Tribunal de Contas da União entendeu que os membros do conselho – incluindo Dilma, o empresário Jorge Gerdau e Fábio Barbosa, presidente do Grupo Abril – nada tinham a ver com o assunto. Os suspeitos a serem julgados seriam ex-diretores da Petrobras, entre eles Paulo Roberto Costa – um dos presos na Operação Lava a Jato, da Polícia Federal, que apurava as denúncias – e o ex-presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli. Ambos demitidos por Dilma dois anos antes. Segundo a revista Veja, em troca da redução da pena e proteção à família, Costa teria revelado, num acordo de delação premiada, que havia repassado dinheiro da corrupção para políticos como os ex- governadores Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Campos (PSB), a governadora peemedebista Roseana Sarney e seus colegas de partido Renan Calheiros e Edison Lobão, ministro das Minas e Energia. Em uma noite de setembro, encontrei-me com um advogado de um dos réus da Operação Lava a Jato, em um bar do Leblon, no Rio. Preocupado com a repercussão da delação premiada, ele corroborou o que já havia dito o réu: “Se ele falar, não tem eleição.” Comentou que Costa “era um ser único na política brasileira” – pela primeira vez, um operador atuava nas duas frentes: na arrecadação de recursos de campanha e na distribuição para políticos. “Na época do PC Farias, ele só arrecadava, não sabia para quem ia o quê. Esse Paulinho sabe tudo”, afirmou. O caso ganhava contornos ainda mais preocupantes porque, por causa da nova Lei Anticorrupção – sancionada por Dilma Rousseff –, atualmente são os controladores das empresas que respondem pelos crimes, não mais um diretor ou um secretário. “Você imagina o que é ter o dono de uma empreiteira realmente correndo o risco de ir para a cadeia?”, observou o advogado. O que moveu Dilma ainda é controverso. Havia a informação de que o relator do caso no TCU, o ministro José Jorge, ampliaria as investigações para o governo. “O que ela fez foi se defender, com razão. O que ela acha que é defesa própria, o PT chamou de ‘falta de solidariedade’”, disse-me um ministro palaciano. O curto-circuito era da luz, não do poste.

Da janela da sala da presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, tem-se uma visão magnífica da Baía de Guanabara. Em uma manhã de julho, sentada de costas para o cenário, ela falava sobre a chefe e amiga Dilma Rousseff. As duas se conheceram em reuniões de trabalho na Petrobras há dezoito anos. Quando vai a Brasília, Graça é uma das poucas a ser convidada a pernoitar no Alvorada. Lá, passam a noite conversando, ouvindo música e lendo. Encontramo-nos quase dois meses antes do acordo de delação premiada feito por Paulo Roberto da Costa. Comentei que gostaria de ouvir uma “voz amiga” da presidente, pois me surpreendia como seus assessores e interlocutores mais próximos reservavam a Dilma críticas tão ácidas e comentários tão ferinos. “É injusto com ela, muito injusto”, disse Foster logo no começo da conversa. “E isso acontece porque ela é justa e paga um preço alto por isso”, avaliou. No final de setembro, com mais uma queda brusca das ações, a Petrobras havia deixado de ser a maior empresa brasileira e perdera 144 bilhões de reais de valor de mercado desde o início do governo de Dilma Rousseff. Perguntei o que ela pensava ao ouvir que a presidente havia “acabado com a Petrobras e destruído o setor elétrico”. “Conheço essa empresa como a palma da minha mão, não tem isso”, disse, enfatizando a negativa com um movimento da cabeça. “Como uma empresa que investe 100 bilhões de reais por ano, tem 70 bilhões em caixa e produz 500 mil barris de petróleo por dia, só no pré-sal, pode estar mal?”, perguntou. Chegamos a Pasadena. Relatei a ela o que havia ouvido de cinco pessoas ligadas ao PT, com palavras a mais ou a menos, mas sempre com o mesmo sentido: a presidente havia exposto o esquema que ela sabia ter financiado sua campanha e a de vários companheiros do PT e de partidos aliados. Sem hesitar, Graça respondeu, grave: “Não sei nada disso do que você está falando.” Um copeiro trouxe café. Ela retomou o raciocínio. Acredita que Dilma é vítima da própria honestidade. “Ela é justa, honesta, muito justa e honesta. Esse é o ponto fundamental de tudo”, disse. Era de se imaginar que ela ficasse doída com as críticas inclementes. “Não é fácil para ninguém. Olha, eu vou até parar de falar porque eu já chorei aqui hoje. Mas, pode ficar tranquila, não foi por causa da Petrobras”, disse, sorrindo.

A trágica morte de Eduardo Campos varreu como um furacão o cenário eleitoral. A partir de então, tudo o que se especulava ficou velho. Em Brasília, passou-se a ouvir a expressão: “Ah, isso é tão 12 de agosto!”, em referência à véspera do desastre. O PT havia se preparado para repetir o mote “Nós contra eles”, no embate com o PSDB. Quando Marina Silva se tornou uma ameaça real, o partido não sabia o que fazer. De novo o “Volta, Lula” surgiu forte dentro do PT. Naqueles dias, um influente empresário, com negócios no Sudeste e Nordeste, foi recebido para jantar na casa da família Lula em São Bernardo do Campo. Como era domingo, pediram pizza pelo telefone e se reuniram em volta da mesa. O assunto logo resvalou para o governo. Ele, que estava decepcionado com o PT, externou sua opinião. Foi a deixa para Marisa desancar Dilma mais uma vez: ingrata, falsa e traidora foram alguns dos adjetivos que empregou. Os filhos de Lula corroboravam a opinião da mãe. O ex-presidente permaneceu calado. Ali, o empresário teve uma epifania. Percebeu que, por mais forte que fosse o “Volta, Lula”, o ex- presidente jamais teria coragem de se apresentar como candidato. Nem para salvar a eleição de 2014, já que ele já tinha em vista 2018. O preço de deixar de ser um mito e desembarcar na vida real, num cenário de incerteza aguda, era pesado demais. Logo que Marina se lançou candidata, as pesquisas encomendadas pelos partidos não davam grande vantagem a Lula sobre sua ex-ministra, quando confrontados na mesma cédula. Com o alerta vermelho na campanha de Dilma, Lula passou a viajar pelo país fazendo comícios e acompanhando a candidata em eventos. Quatro ministros se licenciaram dos cargos para cuidar da articulação política. A 32 dias do primeiro turno, um grupo se reuniu na suíte do hotel Unique, em São Paulo, onde Dilma estava hospedada. Lula deu a ordem de comando: “Vai ser o segundo turno mais longo da história. Ele tem que começar agora”, disse. Isso significava atacar Marina com todas as armas, para que ela chegasse ao segundo turno fragilizada. A partir daí o tom da propaganda eleitoral engrossou: Marina foi comparada a Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello. Em outro spot, dizia-se que, com a autonomia que ela pretende dar ao Banco Central, a comida vai sumir do prato das famílias, em benefício dos banqueiros, caracterizados na propaganda como vilões. No jargão publicitário, a ordem era “desconstruir” Marina: explorar suas incongruências, dubiedades, fragilidades, o túnel desconhecido que seria seu governo. A estratégia surtiu efeito. Em três semanas, Dilma abriu quinze pontos de vantagem sobre Marina, mas ainda não tinha o suficiente para vencer no primeiro turno.

A poucos dias das eleições, o Brasil havia saído do Mapa Mundial da Fome das Nações Unidas. Pela primeira vez em cinco anos, registrava-se retração da economia, que havia entrado em recessão técnica. Ao contrário do que pregava o governo, o país crescia menos do que seus pares na América Latina. A inflação recuava a passos lentos. Indagada se faria mudanças na equipe ministerial caso reeleita, Dilma respondeu de bate-pronto “Ano novo, equipe nova”, incorporando a seu repertório a expressão “novo, nova”, bordão da adversária Marina e sua “nova política”. O recado tinha alvo: Mantega estaria fora no próximo governo. Ele soube da notícia pela internet. “Ela só não esclareceu se também vai mudar. Se vai deixar de ministrar para começar a presidir”, disse um secretário do governo com status de ministro. No final de setembro, durante um café da manhã no Rio, um importante dirigente do PT comentava o enredo eleitoral. “Ninguém ia imaginar a morte do Eduardo Campos, a crise econômica mundial, o sentimento que ia surgir das manifestações de junho. Mas todo mundo sabia da inabilidade da Dilma, da ojeriza pela política, desse temperamento”, resumiu. A reeleição de Dilma ganhara fôlego. De nada adiantara mostrar as obras, os programas, as falas de Lula. A vantagem só foi recuperada quando o PT pegou em armas e passou a atacar sem piedade a adversária. As dificuldades do governo, segundo meu interlocutor, nunca foram de macroeconomia, mas de estilo. “Arrogância”, ele disse. Argumentei que, se eleita, ela poderia fazer um governo mais livre, sem se preocupar com Lula ou com o PT, já que provavelmente seria seu último cargo político na vida. Ele balançou a cabeça e deu um sorrisinho. Antes de se retirar, arriscou o porvir: “O fato é que, se ela ganhar, foi o PT que ajudou. E aí, no dia 1º de janeiro, o governo passa a funcionar no Ipiranga. Se perder, ela vai levar essa culpa para sempre. Infelizmente, isso é a política.”

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Resenha – capítulo 2 – Modernidade e Modernismo – David Harvey

Harvey começa o capítulo definindo a modernidade como uma moeda de duas faces: de um lado, está seu caráter transitório, fugidio e efêmero; do outro, o que ele chama de eterno e imutável. Segundo o autor, a modernidade caracteriza-se por destruir tudo o que é considerado verdade e tido como certo para construir sobre suas cinzas o novo. “Ser moderno é ser parte de um universo em que tudo o que é sólido desmancha no ar”, como disse Marx.
Essa definição se assemelha bastante ao mundo que nos cerca hoje, onde avanços tecnológicos permitem não só o acesso a informação em tempo real, como a rapidez com a qual essa informação passa por nossas mãos. Estímulos diversos e mudanças constantes permeiam nosso cotidiano, assim como redes sociais tornam os relacionamentos cada vez mais efêmeros e superficiais.
A modernidade é, então uma época onde a única certeza é a incerteza, como muitos escritores e artistas enfatizaram ao longo de seus estudos. Uma consequência disso, como Harvey aponta, é o fim da continuidade histórica, pois como tudo é transitório, e portanto sem base ou ordem pré-moderna, já que a característica principal da modernidade é romper com tudo o que veio antes. O problema encontra-se em desvendar o “eterno” dentro de toda a transitoriedade.
Para Harvey a modernidade como projeto é um esforço intelectual dos filósofos iluministas, e em parte do texto o autor se dedica a fazer esse paralelo entre o imutável e o transitório na perspectiva desses pensadores: segundo os iluministas, somente por meio do rompimento com as estruturas e instituições anteriores (feudalismo, mito, Igreja, etc.) em prol de um pensamento racional, as virtudes universais e eternas do homem poderiam ser desvendadas. O autor então lista as crenças iluministas, como o homem como centro de todos os estudos, a crença na libertação e no progresso por meio das ciências e das artes guiadas pela razão. Dessa forma, a destruição de tudo o que veio antes vinha como um passo necessário a ser seguido em nome de um bem maior.
Todo esse otimismo em relação ao Iluminismo sofreu um baque com a chegada do século XX, revelando o chamado “lado sombrio da modernidade”.
“…alegavam que a lógica que se oculta por trás da racionalidade iluminista é uma lógica da dominação e da opressão. A ânsia por dominar a natureza envolvia o domínio dos seres humanos, o que no final só poderia levar a ‘uma tenebrosa condição de autodominação’”.
O Iluminismo estava de fato longe de ser uma doutrina perfeita, possuindo diversas contradições e críticos, os quais Harvey cita. Dentre essas contradições estava a questão de que, se existia de fato uma razão superior, quem seria o detentor dela, que possuía o poder de governar os homens. Marx, por exemplo, acreditava que “a emancipação humana universal poderia emergir da lógica classicista e evidentemente repressiva, embora contraditória, do desenvolvimento capitalista”. Considerava a classe trabalhadora o agente de libertação justamente por ser reprimida.
Weber, por outro lado, via o projeto da modernidade de forma pessimista, alegando que toda a aparente busca pela razão levava a uma racionalidade proposital-instrumental, que não gerava liberdade, mas sim uma prisão burocrática. Já Nietzsche defendia que de nada a valia a meta iluminista de construir qualidades humanas universais, pois a verdadeira essência humana estava definida na destruição criativa (destruir para criar) e na criação destrutiva (atividade criativa que destrói). Mais uma vez faz-se referência a um caráter importantíssimo da modernidade, que é o rompimento com a pré-modernidade, ou seja, o ato de renegar tudo o que veio antes para construir a partir daí o novo (destruição criativa).
“Como poderia um novo mundo ser criado sem se destruir boa parte do que viera antes?”
A tradução desse dilema na literatura é a obra Fausto, de Goethe, na qual o herói trágico está disposto a destruir tudo e todos que entrem no seu caminho de libertar a raça humana de seus desejos e necessidades.
Com isso, mais uma vez Harvey recorre à dualidade na qual seu texto é baseada: “… vemos aqui (…) a oposição entre o efêmero e o eterno. Se o modernista tem de destruir para criar, a única maneira de representar verdades eternas é um processo de destruição passível de, no final, destruir ele mesmo essas verdades.”
Entretanto, especialmente por causa dessa colocação de Nietzsche, a razão iluminista não era mais o foco das atenções como instrumento definidor da essência eterna da humanidade, sendo substituída pela estética. Sendo assim, artistas, escritores, arquitetos e etc. começaram a ocupar uma posição muito importante na definição de uma estética modernista e na criação de uma essência eterna humana (já que esta não podia mais ser pressuposta de antemão).
O propósito do texto é lançar sobre o projeto de modernidade uma perspectiva histórica, sobretudo na sua aplicação na vida cotidiana, valendo-se para isso de uma abordagem da produção artística, especialmente das vanguardas, dos séculos XIX e XX. Não a toa o texto começa com uma citação a Baudelaire parte do Fausto para sua análise inicial.
A partir do século XIX a produção artística, então engajada no projeto moderno, procura de todas as formas ser antítese dos seus prdecessores. A busca pela ruptura na forma e conteúdo é parte da obra de quase todos os artistas. Fugir do gosto popular e procurar se diferenciar era atitude considerada imprescindível para que o artista estivesse de alguma forma na vanguarda.
Na perspectiva da produção artística a experiência estética era tão valorizada quanto a racionalização proposta pelos ideias iluministas. Essa atitude é influenciada por proposições como a de Nietzsche, para quem “a arte tem poder para ir além do bem e do mal”. A busca pela experiência estética está na origem do romantismo e só vai encontrar oposição a partir do meio do século XIX, quando as ebulições políticas pós 1848 demandam da produção artística posicionamento político.
A segunda grande manifestação da modernidade nas artes é a reação aos novos meios de produção e teve seu período mais fecundo até o começo da Primeira Guerra. Questionava-se o papel da máquina no cotidiano e a dependência que começava a surgir do homem em relação a máquina. Questionava-se também a racionalização da vida cotidiana.
A modernidade traz uma grande contradição em si. No campo das relacões sociais é marcada pela dualidade entre uma homogenização de grupos e questões sociais, porém com o surgimento a profundamento de uma individualização.
Essa importância do artista é muito vista hoje ainda. Por exemplo, na época da ditadura brasileira, os compositores e cantores desempenhavam um papel importantíssimo renegando a ordem vigente e clamando por mais liberdade de expressão e justiça. Ou seja, também nos dias atuais o artista tem um papel imprescindível na definição de uma época, assim como nesse momento do modernismo.

A mulher bem-sucedida e a participação da internet na construção de celebridades femininas1

Lígia Lana2
Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ

Resumo

De maneira crescente, narrativas de mulheres de sucesso são divulgadas pela mídia, sugerindo que a igualdade entre os gêneros, se ainda não foi alcançada, está prestes a ocorrer. As celebridades femininas personificam algumas dessas narrativas. Este trabalho discute a noção de sucesso feminino, analisando a trajetória de Geisy Arruda. Depois de ter ganhado projeção pública através do Youtube em 2009, quando foi humilhada por seus colegas da Uniban, Geisy surpreendentemente permanece hoje como figura onipresente da mídia. Quatro anos após sua aparição, convertida em celebridade, Geisy é bem-sucedidaao usar as ferramentas digitais em busca da visibilidade. O trabalho analisa a celebrização de Geisy, refletindo sobre seu empreendedorismo na internet, a moldagem seu corpo e os valores morais de gênero que desaprovam sua conduta como mulher.
Palavras Chave: Feminismo; Sucesso; Celebridade; Geisy Arruda; Youtube.

Em 1991, a jornalista Susan Faludi publicava Backlash, termo de difícil tradução para o português, em que alertava para os riscos do retrocesso conservador das condições de vida das mulheres norte-americanas. Em um texto acessível, que rapidamente se tornou best-seller nos Estados Unidos, Faludi (2001) revelava como jornais, revistas, cinema, moda e livros aparentemente bem-intencionados estariam refreando a continuidade de conquistas das mulheres e contribuindo para o retorno de valores patriarcais. Faludi constata que havia naquele momento na cultura popular americana uma intensa celebração de avanços femininos – vagas nas universidades, bons empregos e ampla cidadania – criando a sensação de que nunca havia sido tão bom ser mulher. Essas narrativas de sucesso estariam coexistindo, no entanto, com a divulgação maciça da infelicidade feminina. Apesar de bem-sucedidas, as americanas nunca antes haviam experimentado tanta solidão, depressão, infertilidade e estresse. Segundo Faludi, o aparente paradoxo é tratado pela cultura popular de maneira conservadora: a causa de diversos problemas femininos seria responsabilidade do feminismo que, ao invés de ter promovido sucesso, saúde e satisfação para as mulheres, trouxe a infelicidade. Trabalhando com uma série de índices demográficos, que indicariam a permanência de mulheres em cargos subalternos, com menores salários e representando a maioria da população pobre nos Estados Unidos, Susan Faludi argumenta que, ao invés de abordar a desigualdade de gênero pelos aspectos econômico-sociais ou pela necessidade da criação de políticas públicas de redistribuição e de reconhecimento, a mídia atribuiria todos os problemas femininos às ideias feministas.

Ao longo dos anos 1980, a cultura popular norte-americana, especialmente a mídia, teria criado uma versão mitológica e ilusória do feminismo. As feministas, vistas como bruxas e mal-amadas, ao aspirar a igualdade, são responsabilizadas pelo estresse e pela dupla jornada de trabalho das mulheres. Noções bélicas de “luta”, “batalha” e “guerra dos sexos” passam a definir qualquer tipo de voz que se propunha a discutir o tema da desigualdade de gênero, o que tornaria o debate público em torno da justiça social entre homens e mulheres um tema agonístico e de orientação violenta. O boato que a socióloga Shere Hite, autora de um trabalho de orientação feminista em que apontava a hostilidade diante da independência das mulheres, havia dado um soco em um taxista que a chamou de “querida” é um dos inúmeros exemplos trazidos por Susan Faludi para demostrar os mitos criados pela mídia a respeito do feminismo. Ao destacar a crescente força dobacklash, “a guerra não declarada contra as mulheres”, Susan Faludi criticava a intricada correlação entre os mitos criados pela mídia a respeito do feminismo e a problemática celebração de um sucesso feminino ainda não alcançado.

Quase vinte anos depois, a ideia de backlash de Susan Faludi foi revista por Angela McRobbie (2004). Mostrando a importância do ensaio jornalístico, mas trazendo outro ponto de vista, McRobbie discute como a felicidade e a realização femininas raramente aparecem na mídia ocidental contemporânea como projetos políticos, que caracterizaram as reivindicações feministas em diferentes momentos do século XX. Ao contrário da tese antifeminista do backlash, McRobbie mostra que o feminismo é levado em conta hoje pela cultura popular como movimento social finalizado. As aspirações femininas podem ser plenamente alcançadas por jovens mulheres através da capacidade absoluta e individual de definir a condução de uma vida bem-sucedida.

Dotadas da razão para tomar decisões acertadas e, ao mesmo tempo, responsabilizadas individualmente pelas escolhas erradas e por sua própria infelicidade, as mulheres tornam-se protagonistas de programas de televisão que prometem a transformação do visual, de comédias românticas de grande bilheteria e do jornalismo popular. A gramática moral que sustenta as narrativas das garotas “A1”, cujas trajetórias de vidas são modelares para as demais jovens não somente pelas posições de topo alcançadas, mas porque elas são responsáveis individualmente por seu sucesso, ensina que as mulheres vencedoras não necessitam mais da politização das desigualdades entre homens e mulheres. Assim, o sentimento antifeminista iria além do retrocesso de ganhos feministas, o backlash criticado por Faludi; para McRobbie, a cultura popular contemporânea dissemina uma nova versão de sucesso feminino, em que palavras como “poder” e “escolha” individuais substituem o feminismo como reivindicação política.

À primeira vista, a distância social que separa Inglaterra e Brasil parece não interpor diferenças significativas quando se observam as representações do sucesso feminino na mídia nacional contemporânea. Cada vez mais, narrativas de mulheres fortes e bem- sucedidas têm destaque na cultura popular-midiática: revistas e jornais descrevem detalhadamente perfis de executivas de multinacionais, de ministras de governo e do Supremo e ainda, de maneira muito emblemática, da presidente do Brasil, Dilma Rousseff.3

Figuras como a delegada Helô, a personagem corajosa da telenovela Salve Jorge, a vencedora da última edição do programa Big Brother, Fernanda, heroína romântica, mas muito assertiva e determinada, e Anitta, a poderosa funkeira em ascensão são exemplos recentes de mulheres bem-sucedidas nos regimes midiáticos – e que, como possuem grande aceitação do público, sinalizam para versões de sucesso referendadas socialmente. Aparentemente, assim como na Inglaterra, o sucesso se origina de méritos individuais (força, coragem, determinação), em que a construção de um destino bem-sucedido baseia-se em escolhas pessoais acertadas.

Em um cenário da celebração do sucesso, como discute Angela McRobbie, a permanência de desigualdades entre homens e mulheres não é problematizada, e o feminismo é levado em conta apenas para anunciar a sua superação, já que mobilizações coletivas de reinvindicação pela igualdade parecem não ser mais necessárias diante da personificação individual de trajetórias femininas de sucesso. Olhando para a mídia contemporânea, não é muito difícil concluir que “elas venceram”, “elas chegaram lá” e “venceram a guerra dos sexos”.

Em minha tese de doutorado, defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFMG no ano passado, realizei uma análise comparativa da trajetória de duas celebridades brasileiras: a modelo Gisele Bündchen e a apresentadora de televisão Luciana Gimenez. Ambas são amostras exemplares da vida feminina bem-sucedida.Bündchen é a modelo número um, a self-made woman que construiu seu sucesso e sua fortuna, heterossexual, mãe de família e aparentemente blindada contra qualquer tipo de fracasso; Luciana, apesar de não possuir a mesma fortuna e destaque de Gisele, contrariou a profecia da mídia em 1999 de que desapareceria depois do nascimento do filho com Mick Jagger, mantendo-se até hoje em dia como celebridade. A compreensão das desigualdades de gênero no espaço público orientou a análise dos dois casos. Ao longo da pesquisa, dediquei-me à investigação os limites da participação das mulheres como figuras legítimas da experiência pública (AZEREDO, 2007; MOI, 1985; PERROT, 1998; GOFFMAN, 2009). A conclusão mostrou que a obrigação de conjugar tarefas públicas (a busca por visibilidade e reconhecimento e os compromissos com a construção da imagem) e privadas (a maternidade, a conquista amorosa e os cuidados com a família) não acompanhava a tematização das atribuições como campo problemático do universo feminino. Além disso, Gisele e Luciana, apesar das diferentes motivações para a conquista da fama, mostraram-se como celebridades semelhantes na medida que trabalharam ativamente – cada uma à sua maneira – pela manutenção de seus espaços na mídia.

Prosseguindo as reflexões desenvolvidas na tese, realizo atualmente um projeto de pesquisa de pós-doutorado na Escola da Comunicação da UFRJ, sob supervisão de João Freire Filho, em que investigo a construção da celebridade feminina em diálogo especificamente com as representações do sucesso da mulher hoje. Um dos objetivos centrais do trabalho é compreender melhor o argumento de Angela McRobbie a respeito do arrefecimento do feminismo, causado pela sensação, divulgada pela cultura popular- midiática, de que todas as lutas pela igualdade obtiveram êxito. No caso das celebridades femininas, que possuem capital de visibilidade, um bem muito importante e valorizado na cultura contemporânea, uma das concepções centrais do ser mulher refere-se à vida bem- sucedida, cerne das preocupações de Angela McRobbie. O sucesso das celebridades pauta- se pela busca da fama através da mídia e da permanência no espaço da visibilidade.

Aproximo-me, finalmente, da temática do GP Cibercultura. Na pesquisa sobre Gisele Bündchen e Luciana Gimenez, a internet foi usada como diário de campo online (no WordPress), como local de coleta de dados da mídia popular (nos sites de jornais, revistas e programas de televisão desde 1998 aos dias atuais) e como objeto de estudo da fala institucional/oficial de ambas em seus sites. No entanto, a internet, naquele momento, não foi problematizada como local pleno de potencialidades para a busca da visibilidade, apesar de ter sido observada, nos dois casos analisados, a intensa dedicação para se manterem visíveis na mídia através da internet: entre 2009 e 2011, Gisele e Luciana usaram seus perfis nas redes sociais para zelar por suas presenças como celebridades, prestando contas em situações problemáticas, divulgando o lançamento de algum produto ou simplesmente informando fatos de suas vidas privadas. No Brasil, pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos a respeito da configuração da fama das webcelebridades, tanto do ponto de vista das tensões entre a presença das celebridades em meios massivos e na internet (BRAGA, 2010), bem como do próprio limite do conceito quando se trata da reputação advinda de blogs (PRIMO, 2009). Não me alongarei aqui no diálogo com esses ou outros estudos da área, pois o objetivo deste texto é apresentar especificamente os limites da noção de sucesso das celebridades femininas quando criadas e moldadas pela internet.

Recentemente, apresentava para uma turma da pós-graduação uma das conclusões de minha tese de doutorado, a análise dos momentos iniciais da aparição pública de Luciana Gimenez. Para a mídia, Luciana manipulou um acontecimento (a gravidez de Jagger) e se tornou conhecida porque, enquanto uma mulher mal inserida no sistema midiático, ela soube escolher um pai famoso para sua ascensão pública; além disso, ela escolheu bem um pai rico para seu filho, que assumiria o pagamento de uma elevada pensão. Para a mídia, a moral que conduziu Luciana foi o uso astuto da sensualidade feminina. Nas poucas imagens que ilustraram as matérias analisadas, chamou atenção a reprodução pela revista Veja de uma das páginas de seu calendário em poses sexy, o que justificaria por que Mick Jagger não teria resistido “às garras” de Luciana. O intuito de mostrar ali a análise do episódio era dialogar com a noção de mulheres públicas de Michelle Perrot.

O homem público, sujeito eminente da cidade, deve encarnar a honra e a virtude. A mulher pública constitui a vergonha, a parte escondida, dissimulada, noturna, um vil objeto, território de passagem, apropriado, sem individualidade própria. Por que essa dissimetria das palavras e das imagens que faz com que muitos leitores venham espontaneamente a pensar que este livro é dedicado – e por que não? – às mulheres da noite? (PERROT, 1998, p.7).

As prostitutas foram as primeiras mulheres presentes na vida pública e, portanto, correspondiam ao único tipo feminino possível nessa esfera. A partir do século XIX, surgem outros tipos de mulheres públicas: as burguesas nos centros comerciais das cidades, as vendedoras ambulantes e as lavadeiras, que passam a circular com mais desenvoltura no espaço público. O risco representado pela mulher sensual, personificado na figura de Luciana Gimenez, não seria uma novidade no que tange a participação do feminino na vida pública; ao contrário, a prostituta é a sua figura mais clássica. A oposição entre puta e santa, por muitos anos, fundamentou o preconceito contra a mulher na sociedade, em que o homem, “pai, provedor, viril, que não se satisfaz sexualmente apenas com sua esposa e não controla o próprio desejo sexual, não admitindo que ela faça o mesmo, inclusive porque a esposa ocupa o lugar de santa/virgem na dicotomia estabelecida com a puta.” (AZEREDO, 2007, p.23). Condenada pela mídia por valores patriarcais, Luciana, ao seduzir o homem casado, confirmou os riscos da sensualidade como perigo (ela seria uma espécie de piriguete dos anos 1990), enriquecendo em capital de visibilidade e financeiro às custas do ídolo do rock. Enquanto personagem que aspirou e conquistou a visibilidade, Luciana tratou de jogar com esses valores preconceituosos, buscando escapar um pouco da humilhação sofrida ao se apresentar como alguém oriunda da elite financeira paulista (seu pai é empresário próspero em São Paulo) e midiática carioca (sua mãe é a atriz Vera Gimenez e o padrasto era Jece Valadão). Além disso, ela afirmou constantemente seu desejo de formar uma família e as dificuldades de ser mãe solteira.

Durante o debate com a turma, uma questão instigante foi trazida: naqueles dias, era exibida nos ônibus do Rio de Janeiro a notícia que Geisy Arruda, conhecida em novembro de 2009 por ter sido humilhada por seus colegas e expulsa de uma universidade privada de São Paulo, havia começado a praticar Muay Thai. Fui indagada sobre o que motivava as pessoas se interessarem pela vida de Geisy e se eu acreditava que ela teria algum distúrbio de personalidade, já que, mesmo depois de toda a humilhação sofrida na universidade, ela parecia não se importar em continuar sendo achincalhada em comentários de sites populares como Ego, Uol e IG. A princípio, pensei se ainda persistiria a superada concepção de que os indivíduos comuns são tolos culturais, alienados de assuntos importantes e seduzidos por besteiras. Ocorreu-me também – e este é o foco que me interessa aqui – que a permanência de Geisy no espaço da visibilidade sugeria que as representações da vida bem-sucedida de celebridades femininas poderiam estar sendo transformadas por uma estrutura de divulgação mais complexa, trazida pela popularização dos meios de comunicação digital.

Geisy não é uma celebridade como Gisele Bündchen, seu poder de afetação é bem mais restrito. No entanto, ao aparecer em uma tela no ônibus urbano, Geisy se insere na vida cotidiana de maneira expandida; cogitei que um passageiro daquele mesmo ônibus poderia avistar pela janela, por exemplo, um outdoor de Gisele Bündchen em uma propaganda de sandálias. Como a estrutura midiática e seus regimes de visibilidade
poderiam abrigar/fazer encontrar celebridades femininas com concepções de vida bem- sucedida tão diferentes? O começo da trajetória pública de Geisy Arruda, momento chave da criação da celebridade, foi definido pela internet e pelos aparelhos de produção de imagens digitais. Ela seria uma webcelebridade na medida que sua origem está noYoutube: sem a repercussão do vídeo de seu linchamento, talvez ela não tivesse ganhado a fama. No entanto, sua projeção pública se prolongou por um tempo maior que aquela situação momentânea de visibilidade. Geisy permanece como figura visível na mídia, tendo se tornado uma celebridade. Dada a manutenção de Geisy na esfera midiática, o que sua trajetória poderia revelar sobre a mulher bem-sucedida? Diante do sucesso que alcançou, como compreender o papel das estruturas midiáticas digitais na formação da celebridade? Comparando Luciana e Geisy, por exemplo, teria ocorrido alguma mudança significativa na visibilidade e na configuração do linchamento público que ambas sofreram? Em suas aparições mais recentes, como os meios digitais contribuiriam para sua performance?

A história de Geisy Arruda remete a um passado muito recente: em 22 de outubro de 2009, a estudante do curso de turismo da Universidade Bandeirante, campus São Bernardo, foi à aula, no período noturno, com um vestido cor-de-rosa curto e colado ao corpo. Cerca de 700 alunos e alunas reuniram-se diante da sala de aula onde ela estava para, em coro, gritar “puta, puta, puta”, em reação à sua aparência sensual. A polícia precisou ser chamada, levando Geisy, com o corpo coberto com um jaleco branco, embora dali. A situação, gravada em vídeos pelos próprios alunos, foi divulgada no Youtube.4 Alguns dias depois, o caso ganhou repercussão pública.

O blog Boteco Sujo, atualmente desativado, teria sido o primeiro a divulgar o vídeo do linchamento de Geisy Arruda. Em 29 de outubro, possivelmente motivada pelo grande número de acessos do vídeo, a mídia nacional (TV Globo, Época, TV Record, Terra, entre outros) passou a narrar o evento. Segundo Alciane Baccin (2012), jornais e agências de notícias estrangeiras noticiaram o caso um pouco depois, a partir de 08 de novembro, quando a Universidade Bandeirante anunciou a expulsão de Geisy através de um informe publicitário veiculado em jornais impressos, alegando “desrespeito à dignidade acadêmica e à moralidade”. The New York Times, The Guardian, Associated Press, The Telegraph, Reuters, entre outros publicaram matérias sobre a expulsão da estudante. O Google Trends revela que a busca por “Geisy Arruda” foi registrada nos Estados Unidos, Canadá, México, Inglaterra, Portugal, Espanha, Alemanha e Japão. Como mostra a dissertação de Baccin, as mídias digitais definiram a construção do acontecimento jornalístico; o debate público em torno do caso também se configurou a partir da internet, sendo as interações mediadas por computador decisivas para os próprios desdobramentos do caso. O tópico #UNItaleBAN no

Twitter, por exemplo, reuniu opiniões e links a respeito do assunto. Os textos publicados emsites de notícias do exterior foram vinculados (linkados) às notícias dos portais brasileiros, comprovando a relevância mundial do caso, o que estimulou ainda mais os internautas a deixarem suas opiniões nas caixas de comentários. A tematização do assunto em blogsnacionais tornou-se um fenômeno. O Estado de S. Paulo constatou que a “expulsão de Geisy transformou Uniban em alvo na internet”, citando com perplexidade a unanimidade da perspectiva crítica à universidade trazida por blogueiros de orientações ideológicas muito distantes, de Luiz Nassif a Reinaldo Azevedo.

Depois do anúncio da expulsão, rapidamente instituições públicas divulgaram notas de repúdio à decisão da Uniban. O Ministério da Educação cobrou explicações da universidade, e o Ministério Público Federal processou a Uniban, mesmo depois de a expulsão ter sido revertida. Contrariando em parte a tese de Angela McRobbie, a perspectiva feminista foi levada em conta em alguns desses posicionamentos. A nota pública da União Nacional dos Estudantes intitulou-se: “Episódio de violência sexista acaba em mais uma demonstração de machismo”; um ofício da deputada estadual Maria Lúcia Prandi enviado à Uniban afirmou: “a expulsão da jovem é medida arbitrária, de caráter preconceituoso e sexista, onde a vítima se torna culpada por sofrer toda sorte de agressões”; na manifestação organizada pela Central Única dos Trabalhadores de São Paulo na porta da universidade em São Bernardo, um cartaz pedia: “Basta de violência! O machismo mata!”5

Em outros tantos textos, contudo, a menção à desigualdade de gênero não apareceu. Para o Ministério Público, seria preciso averiguar o procedimento legal da expulsão, que não teria proporcionado à Geisy Arruda o direito à ampla defesa; para o senador Eduardo Suplicy, a questão deveria suscitar um debate sobre a educação no Brasil hoje; Reinaldo Azevedo, apesar de mencionar a agressão contra as mulheres no caso, centralizou suas críticas à ameaça aos direitos individuais. Nesse sentido, é sintomático que a matéria do

Estadão, ao reunir as principais críticas postadas na internet, não tenha citado textos de blogs feministas com muitos acessos na internet, como o Escreva Lola Escreva, que publicou três artigos sobre o caso.6

O evento midiático que constituiu a aparição pública de Geisy Arruda, ocorrido aproximadamente entre 28 de outubro e 15 de novembro de 2009, teve como motivação a desigualdade de homens e mulheres na experiência pública. Ao ser chamada de “puta” por usar um vestido curto, a estudante experimentou a permanência do passado histórico da oposição entre mulher pública e homem público. Ainda que Maria Rita Kehl (2009) tenha ponderado que Geisy havia sido “sem noção” com suas roupas inadequadas ao ambiente universitário (que corresponderiam ao padrão hipersensualizado da publicidade), não se pode esquecer que, para a sociedade patriarcal, o corpo feminino em público, quando sozinho, à mostra e acessível, é um vil território de passagem. A mulher séria conhece os riscos da liberdade no espaço público e protege-se, respeitando os limites de participação e aparição na vida comum. Denominações muito usadas na vida cotidiana dão conta desses dois tipos antagônicos de mulheres: moça maçaneta/moça de família; virgem/puta; anjo do lar/vagabunda – isso sem falar nas piriguetes, vadias e mulheres fáceis. Regular o vestuário feminino é uma das maneiras de lembrar essas oposições e ensinar os limites da participação feminina no espaço público.

Em Paris, na passagem do século XIX para o XX, a pintora Rosa Bonheur possuía uma autorização da prefeitura de polícia para usar calças compridas. Bonheur fazia pintura ao ar livre, o que exigia roupas diferentes das longas e pesadas saias que as mulheres burguesas usavam na época. A autorização precisava ser renovada por ela periodicamente, o que indica que os fiscais cuidavam atentamente da maneira como as mulheres se vestiam.7

Nos anos 1960, o surgimento da minissaia, um dos objetos mais representativos do feminismo, confirmou o grande avanço conquistado pelas mulheres na época para participação na vida pública. Entretanto, diante de avanços, persistem ainda diversas marcas do machismo. Programas de televisão contemporâneos como Esquadrão da Moda, 10 Anos Mais Jovem ou Superbonita e blogs de moda e beleza, de autoria predominantemente feminina, trazem naturalmente mulheres como protagonistas exclusivas, sem advertir para o fato que a obsessão com a recauchutagem e a regulação do visual representa uma das desigualdades mais graves entre os gêneros, pois remonta o passado da interdição da liberdade feminina na vida pública.

O caso Geisy Arruda mostra que os valores patriarcais persistem. Não apenas Geisy, mas um grande número de mulheres diariamente são chamadas de “puta”, “vagabunda” ou mesmo “gostosa” pelo simples fato de estarem sozinhas transitando no espaço público – em raros casos, homens são denominados “garanhão”, “cafajeste” ou “gostoso” quando andam pelas ruas. Ao ser moldado pela visibilidade da internet, o caso, que poderia ter ocorrido a qualquer outra mulher, ganhou contornos específicos. O mais interessante é que hoje, cerca de quatro anos após o ocorrido, Geisy transformou-se em celebridade.

Ao explicar as condições necessárias para que uma moça qualquer se tornasse uma atriz famosa em Hollywood, Edgar Morin (1989) sugere que não havia nenhuma característica muito precisa, pois a estrela seria fruto do acaso. “Ser estrela é, precisamente, o impossível possível, o possível impossível. Nem a mais talentosa das atrizes tem garantida a passagem a estrela, mas por outro lado o maior desconhecido pode se transformar de um dia para o outro em uma vedete.” (MORIN, 1989, p.34). Essa ausência de características especiais é apropriada também para a compreender a formação das celebridades contemporâneas. A atenção recebida inesperadamente a partir de um vídeo de sucesso no Youtube não apontaria, desde o começo, que Geisy iria se manter na mídia como uma celebridade. Todos os dias, milhares de pessoas postam vídeos no Youtube, muitas delas com a expectativa de receberem acessos dos internautas. Os dados estatísticos divulgados pelo Youtube não especificam qual a porcentagem de brasileiros entre os seus um bilhão de usuários mensais e em seu tráfego diário de vídeos, dos quais 70% vêm de fora dos Estados Unidos, mas notícias divulgadas pela mídia dão conta que o Youtube é a segunda rede social mais visitada no Brasil, atrás apenas do Facebook.8

Geisy Arruda conseguiu o impossível possível que muitos usuários almejam no Youtube, ela foi vista por um grande número de pessoas. Entretanto, a audiência de sucesso foi contraditória: linchada publicamente, Geisy processou a universidade por danos morais. Apesar de a universidade ter recorrido algumas vezes das decisões através de argumentos como “dano moral só se pode pedir quem tem moral” (CARDILLI, 2012), o tribunal de justiça de São Paulo decidiu em março de 2012 que a universidade teria que pagar uma indenização de R$ 40 mil à estudante. Logo após a sentença, Danilo Gentili, no programa Agora é Tarde (2012), perguntou o que Geisy Arruda achava da sentença, já que havia pedido inicialmente R$ 1 milhão. Afirmando que estava satisfeita com a decisão e que conseguiria dinheiro trabalhando, Danilo comentou: “coisa que quem se formou por esta faculdade dificilmente vai conseguir (…) você foi a única pessoa que saiu desta universidade com uma carreira.”

Além de ter lançado a marca de vestidos Rosa Divino, Geisy posou para a Sexy em novembro de 2010, número mais vendido da revista dos últimos cinco anos, e foi contratada pela Record por algum tempo. Inicialmente, participou da terceira edição do programa A Fazenda em 2010 e, em seguida, atuou na Escolinha do Gugu. Desde o início de julho de 2013, Geisy Arruda não possui mais vínculo trabalhista com a emissora. O fato parece não ser um problema para a manutenção de sua presença na mídia, já que Geisy sempre se manteve, desde sua aparição, como figura onipresente no espaço da visibilidade. Para isso, ela usa com astúcia a mesma internet que a lançou. Seu perfil no Twitter

(@geisyarrudareal) possui cerca de 190 mil seguidores – para se ter uma ideia comparativa, Luciana Gimenez (@lulusuperpop), com dez anos a mais de carreira, possui 890 mil; Tati Quebra-Barraco (@quebratati), conhecida a partir de 2006, 17 mil. No site Ego, Geisy possui uma seção própria, em que são reunidos dados biográficos e as últimas notícias de suas aparições públicas, como a participação em campanhas publicitárias ou a presença em festas. Os sites de fofoca são os que mais publicam informações sobre Geisy na internet, pautados por fotografias postadas por ela mesma em sua conta, normalmente com roupas curtas e decotadas.

Além das fotos diárias, uma das táticas que Geisy usa para buscar visibilidade é divulgar imagens de encontros com celebridades mais famosas que ela. No início deste ano, quando estava em um spa, por exemplo, encontrou-se com William Bonner e Malu Mader, ambos celebridades da Globo e dotados de grande capital de visibilidade. O evento se tornou notícia mais acessada em quase todos os sites de fofoca (Ego, O Fuxico, Diversão Terra, R7, F5 e Yahoo OMG). Outras celebridades que apareceram ao lado de Geisy recentemente foram Dani Bolina, Gianni Albertoni, Andressa Urach, Mara Maravilha e Tati Quebra-Barraco. Nesses casos, acontece o que Nathalie Heinich (2012) denomina “transmissão do capital de visibilidade”.

Outra tática que Geisy utiliza é a divulgação das diversas cirurgias plásticas que realiza; uma delas, uma cirurgia íntima, tornou-se trend topic no final de 2012. Como mostra George Vigarello (2006), a cirurgia estética surge nos anos 1930, em um contexto da busca pelo “corpo profundo”, em que mulheres precisam descobrir sua personalidade e construir sua própria aparência. “Buscar essa verdade interior determinaria a atitude estética: criar um corpo que materializa a parte mais profunda de si, trabalhar nele para melhor trabalhar sobre si.” (VIGARELLO, 2006, p.183). Mais importante, portanto, que a magreza do corpo é a sua moldagem através do trabalho sobre si, elaborado por vontade própria e orientado por uma individualidade singular. A cirurgia plástica dá a sensação do controle do próprio corpo – afinado, reduzido, moldado e reparado, o corpo desejável é resultado de uma transformação. As garotas “A1”, de acordo com Angela McRobbie, são modelos para as outras não apenas pela posição no topo da lista, mas porque chegaram lá por trabalho próprio e responsabilidade de fazer escolhas certas; de maneira análoga, concretizar o desejo de realizar uma cirurgia plástica contribui para imagem de uma mulher que decide os rumos de sua vida. Geisy Arruda está em sintonia com essas premissas.

Segundo o programa Domingo Espetacular (2012), em uma pesquisa de opinião, o corpo de Geisy foi eleito por 15 mil mulheres brasileiras como modelo para si mesmas. Suas concorrentes eram Gisele Bündchen e Juliana Paes, o que sugere que não apenas homens preferem o corpo mulherão (quadris largos, seios fartos e cintura grossa). Nas imagens mostradas aos entrevistados, as cabeças das três estava cortada, aspecto lembrado por Geisy em sua conta no Twitter: “só ganhei a pesquisa porque cortaram a cabeça da mulherada…” e retomado na entrevista ao programa de TV: “mesmo que fosse a mesma foto, mas mostrando meu rosto, eu não teria recebido essa quantidade de votos.” Geisy tem consciência que é desaprovada pelo público. Mesmo tendo sido judicialmente compensada, ela sabe que agora não é mais amparada. A unanimidade das críticas contra a universidade em 2009 não se desdobrou em apoio à sua atual presença nos regimes midiáticos. Em uma entrevista ao blogueiro Maurício Stycer (2012), Geisy afirma que criou um personagem. “As pessoas me acham polêmica (…) e acho que criei um personagem, aquela mulher que causa. E eu não sou nada disso, mas é isso que eu vendo, é disso que eu sobrevivo. (…) Eu fui uma das piriguetes que deu certo.”

No momento inicial de sua trajetória, as desigualdades entre homens e mulheres foram tematizadas. Ainda que não tenha orientado a totalidade das críticas ao linchamento, o feminismo foi levado em conta. Ao longo dos anos, Geisy Arruda se tornou uma celebridade que habilmente usa os meios digitais de comunicação, alcançando o sucesso como pessoa visível. Sua busca constante pela visibilidade refere-se ao uso sensual e ousado do corpo e à ligação com outras celebridades. Não há a retomada do feminismo como campo problemático. Ao declarar que reconhece sua desaprovação junto ao público, Geisy revisita de maneira contraditória seu linchamento.

A vida bem-sucedida foi, em parte, alcançada por ela; não se contesta o fato que Geisy possui capital de visibilidade. Nathalie Heinich (2012) mostra que possuir capital de visibilidade significa pertencer a uma nova elite social, constituída de indivíduos que possuem uma face visível a muitos, passível de contemplação e reprodução técnica. Essa nova classe teria surgido ao longo do século XX. Em um estudo pioneiro sobre o tema, Charles Wright Mills (1975) defendia também que as celebridades seriam representantes de uma nova elite do poder, que sustentariam sua existência na visibilidade de suas ações. O monopólio do poder das celebridades seria dividido apenas com outras camadas institucionais dominantes, como ricos executivos e líderes militares e políticos. As celebridades como pessoas da elite precisam empenhar-se de maneira específica para manter seu capital de visibilidade. Nesse sentido, a austeridade não é característica esperada; mesmo celebridades discretas, precisam ser vistas para manter esse capital. Geisy não tem pudores em mostrar seu cotidiano pelo Twitter e “criar seu personagem”.

No entanto, ainda que invista seu capital de visibilidade de maneira satisfatória através dos meios de comunicação digital, ela é desaprovada. Dizer que isso ocorre por sua busca incessante pela visibilidade seria uma explicação muito genérica: outros brasileiros ficaram recentemente conhecidos através de vídeos do Youtube – PC Siqueira, Luane Dias, Felipe Neto e Stephany Sousa – e todos eles lutaram (e lutam) para permanecer em evidência, mantendo contas em redes sociais, procurando conquistar novos seguidores. A atitude reprovável de Geisy não é exibir-se de maneira despudorada em busca da fama; seu desvio é ser mulher, categoria social subalterna ao longo dos séculos, e usar o corpo sensualizado para alcançar a vida bem-sucedida. Apesar de a situação ter sido duramente criticada, os valores patriarcais ainda predominam no Brasil, e o linchamento à “piriguete que deu certo” continua mantido.

Por fim, Geisy não se situa no patamar mais ilustre da celebridade, a elite social, porque ela é oriunda das classes baixas. Luciana Gimenez, quando foi linchada, defendeu- se através da proteção de sua ascendência elitizada. Geisy Arruda, ao contrário, sempre é lembrada da frágil origem social. Quando a “bonita e emocionante história de Geisy” é narrada pela mídia, sua infância humilde em Diadema e o passado pobre da família em Pernambuco são ressaltados. Quando foi eliminada de A Fazenda, Maurício Stycer (2010) escreveu: “o Tico Santa Cruz posou de amigo seu (…) mas ficava rindo de você. Onde já seviu te chamar de Magda? Qual o problema de dizer ‘holofortes’ em vez de ‘holofotes’? Ou falar ‘preferer’ em vez de ‘preferir’? Riram porque você não sabia o significado da palavra ‘punk’. E daí?”. A associação da imagem da ralé, classe desprotegida, com a mulher que usa deliberadamente o corpo para ter sucesso não tem a aprovação moral dos brasileiros. Em meio a tantas críticas, ao mostrar consciência que precisa buscar individualmente seu sucesso, Geisy Arruda se torna uma celebridade.

 

Referências

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_______. Carta aberta a Geisy Arruda, a maior diversão da “Fazenda”. Coluna do Maurício Stycer, 15 out. 2010. Disponível em: http://televisao.uol.com.br/a-fazenda/3/mauricio-stycer/2010/10/15/carta-aberta-a-geisy-arruda-a-melhor-piada-da-fazenda.jhtm. Acesso em 06 jun. 2013.

VIGARELLO, G. História da beleza. O corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

WRIGHT MILLS, Charles. As celebridades. In: ____. A Elite do Poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. p. 88-115.

1 Trabalho apresentado no GP Cibercultura do XIII Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

2 Bolsista Recém-Doutora (PDJ/CNPq), email: ligialana@gmail.com.

3 Tatiane Cruz Leal, que desenvolve atualmente sua dissertação de mestrado no PPGCOM-UFRJ, tem apresentado análises muito interessantes sobre as “mulheres poderosas”.

4 O vídeo original não está mais disponível no Youtube, mas as imagens foram reproduzidas por programas de televisão na época, como o Jornal Hoje (TV Globo), onde é possível assistir em <http://www.youtube.com/watch?v=d6Gd62q3DOQ&gt; às cenas gravadas pelos estudantes.

5 A nota da Une foi publicada em <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/imprimir/17284&gt;. Trechos do ofício da deputada foram divulgados em <http://al-sp.jusbrasil.com.br/noticias/2001905/deputada-repudia-expulsao-de-aluna-da-uniban&gt;. Imagens da manifestação disponíveis em <http://www.cutsp.org.br/multimidia/fotos/2009/atouniban&gt;.

6 A postagem principal foi “A turba enraivecida da Uniban” <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2009/10/turba-enraivecida-da-uniban.html&gt;, onde estão citados os endereços dos outros dois artigos, “Caso Uniban: tudo culpa dos gays e das mulheres” e “A desgraça da dicotomia: pare o pedestal que eu quero descer”, todos publicados entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro.

7 O caso de Rosa Bonheur e outras histórias semelhantes são narradas por Michelle Perrot (1998).

8 Youtube Estatísticas, disponível em: < https://www.youtube.com/yt/press/pt-BR/statistics.html&gt;.

Inconclusão

Normalmente, quando falamos de tradição nos referimos às coisas passadas, preservadas ao longo da memória e na prática das pessoas. Imediatamente nos vêm ao pensamento palavras como folclore, patrimônio, como se essas expressões conservassem os marcos de um tempo antigo que se estende até o presente. Tradição e passado se identificam e parecem excluir radicalmente o novo. Poucas vezes pensamos como tradicional um conjunto de instituições e de valores que, mesmo sendo produtos de uma história recente, se impõem a nós como uma moderna tradição, um modo de ser. Tradição enquanto norma, embora temperada pela imagem de movimento e de rapidez. Penso que hoje vivemos no Brasil a ilusão de que o moderno é o novo, o que torna difícil entender que as transformações culturais que ocorreram entre nós possuem uma irreversibilidade que faz com que as novas gerações já tenham sido educadas no interior dessa “modernidade”. Por isso o tema da indústria cultural se encontra naturalizado nas discussões sobre cultura, fato que muitas vezes contraria a vivência dos próprios debatedores que, em muitos casos, só vieram experimentá-la numa fase tardia de suas vidas. Fala-se em cultura de mercado como se ela sempre tivesse existido, ao mesmo tempo em que a ela se confere o atributo do moderno. Digo 208 moderno enquanto valor, qualidade. Mas não é só em relação à área da comunicação que isso se dá. Os políticos também valorizam a idéia de um “partido moderno” (embora sem qualificá-lo), da mesma forma que as revistas de assuntos gerais cultivam a modernidade das técnicas, dos hábitos, enfim de um modo de vida que em princípio encerraria um valor em si, na medida em que diferiria do “atraso” do passado. Mas o que significa reivindicar o “moderno” numa sociedade que se transformou, mas que cultiva ainda a lembrança da modernização como projeto de construção nacional? A pergunta é interessante e nos remete à discussão com a qual iniciamos este livro. 

Octávio Paz, em seu livro Os Filhos do Barro, nos dá algumas pistas para encaminharmos nossa reflexão.(1.Octávio Paz, Os Filhos do Barro, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.). Ele diz que o “moderno é uma tradição”, mas uma tradição feita de rupturas, onde cada ato é sempre o início de uma outra etapa. Neste sentido o moderno, enquanto modernidade, é a negação do passado e a afirmação de algo substancialmente diferente: “a modernidade nunca é ela mesma, é sempre outra”. O que evidentemente a distingue do novo, da última moda, que simplesmente adiciona algo que não existia ainda no panorama cultural, mas não afirma uma abertura, um porvir. Por isso o conceito de modernidade é polêmico, critico, ele configura uma “revolta do futuro . Como coloca Henri Lefebvre, “a maiêutica da modernidade não funciona sem um certo utopismo”.(2.Henri Lefebvre Introdução à Modernidade, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969, p. 55.). Neste sentido eu diria que a modernidade é inevitavelmente um “projeto inacabado” (e não como quer Habermas, um projeto “ainda” inacabado).(3.Ver Habermas, “Modernidade Versus PósModernidade”, Arte em Revista, nº 7, agosto de 1983. No mesmo número, artigos de Andreas Huyssen e Peter Burger, que debatem e criticam a perspectiva de Habermas.). Ela está em contradição com a situação concreta na qual se erige, mas que ao mesmo tempo se contrapõe. Penso que, no Brasil, este lado explosivo, de ruptura, nunca se colocou da mesma forma que nos paíPág 209 ses europeus, porque a idéia que dominou nossa imaginação sempre se associou à necessidade concreta de se construir uma moderna sociedade brasileira. Modernismo, modernidade e modernização são para nós termos intercambiáveis, pois dizem respeito a uma situação que ainda não havia se realizado de fato. No entanto, esse “modernismo possui uma história, e se no início do século ainda é uma “idéia fora do lugar”, ao longo dos anos ele se ajusta à sociedade que se desenvolve.
Talvez pudéssemos captar melhor essa mudança utilizando as categorias de “ideologia” e de “utopia” que Mannheim trabalhou.(4.K. Mannheim, Ideologia e Utopia, Rio de Janeiro. Zahar, 1972.). Mannheim considera tanto a ideologia como a utopia como idéias situacionalmente transcendentes, isto é, que jamais conseguem de fato a realização de seus conteúdos pretendidos. Mas as utopias não são ideologias na medida em que conseguem se contrapor e transformar a realidade histórica em uma outra realidade. “Um estado de espírito é utópico quando está em incongruência com o estado de realidade dentro do qual ocorre.”(5.Idem, p. 216.). Já a ideologia se ajusta melhor à realidade em questão, mesmo que não coincida com ela e tenha que se impor como hegemônica, para controlar os espaços que saem fora do seu campo de definição. Eu diria que o Modernismo como projeto encerrava um elemento de utopia uma vez que ele era incongruente com a sociedade brasileira que ainda buscava seus caminhos. Projeto, identidade, são noções que se aproximam e delineiam um itinerário coletivo, uma ilusão. Não é por acaso que os anos 40 e 50 são efervescentes, eles se desenrolam numa atmosfera que antecipa uma outra ordem social. Porém, com o desenvolvimento da própria sociedade, o que se propunha realizar de fato se instaura (mesmo guardada a inadequação que Mannheim sugere existir entre realidade e ideologia), o que significa que o projeto se torna uma ideologia, que agora procura reforçar a ordem estabelecida. Moderno como tradição, mas não como colocava Octávio Paz, enquanto tradição da ruptura; os sinais Pág 210 da “modernidade” brasileira indicam que realmente “somos”, e que por isso não mais devemos nos rebelar na direção de um outro futuro. A modernidade brasileira é, neste sentido, acrítica.
Os economistas geralmente dizem que a história brasileira é a história do capitalismo, mas de um determinado capitalismo. Com isso eles entendem a especificidade do capitalismo na periferia, que certamente teve um destino diferente do que nos países centrais. É curioso perceber como essa dimensão da vida econômica brasileira se reflete no plano cultural. Vianinha, fazendo uma crítica da cultura brasileira, afirma: “A cultura capitalista do Brasil não é capitalista, portanto não é brasileira”.(6.Vianinha, “A Cultura Proprietária e a Cultura Desapropriada”, in Teatro Televisão Política, São Paulo, Brasiliense, 1983). Sua fala retoma a idéia do descompasso da realização de uma sociedade moderna no Brasil em relação aos países europeus ou aos Estados Unidos. Seria, portanto, no processo de constituição de nossa identidade que construiríamos uma “autêntica” cultura nacional. Mas Vianinha se esquece que o movimento de modernização da sociedade brasileira faz com que o nacional e o capitalismo sejam pólos que se integram e se interpenetram. A “autêntica” cultura brasileira, capitalista e moderna, que se configura claramente com a emergência da indústria cultural, é fruto da fase mais avançada do capitalismo brasileiro (conclusão que certamente seria contrária a seus princípios).
Não deixa de ser interessante observar que esse mesmo tipo de pensamento se expressa no nível do senso comum através da idéia de “capitalismo selvagem”. A especificidade brasileira residiria nesta qualidade de “selvageria” que a diferenciaria dos outros tipos de capitalismos. Confesso que a metáfora sempre me pareceu um pouco deslocada, pois, se realmente a levássemos a sério, teríamos que imaginar a existência de um capitalismo sem contradições e injustiças, o que de fato não ocorreu, ou ocorre, inclusive na Europa. Na verdade, esquecemos com freqüência que o Pág 211 velho capitalismo foi construído com base na disciplina forçada do trabalho, na desumanização do trabalhador rural que chegava à cidade, a ponto de as classes dominantes perceberem as classes trabalhadoras como um grupo de “selvagens” perigosos, justamente pelo fato de não estarem ainda integrados plenamente na sociedade que os explorava. Mas os antropólogos sabem que as categorias indígenas de pensamento contêm um elemento de classificação que é significativo no âmbito da sociedade em que florescem. Talvez fosse possível, levando agora a sério o senso comum, dizer que a fase do capitalismo selvagem esteja chegando ao seu final, que ele se domestica (o que não significa que deixaria de lado seu caráter espoliador). Claro, isto não configura ainda a realidade do todo da sociedade brasileira, mas, creio, trata-se de uma tendência forte que procuramos apreender ao considerarmos a problemática cultural. Tenho consciência que a nova ordem social não se expressa como hegemônica, que ela encerra elementos anteriores e diversificados, mas não tenho dúvidas que hoje ela é um “fato social” e não mais simplesmente uma vontade, uma aspiração. A modernização da sociedade brasileira, sua nova posição no concerto das nações, são indícios de que ela passou por um ritual de iniciação (mesmo se incompleto) que consagra uma outra ordem, não religiosa como habitualmente encontramos na literatura antropológica que trata dos rituais, mas secular, racionalizada. Rito de passagem que prescinde das velhas fórmulas de consagração, dispensando a água como elemento simbólico, preferindo a técnica, a energia atômica, o armamento, o mercado, como traços de sua nova personalidade. Nesse caso é sugestivo retomarmos a distinção que Roger Bastide estabelece entre o “sagrado selvagem” e o “sagrado domesticado”.(8.Ver Roger Bastide, Le Sacré Sauvage, Paris, Payot, 1975.). O primeiro seria um tipo de manifestação social explosiva, efervescente, difícil portanto de ser canalizado e contido. O sePág 212 gundo representaria a ordem da instituição, uma vez que controlaria o elemento “utópico” no interior de sua órbita de racionalidade. Poderíamos, então, afirmar que a aproximação de um “capitalismo domesticado” institucionaliza, coloca limites às ilusões de um “passado selvagem” que nele encerrava a efervescência de toda uma sociedade em busca de seu destino. A questão é saber se chegamos a um ponto final da história, ou se é somente agora que se abre para nós a possibilidade da escolha entre civilização ou barbárie; isto, é claro, se outros projetos surgirem, agora críticos e contrapostos à tradição “nova” em que vivemos.

CRB

Surgimento dos meios de comunicação no Brasil:  20 – Surge o rádio com alguma regulação (proibição de publicidade), de cunho educativo (surge em 23 e a primeira regulação vem em 34) 30 – Era Vargas: libera a publicidade; cunho comercial; propriedades cruzadas; programas populares: auditório, divas, “Era de Ouro”; veta participação de estrangeiros no capital das empresas de radiodifusão; o estado explora a radiodifusão e a concessão é dada pelo presidente 40 – Estado Novo: surge o DIP para censura e para construção da imagem do presidente 50 – Na 1ª Redemocratização chega a TV através do maior grupo de mídia do país: Diários Associados (jornais e cadeia de radios), caráter comercial; influenciada por agências de publicidade americanas; concentração Rio e SP;* A TV surge em 50 e a primeira regulação vem em 1962 com CBT (telecomunicações e radiodifusão) onde RTV é serviço público, percentual da programação jornalística e educacional, junta RTV com telefonia. Em 1967 o Decreto 236 limita o número de emissoras para cada proprietário e cria a televisão educativa. 60 – Regime Militar: a expansão da TV através do projeto militar de integrar o Brasil através dos meios de comunicação. A ditadura investe em infra-estrutura de telecomunicações como por exemplo a Embratel;  A TV Globo se fortalece valendo-se da política de segurança nacional e através do sistema de redes de afiliadas se torna o maior grupo de comunicação do Brasil (coronelismo eletrônico). No período militar houve a criação de grandes e poderosos grupos de comunicação. 1988 – Concessões passam pelo Congresso Nacional; surge TV por assinatura 90 – Redemocratização: José Sarney libera a farra das concessões em troca de apoio político; a TV protagoniza eventos políticos como debate do Collor e seu Impeachment; surgimento da internet 97 – Lei 9427: Privatização das telecomunicações; separação de telecomunicações e radiodifusão fechada de radiodifusão aberta; libera empresas estrangeiras em telefonia 2012 – Lei da TV paga: incentivo à produção nacional de conteúdo audiovisual e estímulo à concorrência sem limitação de empresas estrangeiras. CONORELISMO ELETRÔNICO:
Complexa estrutura de poder que envolve o poder público e os chefes locais que influenciam o voto. Os antigos coronéis se transformam em coronéis eletrônicos. Passa da propriedade rural para a propriedade de estações geradoras e retransmissoras/forma de extensão de seus poderes. Este fenômenemo sofre inflexão com a constituição de 88 com a qual os próprios políticos passam a dar concessões para seus pares e para si próprios. Resultado: modelo de outorga de concessões da radiodifusão e a centralidade da mídia na política brasileira, principalmente após o regime militar. O coronelismo eletrônico surge no contexto da ditadura militar com a expansão da rede de infra-estrutura p/ distribuição massiva de programação de redes de TV nacionais. O sistema de integração nacional se materializou através das redes de TV, e se traduz no modelo da Rede Globo. A Globo estabeleceu relação direta com o coronelismo eletrônico. As emissoras de RTV são mantidas por publicidade oficial, articuladas com as redes nacionais dominantes. Este sistema dá origem a um poder de consensos políticos que facilitam (e não garantem) eleições e reeleições. Ao controlar as concessões, o coronel promove a si mesmo e aos seus aliados, e hostiliza os adversários políticos. A moeda de troca é o voto e a recompensa p/ os coronéis é a renovação das concessões. CLIENTELISMO: troca de favores, apoio político/eleitoral que provoca ruptura da autonomia das instituições sociais, mantendo alinhamento da mídia com interesses partidários e/ou familiares. DONOS DA MÍDIA: cabeça-de-rede controle direto de propriedade e veículo de um grupo associado controle indireto de programação. Características do sistema: 1Concentração econômica (vertical – domina a cadeia desde o conteúdo até a distribuição / horizontal – domina o segmento de mercado / diagonal – propriedades cruzadas) 2 Controle da distribuição 3 Penetração regional 4 Presença histórica 5 Relações políticas. Características do mercado mundial: Mercado mundial unificado para dominar, tecnologias da informação e comunicação ( satélites, fibra ótica, internet, telefonia móvel, TV por assinatura) virtualidade e velocidade em um espaço-mundo feito de redes e fluxos. Fronteiras nacionais e locais fracos. IDENTIDADE mundo moderno/pós-moderno – territorial/desterritorializado – monolinguístico/multilinguístico – sociedades se consolidaram subrodinando regiões e etnias em um espaço chamado nação/sociedades se estruturaram pela lógica do mercado e não dos Estados – políticas de homogeinização cultural/fragmentação cultural (perde referências pq tem muitas influências) opera por meio da produção cultural. MUNDIALIZAÇÃO CULTURAL processo localizado, enraizado nas práticas cotidianas, profundas mudanças no trabalho, na comida, no lazer, descentralização concentradora de poder (influência descentralizada), desenraizamento (hibridação das culturas abrir mão de algumas coisas da sua cultura e incorpora coisas de outras culturas; cidadania mundial: Green pace/causas mundiais que não estão ligadas a um território. ECONOMIA DA INFORMAÇÃO: informação é o elemento central da economia; o setor que produz informação e comunicação é força motriz em relação ao setor industrial; 3º setor nos EUA; informação e comunicação são principais recursos p/ o desen. econômico. SISTEMA DE MÍDIA GLOBAL: formado por conglomerados de comunicação presentes em todo o planeta. Rápida expansão nos mercados estrangeiros; concentração (7 grandes conglomerados lobais).Bases desse sistema: desregulamentação nacional da mídia em importantes nações (EUA. Inglaterra); NAFTA e OMC limparam o terreno para investimento e vendas de empresa multinacionais em mercados regionais e globais; economia de escala: importante para este setor. MCM NO MUNDO:
EUROPA OCIDENTAL: tradição do serviço público audiovisual, MCM públicos tem muita presença EUA: sistema comercial com forte regulação, existe MCM públicos. EUROPA ORIENTAL: meios estatais em regime de monopólio (sem liberdade de expansão) até 1990. AMÉRICA LATINA: híbrido modelo americano: arquétipo hipercomercial; escassa regulação estatal; quase sem presença de MCM públicos; caciquismo político. Na América latina isso se deu pelas ditaduras e mesmo depois da redemocratização evitou-se a regulação excessiva do estado pois haviam acabado de sair de uma ditadura. CENÁRIO ATUAL BRASIL: concentração – poucos e grandes grupos dominam a comunicação; legislação ultrapassada da radiodifusão (rádios e TVs) que detêm a maior audiência do país; uso político: concessões em troca de favores políticos e geradoras e retransmissoras na mãos dos políticos; legislação fragmentada, que vai contra a tendência de convergência; projeto da lei geral de comunicação eletrônica; 20 anos de debate sobre a redemocratização da comunicação. LEI DA MÍDIA DEMOCRÁTICA: iniciativa popular; FNDC; regular artigos 5, 21, 221, 222 e 223 CF que garantem pluralidade, diversidade e impedem concentração. Regula a comunicação social eletrônica (RTV e IPTV). Estabelece princípios e objetivos: liberdade de expressão; acesso a informação, pluralidade, cultura nacional. Reconhece 3 sistemas a receber outorgas: público, privado e estatal. Veda a distribuição e a produção de conteúdo nas mãos da mesma empresa. Órgão reguladores p/ dar concessões: ANATEL, ANCINE, CONGRESSO (aprecia). Proibe controle dos MCM por parte de políticos (parentes de 1° grau), igrejas, instituições religiosas. Define regras p/ impedir monopólios: mesmo grupo donos de muitas empresas de com. na mesma localidade. Criar Conselho Nacional de Políticas da Comunicação. REGULAÇÃO NOVAS TECNOLOGIAS: maior adversário das redes nacionais de TV: digitalização do setor de telecomunicações e de mídia em nível mundial.  Entram em cena no país grandes conglomerados de comunicação e telecomunicação. Tendências: maior concentração do mercado mundial, grandes conglomerados com ganhos de escala e sinergia das mídias. Novas tecnologias: multiplicidade de oferta e circulação de informação acelerada. Intervenção no Estado para conciliar pluralidade com inovação tecnológica, social e econômica, interesse público e privado. QUESTÃO REGULAÇÃO: ambiente de fácil acesso e compartilhamento de conteúdo X proteção da propriedade intelectual por parte dos autores e da industria cultural / ambiente que estimula criatividade, interatividade e participaçãp X garantia de privacidade / livre acesso a qualquer conteúdo (neutralidade da rede) X controle de acesso LEI DIREITOS AUTORAIS: a sociedade civil exige flexibilização da lei de copyrigth no mundo devido aos usos sociais que foram se consolidadndo e disseminando com as novas tecnologias. A internet diminui a necessidade das indústrias intermediárias. O endurecomento da lei tem sido um resposta à internet, porém não surte efeito no contexto maior da pirataria. DIREITOS AUTORAIS NO BRASIL: uma das mais restritivas do mundo, 1998. Nova lei: em fase inicial de redação (Minc/Justiça/Casa Civil) “Fair use” (uso justo) lei atual não permite, mas está sendo revisto. O Remix é legalizado desde que a reprodução não seja objetivo. P2P (compartilhamento) nem na atual, nem na próxima. Domínio público acontece com 70 anos após a morte do autor. Lei atual não permite reproduzir obras fora de circulação. MARCO CIVIL DA INTERNET: projeto de lei que estabelece princípios, direitos e deveres para o uso da internet (usuários, provedores de conexão e de conteúdo). Principal motivo é a inconsistência jurídica. Iniciativa da sociedade civil: a partir de 2009.Questões:  privacidade (inviolabilidade da vida íntima e privada) Os prestadores do serviço de internet não podem fornecer dados pessoais a terceiros a não ser com consentimento. NEUTRALIDADE DA REDE: significa que todas as informações que trafegam na rede devem ser tratadas da mesma forma, navegando a mesma velocidade. É esse princípio que garante o livre acesso a qualquer tipo de informação na rede. É a democracia na rede, permitindo assim acesso igualitário de informações a todos, sem quaisquer interferências no tráfego online.

Casa Grande & Senzala – Gilberto Freyre – FAMÍLIA PATRIARCAL: família baseada na autoridade do senhor que era dono da família e dos escravos, havia uma espécie de “mini sociedade na casa grande”. Esta é a base da sociedade brasileira, que vai influenciar nossa organização social e política. Temos uma sociedade que se baseia nas relações afetivas, levando para o lado pessoal, tendo dificuldade de obedecer  leis, ou seja, inclinada a burlar as leis. PRINCIPAL CRÍTICA À OBRA: cristaliza a ideologia da cultura brasileira de convivência harmônica das raças que aqui se cruzaram – base para a teoria da DEMOCRACIA RACIAL brasileira Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda PERSONALISMO: culto da persona, o homem é o centro do mundo e não depende de outro. O homem pensa em si mesmo, na família e nos amigos antes de pensar na coletividade. Esta característica gera falta de coesão social que é a dificuldade de se estabelecer associações solidárias, frouxidão das instituições e repulsa à hierarquia com tendência anarquista. VIDA RURAL: marca da sociedade brasileira. Dicotomia básica: rural x urbano / arcaico x moderno – no Brasil rural/arcaico a sociedade depende do trabalho escravo, o dono da terra a habitava. A abolição da escravidão, a expansão do café e o uso de mão-de-obra remunerada modernizam a sociedade com o desenvolvimento das cidades. A aristocracia rural se muda para a cidade, mas com sua mentalidade arcaica. Essa mentalidade caracteriza nossa sociedade que se baseia na defesa de pessoas e não de idéias, havendo predominância da idéia de família. A entidade privada precede a pública, o individual é superior ao coletivo. SOCIEDADE PATRIARCAL: invasão do publico pelo privado, do Estado pela família. Estado como ampliação do círculo familiar. A sociedade é um prolongamento da comunidade doméstica. PATRIMONIALISMO: uso de funções públicas para interesses particulares, atua no patrimônio público como se fosse dono (servidor público)O personalismo e patriarcalismo estão presentes na nossa vida social e política até hoje, isso gera dificuldade com as leis impessoais, as leis não são aceitas como iguais para todos. Para ROBERTO DAMATA surgem a partir dessa característica: “jeitinho brasileiro” que é facilitar as coisas ou burlar leis usando do poder de outras pessoas conhecidas e o “você sabe com quem está falando” que é o simétrico contrário que usa o próprio poder para facilitar as coisas ou burlar as leis. O Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro BRASIL ARCAICO X BRASIL MODERNO: O cidadão, homem comum, tinha cultura primitiva arcaica era o chamado “tábua rasa”, mas estava aberto para as novidades e para as inovações (moderno).As classes dominantes estavam presas ao modelo de exploração de mão-de-obra (escravidão), sua articulação com o mercado mundial era atrasada e tinham resistência às mudanças necessárias para a evolução do país. O arcaico é nosso jeito de ser e se organizar socialmente, raízes na herança rural, sociedade patriarcalista (ligada a família, senhor/homem como provedor). Nosso modelo de sociedade é com base na afetividade, nossa relação com a sociedade tem um problema com compadrio, amizade, lado relacional. O que faz do brasil, o Brasil? – Roberto daMatta MITO DA DEMOCRACIA RACIAL: formade esconder a profunda injustiça social contra negros, índios e mulatos. Racismo à brasileira: tolera a injustiça.O termo denota a crença de que o Brasil escapou do racismo e da discriminação racial vista em outros países, mais especificamente, como nos Estados Unidos. Pesquisadores notam que a maioria dos brasileiros não se veem pelas lentes da discriminação racial, e não prejudicam ou promovem pessoas baseadas na raça. Graças a isso, enquanto a mobilidade social dos brasileiros pode ser reduzida por vários fatores, como sexo e classe social, a discriminação racial seria considerada irrelevante.O embranquecimento, ou ideal do branqueamento, entendido como um projeto nacional implementado por meio da miscigenação seletiva e políticas de povoamento e imigração européia. E a concepção desenvolvida por elites políticas e intelectuais a respeito de seus próprios países, supostamente caracterizados pela harmonia e tolerância racial e a ausência de preconceito e discriminação racial. MODO DE NAVEGAÇÃO SOCIAL: Malandragem, “jeitinho brasileiro” e “Sabe com quem está falando?”. Não enfrentamos a lei com rejeição frontal, preferimos burlar. Sociedade hierarquizada: pessoas; leis particulares; falta de coerência entre prática e regras/normas; não confia em leis; leis são para proibir, coibir; leis a partir de privilégios Sociedade igualitária: indivíduos;leis impessoais; coerência entre prática e mundo jurídico; confia nas leis; leis fazem a sociedade funcionar melhor; aplicação segura da lei.

 

Do popular-nacional ao internacional-popular?

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira
Quando no final do século passado Sílvio Romero procurava compreender o “atraso do povo brasileiro”, de uma certa forma ele estava inaugurando toda uma corrente de pensamento que buscava entender a questão da identidade nacional na sua alteridade com o exterior. É claro, sua interpretação do Brasil se fundamentava na ideologia da época, para a qual o conceito de raça e de clima eram essenciais. O homem brasileiro seria o produto da aclimatação da raça européia no solo brasileiro, de sua miscigenação com as raças “menos evoluídas”, o negro e o índio. Mas a conclusão de seus estudos, guardadas essas limitações, que são consideráveis, era clara: “O Brasil não deve ser cópia da antiga metrópole”.(1.Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira, op. cit. p. 81. Uma crítica recente sobre a noção de cópia pode ser encontrada em Roberto Schwarz, Nacional por Subtração, in Tradição e Contradição. Rio de Janeiro, Zahar/FUNARTE, 1987.). Essa idéia de cópia tem orientado inúmeros debates sobre a problemática da cultura brasileira. É dentro dessa perspectiva que Euclides da Cunha considerava, por exemplo, a superioridade do mestiço do interior em relação ao do litoral, uma vez que este último, por causa do fácil contato com o colonizador, estaria mais influenciado por ele, favorecendo assim o processo de imitação de sua cultura de origem. Sabemos hoje que a discussão sobre a “autenticidade” do nacional, e portanto da identidade, é na verdade uma construção simbólica, uma referência em relação à qual se discutem diversos problemas. Na verdade não existe uma única identidade, mas uma história da “ideologia da cultura brasileira”, que varia ao longo dos anos e segundo os interesses políticos dos grupos que a elaboram. As categorias do pensamento isebiano estão certamente distantes daquelas utilizadas pelos pensadores do século XIX, mas elas contemplam a mesma inquietação, a busca de um destino nacional. Corbisier dirá, por exemplo, que “assim como no plano econômico, a colônia exporta matéria-prima, e importa produto acabado, no plano cultural, a colônia é material etnográfico que vive da importação do produto cultural fabricado no exterior. Importar o produto acabado é importar o Ser, a forma que encarna e reflete a cosmovisão daqueles que a produziram. Ao importar o cadillac, o chicletes, a Coca-Cola e o cinema, não importamos apenas objetos e mercadorias, mas também todo um complexo de valores e de condutas que se acham implicados nesses produtos”.(2.Roland Corbisier, Formação e Problema da Cultura Brasileira, Rio de Janeiro, ISEB, 1958, p. 69.). Citação paradigmática, que se tornou senso comum e que pode ser encontrada entre os inúmeros autores que trataram da questão. Não me interessa tanto, no momento, criticar esta visão do nacional, mas sublinhar a existência deste “itinerário intelectual coletivo”, que implica numa obsessão, evidentemente com fundamento social, em se criar uma imagem na contraposição com o outro. A busca de uma identidade nacional se insere na trama da história brasileira na sua relação com o mundo exterior. Sílvio Romero tinha claro essa dimensão quando afirmava que “todo problema histórico e literário há de ter no Brasil duas faces principais: uma geral e outra particular, uma influenciada pelo momento europeu e outra pelo meio nacional, uma que deve atender ao que vai pelo grande mundo, e outra que deve verificar o que pode ser aplicado ao nosso pais”.(3.Sílvio Romero, op. cit., p. 45.). Na verdade, as formas de se conceber esse relacionamento com “o que vai pelo grande mundo” variaram: cópia, colonialismo cultural, imperialismo, dependência. Mas a motivação de base permaneceu, a importância de se compreender a sociedade brasileira na sua especificidade e na sua alteridade.
Não se deve pensar que essa necessidade de se construir uma identidade seja exclusiva ao Brasil; ela é, na verdade, uma imposição estrutural aos países que ocupam uma posição periférica dentro da organização mundial das nações. Manuel Bonfim, quando escrevia na virada do século, compreendia que a situação brasileira só fazia sentido quando integrada dentro dos “males da América Latina”. Sua teoria do parasitismo colonial, por mais incongruente que nos pareça hoje, era uma tentativa de compreender o processo de exploração das colônias espanholas e portuguesas.(4.Manuel Bonfim, América Latina: Males de Origem, Rio de Janeiro, Editora S. A. A Noite, s.d.). Essa importância em se diagnosticar e em reagir ao atraso dos países periféricos se desdobra em vários planos. Econômico, onde a noção de desenvolvimento se torna central para os economistas da CEPAL, que buscam uma “originalidade da cópia” nas teorias que produzem.(5.Ver Fernando Henrique Cardoso, As Idéias e Seu Lugar: Ensaios sobre as Teorias do Desenvolvimento, Petrópolis, Vozes, 1980.). Político, pois como observa Octávio Ianni, “toda revolução latino-americana do século XIX apresenta um traço antiimperialista. A revolução pode ser burguesa ou popular, o traço pode ser débil ou ambíguo. Em todos os casos está presente o antiimperialismo. Desde a revolução mexicana, iniciada em 1910, até a salvadorenha, que se acha em marcha, todas apresentam este traço”.(6.Octávio Ianni, Classe e Nação, Petrópolis, Vozes, 1986.). Cultural, marcando a produção de movimentos artísticos como o dos muralistas mexicanos, os modernistas brasileiros, o realismo mágico, ou o arielismo que opunha o “gênio da raça latina” à influência estrangeira. Como mostra muito bem Jean Franco, todos esses movimentos se associam de alguma forma a uma “identidade nacional ainda em processo de definição”.(7.Jean Franco, The Modern Culture of Latin America, Middlesex, Inglaterra, Penguin Books, 1967.). Da mesma forma que nos referimos a uma história da identidade brasileira, creio que é possível falarmos de uma história da identidade latino-americana, que certamente revelaria não somente os momentos de luta contra as potências estrangeiras, mas também os dilemas e os impasses que rondam a questão nacional. Desde a ambigüidade que caracteriza a discussão sobre classe versus nação, até a equívocos que levaram muitos escritores a pensar o continente hispânico-português como um bloco indiferenciado, esquecendo-se que o próprio conceito de “latinidade” da América Latina foi cunhado pelos franceses em meados do século passado, no momento em que Napoleão III procurava erigir a hegemonia dos povos latinos sob a bandeira do império francês.(8.Sobre a noção de latinidade da América Latina, ver Guy Martinière, L’Invention d’un Concept Opératoire: la Latinité de l’Amérique”, in Aspects de la Coopération Franco- Brésilienne, Grenoble, PUF-Grenoble, 1982.).
Dificilmente a literatura sobre a indústria cultural e os meios de comunicação de massa poderia fugir deste quadro mais amplo, que compreende a questão cultural como um confronto entre o nacional e o estrangeiro. Se é possível discernir um traço marcante nos estudos realizados sobre o tema, este certamente diz respeito à dependência cultural. Os meios de comunicação aparecem, desta forma, como um processo de dominação que reforça a posição dos países centrais. Dentro desses estudos, é possível descobrir duas vertentes. Uma primeira, que privilegia a análise dos conglomerados transnacionais que operam a partir dos países centrais, mostrando como a nível mundial o processo de comunicação é unilateral e se distribui segundo interesses políticos e econômicos. O livro de Herbert Schiller sobre o império norte-americano na área das telecomunicações é, neste sentido, pioneiro.(9.Herbert Schiller, Mass Communications and American Empire, Boston, Beacon Press, 1969.). Ele mostra como o monopólio na esfera da informação está vinculado a interesses comerciaise militares dos Estados Unidos, fundamentos que servem de base para sua expansão no resto do mundo. A análise de Y. Eudes sobre o expansionismo cultural dos Estados Unidos a nível mundial é também interessante na medida em que desvenda as razões de Estado que orientam a política americana.(10.Y. Eudes, La Colonización de las Conciencias, Barcelona, Gustavo Gili, 1984.). Dentro da mesma linha podemos apontar os trabalhos realizados por Tapio Varis e Nordestreng, que no início da década de 70 puderam pela primeira vez, a partir de um levantamento quantitativo, estudar o fluxo de programas de televisão em escala mundial.(11.Tapio Varis e K. Nordenstreng, “Television Traffic: a One-Way Street?”, Reports and Papers on Mass Communication. Nº 70, Paris, UNESCO, 1974. Ver ainda Armand e Michèle Mattelart, Cultura contra Democracia?, São Paulo, Brasiliense, 1987.). O resultado da pesquisa mostrou de maneira inequívoca que a idéia de um “livre fluxo de informação”, que orientava as premissas da UNESCO, era na verdade uma ideologia que de fato escondia uma realidade de desequilíbrio mundial, na qual os países periféricos apareciam como meros consumidores de programas realizados em poucos centros (Estados Unidos, Inglaterra, e em menor escala França e Alemanha). Estudos mais recentes têm contribuído para o conhecimento da atuação das multinacionais dos audiovisuais, assim como da distribuição mundial de artigos culturais, como filmes, programas de televisão e discos.(12.Ver P. Flichy, Las Multinacionales del Audiovisual, Barcelona, Gustavo Gili, 1982.). Esses trabalhos não visam diretamente a América Latina, mas são importantes na medida em que nos permitem ter uma visão internacional da problemática cultural, além de tecerem uma crítica consistente ao processo de monopólio e de manipulação que os países centrais, e as transnacionais, exercem no jogo de interesses internacionais.
A segunda vertente focaliza particularmente o impacto do imperialismo cultural na América Latina, e procura entender como os meios de comunicação evoluem numa situação de dependência. São estudos que têm se preocupado desde a organização econômica e política das multinacionais da cultura até os aspectos de dominação ideológica veiculados no interior do próprio produto cultural, como no caso das revistas em quadrinhos “importadas” dos países centrais.(13.Ver Ariel Dorfman e Armand Mattelart, Para Ler o Pato Donald, Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1980.).
Há vários trabalhos bastante representativos desta tendência, que se desdobra em estudos mais locais como os de Luiz Ramiro Beltrán e Elizabeth Fox de Cardona, quando analisam as influências norte-americanas na televisão colombiana.(14.Luiz Beltrán e Elizabeth Fox de Cardona, Comunicação Dominada: os Estados Unidos e os Meios de Comunicação da América Latina, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.). Dentro desse quadro teórico, foram feitos vários estudos no Brasil como, por exemplo, a tentativa de Sérgio Caparelli, fundamentada na teoria da dependência, de se compreender a relação entre capitalismo e televisão.(15.Sérgio Caparelli. Televisão e Capitalismo no Brasil. op. cit. na mesma linha, José Marques de Melo. “A Televisão como Instrumento do Neocolonialismo: Evidências do Caso Brasileiro”, in Alfredo Bosi (org.), Cultura Brasileira, São Paulo, Ática, 1987.). São análises que têm como eixo central a problemática do “colonialismo cultural”, da “alienação” dos meios de comunicação nacional diante da dominação estrangeira, e que recuperam a antiga oposição entre colonizador/colonizado, só que agora levando em consideração uma nova tendência teórica que surge na América Latina no início dos anos 70: a teoria da dependência.
Ingrid Sarti, fazendo o balanço desta literatura sobre os meios de comunicação afirma que “a interpretação da teoria da dependência que serve de fundamento à noção de dependência cultural, mostra-se tão simplista que difícil será não perceber na filial um retrocesso em relação à matriz”.(16.Ingrid Sarti, “Comunicação e Dependência: um Equívoco”, in Jorge Werthein (org.), Meios de Comunicação: Realidade e Mito. São Paulo, Cia. Ed. Nacional. 1979, p. 241.). O julgamento é severo, mas não é fácil discordar da autora. De fato, é incompreensível que os autores na área da comunicação sequer tenham levado em consideração as críticas levantadas pelos teóricos e adversários da teoria da dependência. Tudo se passa como se as antigas preocupações sobre a relação entre nacional/estrangeiro, que já haviam sido abordadas de forma diferenciada por vários autores, pudessem ser equacionadas segundo uma “teoria” mais convincente, devido a sua modernidade”. Na verdade, a idéia de dependência cultural se confunde com os velhos argumentos da discussão sobre o colonialismo, da identidade perdida no Ser do outro. Isso faz com que certos questionamentos, que já tinham sido colocados, sejam omitidos do debate, havendo um retrocesso da discussão que retorna ao patamar dos pensadores isebianos sobre a questão nacional. Uma primeira crítica consistente em relação à teoria da dependência foi formulada por Francisco Weffort, que chama a atenção para o fato de que os estudos sobre a dependência oscilavam entre dois conceitos, classe e nação, privilegiando no final uma abordagem do tipo nacionalista radical.(17.Ver F. Weffort, ‘Nota sobre a Teoria da Dependência: Teoria de Classe ou Ideologia Nacional?, Estudos CEBRAP, nº 1, 1971). Perspectiva na qual os conflitos sociais adquirem uma coloração globalizante diluindo os antagonismos de classe, que se encontram subsumidos a categorias mais genéricas como “autonomia nacional”. Na verdade, o questionamento de Weffort retoma a tradição que procura discutir a questão nacional na sua relação com as classes sociais. O tema é clássico, já tendo sido abordado por Kautsky, Otto Bauer, Lenin, Rosa de Luxemburgo, Franz Fanon.(18.A literatura sobre a questão nacional é imensa, ver Leopoldo Marmora (org.), La Internacional y el Problema Nacional. 2 vols., México, Cuadernas Pasado y Presente, 1978; Maxime Rodinson, Sobre la Cuestion Nacional, Barcelona, Anagrama, 1975.). Nos países do Terceiro Mundo, particularmente na América Latina, onde o processo de construção nacional sempre esteve nas mãos da classe dominante, floresceu uma visão que no limite tendia a eliminar as contradições sociais. Não é por acaso que a crítica à teoria da dependência é análoga à que vários autores fizeram, por exemplo, ao pensamento do ISEB, para o qual a oposição fundamental da sociedade se resumia ao antagonismo entre nação e antinação.(19.Sobre a
relação classe/nação no pensamento isebiano, consultar Caio Navarro de Toledo, O ISEB: Fábrica de Ideologias, op. cit.).
Uma outra crítica, que nos interessa particularmente, deriva da própria dificuldade em se interpretar o desenvolvimento do capitalismo nas sociedades periféricas. Fernando Henrique Cardoso aponta, entre os dependentistas, para a presença de duas linhas de pensamento: “Existem os que crêem que o capitalismo dependente baseia-se na superexploração do trabalho, é incapaz de ampliar o mercado interno, gera incessante desemprego e marginalidade e apresenta tendência à estagnação; existem os que pensam que, pelo menos em alguns países da periferia, a penetração do capital industrial-financeiro acelera a produção da mais-valia relativa, intensifica as forças produtivas e, se gera desemprego nas fases de contração econômica, absorve mão-de-obra nos ciclos expansivos, produzindo, neste aspecto, um efeito similar ao do capitalismo nas economias avançadas”.(20.Fernando Henrique Cardoso, “O Consumo da Teoria da Dependência nos Estados Unidos”, in As Idéias e seu Lugar, op. cit., p. 105; ver ainda do mesmo autor, Notas sobre Estado e Dependência”, Cadernos CEBRAP, nº 11, 1975.). Segundo o autor, a primeira tendência vincula a dependência à reprodução do subdesenvolvimento, enquanto que a outra vislumbra a possibilidade de desenvolvimento dentro do quadro de dependência. Os trabalhos sobre a dependência cultural parecem favorecer o primeiro tipo de interpretação. Muitos deles chegam a ter uma visão tão simplista do problema que se torna impossível entender o advento do capitalismo e da sociedade moderna na periferia, a não ser considerando-os como elementos exógenos impostos pelas forças internacionais. A título de exemplo, cito um desses inúmeros textos que trataram o problema, a meu ver de maneira apressada: “A hipótese central de nosso trabalho é que a rádio como um antecedente, e depois a televisão como uma continuidade, implantam-se e expandem-se no Brasil, por meio de mecanismos de manipulação e dominação colonialista, através de um complexo sistema econômico e ideológico organizado por países dominantes, em especial os Estados Unidos”.(21.Carlos Rodolfo Améndola Ávila, A Teleinvasão: a Participação Estrangeira na Televisão do Brasil. São Paulo, Cortez, 1982, p. 14.). A argumentação é enunciadacomo se o desenvolvimento da indústria cultural encontrasse sua razão de ser fora do eixo do capitalismo brasileiro. Por isso é muito comum encontrarmos na literatura sobre os meios de comunicação a idéia de que a sociedade de mercado constituiria, na verdade, uma “ideologia do consumo”, e não um desenvolvimento real das forças produtivas, se apresentando como algo externo que é introduzido junto às massas pelas multinacionais e pelas técnicas de marketing. Teríamos, nesse sentido, a formação de uma cultura popular de massa induzida, na qual a indústria da cultura seria, na verdade, um atavismo em relação ao curso natural da história latino-americana.
Alguns autores têm apontado para as insuficiências dos estudos sobre a dependência cultural. Nestor García Canclini, analisando a relação entre as transnacionais e as culturas populares no México, observa que “os esquemas conceituais dos anos sessenta e setenta sobre o imperialismo cultural resultam pouco úteis para entender e atuar hoje frente às relações do poder”.(22.Nestor García Canclini, “Cultura Transnacional y Culturas Populares en Mexico”, Cuadernos Hispanoamericanos, Nº 431, maio de 1986, p. 5.). Dentro de nossa argumentação, dificilmente poderíamos trabalhar a partir dessa oposição entre o nacional e o estrangeiro, pois o que nos interessa é justamente o que é negado nessas teorias, o advento da sociedade moderna. No entanto, os diversos estudos sobre a problemática cultural latino-americana têm o mérito de nos situar dentro de um quadro mais amplo. Sem negar a realidade internacional, que sem dúvida é discriminatória em relação aos países periféricos, mas também esquivando-se das armadilhas que nos encerram a literatura sobre o “colonialismo cultural”, penso que é possível considerar a problemática da cultura brasileira dentro de outro ponto de vista. Retomando a pergunta levantada no capítulo anterior, eu a estenderia para o seu lado externo. Em que medida o advento de uma sociedade moderna no Brasil recoloca a questão nacional/estrangeiro? Gostaria de encaminhar minha reflexão tomando como referência os dois momentos que diferenciamos ao longo da história brasileira: o período de precariedade, e a fase de consolidação de uma cultura popular de massa.
O que chama a atenção, quando se focaliza o período de incipiência da moderna sociedade brasileira, é a forte presença estrangeira. Realidade que decorre num primeiro momento da fragilidade das instituições existentes, tornando necessária a importação de quadros e de conhecimentos gerados fora do pais. E o caso, por exemplo, da formação das universidades, que procuram desenvolver um padrão de ensino distinto do passado bacharelesco das faculdades de direito e das escolas de medicina. Tanto a Universidade do Distrito Federal (1935), dissolvida alguns anos depois, a Universidade de São Paulo (1934), a Faculdade Nacional de Filosofia – RJ (1939), têm que contar com professores franceses e italianos para se constituírem em espaços autônomos de produção acadêmica.(23.Sobre o projeto universitário no Rio de Janeiro, ver Simon Schwartzman, Tempos de Capanema. op. cit.; em relação à USP, consultar Irene Cardoso, A Universidade da Comunhão Paulista, São Paulo, Cortez, 1982.). No entanto, por mais que se possa falar da importância das missões universitárias francesas, no Rio de Janeiro e em São Paulo, ou ainda sublinharmos uma vontade colonialista da França, é difícil concebermos neste momento a existência pura e simples de um “imperialismo” francês entre nós, pois falta a ele uma base econômica e política. É verdade que é sempre possível nos referirmos à ascendência da cultura francesa, que se consolida sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, com a criação da Escola Politécnica em São Paulo, a Escola de Minas em Ouro Preto, o positivismo de Auguste Conte, a sedução pelos modelos da Belle Époque que inspiraram inclusive a remodelação da cidade do Rio de Janeiro. Ainda no início do século XX, o barão d’Anthouard exprimia os princípios da latinidade francesa em relação ao Brasil nos seguintes termos: “A alma brasileira é antes de tudo latina; sobre o fundo português, os espanhóis e os italianos depositaram um aluvião mais ou menos espesso. A essas influências étnicas, a cultura francesa veio se juntar, apressando a mistura. Sua ação aparece em todos os domínios da inteligência. Os Estados Unidos da América do Norte serviram igualmente de guia e de modelo, mas, examinando de perto, este papel parece se reduzir às questões políticas e industriais. Em todos os lugares, as influências hereditárias da Europa meridional suplantaram esses empréstimos anglo- saxões, como se efetivamente eles não se adaptassem ao meio brasileiro”.(24.Citação in Guy Martinière. Aspects de la Coopération Franco-Brésilienne, op. cit., pp. 49-50.). Prognóstico que certamente não se verificou, uma vez que essa ascendência espiritual se torna ineficaz, sobretudo com o agravamento de questões “menores”, como o declínio dos investimentos franceses no Brasil. Para se ter uma idéia da diminuição deste predomínio, basta tomarmos os dados relativos à importação de livros de língua francesa. Em 1910, o valor dessas importações era de $ 404.856, perfazendo 52,4% sobre o total de livros de todos os países; em 1939, ele cai para $ 44.323, representando somente 8,6% do total. (25.Laurence Hallewell, O Livro no Brasil, op. cit., p. 328.). Portanto, uma presença estrangeira que revela mais a fragilidade da sociedade moderna brasileira, o que faz com que ela seja, de uma certa forma, regulada por uma demanda interna. O exemplo da Universidade de São Paulo é sugestivo, ele mostra como as elites paulistas buscaram a legitimidade da ciência européia para construir um projeto cultural próprio, contraposto às forças centralizadoras do Estado Novo. Podemos ainda descobrir a realidade de outras influências em atividades da cultura popular de massa, como as radionovelas latino- americanas ou a fotonovela italiana, que funcionavam como padrão para a exploração do mercado afetivo feminino. Na verdade, esse momento de precariedade da sociedade brasileira favorece a assimilação de contribuições variadas, que são tomadas como referência, mas certamente não se constituem exclusivamente em elementos de “alienação” nacional.
Presença que se configura, também, dentro do quadro do expansionismo americano que fortalece sua política de dominação. Já no início dos anos 40, o CIAA (Coordinator of International American Affairs) estabelece um acordo com Hollywood, enviando artistas e diretores americanos à América Latina para promover os laços com a “boa vizinhança” do governo dos Estados Unidos.(26.Uma forma interessante de se perceber esta aliança entre o governo americano e Hollywood é lendo a biografia de Walt Disney. Ver Bob Thomas, Walt Disney: an American Original, Nova Iorque, Pocket Books, 1976.). Coordenado por Nelson Rockefeller, esta agência consegue do Departamento do Tesouro um decreto liberando as companhias americanas do imposto relativo ao custo da publicidade transmitida pelos países latino- americanos, desde, é claro, que aceitassem passar pela CIAA.(27.Ver Y. Eudes, La Colonización de las Conciencias, op. cit.). Esses recursos, controlados pelo governo federal, eram distribuídos seletivamente entre os meios de comunicação “confiáveis”, espalhados pelo continente. Com o término da Segunda Guerra Mundial, o expansionismo americano se torna mais agressivo, na medida em que o pais assume uma posição de liderança a nível internacional. Nas diferentes áreas culturais, livros, discos, publicidade, filmes, observa-se um crescimento notável do predomínio americano.(28.As importações de livros provenientes dos Estados Unidos passam de: 1910 — 2,4%; 1939 — 23,2%; 1964 — 57,6% do total de material importado. Ver Hallewell, op. cit., pp. 400-401.). Fenômenos que contrariamente à política francesa, que se contentava com as “coisas espirituais”, se estende para a esfera política e econômica. No contexto da América Latina, o Brasil não se diferenciava dos outros países, onde a interferência norte-americana se fazia sentir sem maiores nuanças. Está bem documentada toda essa história de agressão — projeto Camelot, CPI do IBAD (Instituto Brasileiro para Ação Democrática), multinacionais, golpe de 64 — desvendando as várias formas utilizadas para se garantir e ampliar um processo de hegemonia.(29.Ver Moniz Bandeira, O Governo João Goulart, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.).
Ao se passar, porém, da fase incipiente para a da consolidação do mercado, observa- se um progressivo momento de autonomização na esfera da cultura brasileira. É claro que o ritmo e a extensão desse movimento não é idêntico para todas as áreas, mas trata- se de uma tendência que se reforça e abrange diversos setores da indústria cultural. Embora não se possa dizer que no caso do cinema as dificuldades de implantação do filme brasileiro tenham sido superadas, a concorrência do filme estrangeiro é real; não é menos verdade que a década de 70 assiste a um crescimento substancial da cinematografia nacional. Em 1971, os filmes brasileiros ocupavam somente 13,9% do mercado, número que sobe para 35% em 1982.(30.Dados da EMBRAFILME. Uma avaliação do cinema brasileiro na década de 70 pode ser encontrada em José Mário Ortiz Ramos, “Os Dias de Hoje: Anos 70/80”, in História do Cinema Brasileiro (no prelo).). Os dados para os diferentes ramos da produção cultural confirmam essa tendência. A proporção de livros de autores nacionais no conjunto da produção editorial passou de 54,3%, em 1973, para 70,1%, em 1981; a de discos e cassetes de música popular brasileira passou de 63%, em 1977, para 69,5%, em 1980, enquanto que a música internacional baixou de 35,4% para 28,9%, (31.Sérgio Miceli, “Entre no Ar em Belíndia”, Cadernos IFCH, UNICAMP, outubro de 1984.). No caso da indústria do disco é interessante sublinhar ainda um recuo das multinacionais diante do avanço de novas gravadoras no mercado brasileiro. Mas mesmo no caso da presença dessas multinacionais, não se deve perder de vista que as grandes empresas transnacionais operam na área do disco de forma diferenciada em relação à indústria internacional dos filmes ou da televisão. Um autor marxista, como Patrice Flichy, sugestivamente as considera como “multinacionais discretas”, isto porque elas atuam na periferia através de filiais cuja função é produzir discos com os cantores locais. Ele observa que contrariamente ao cinema, que vem marcado pela sua produção de origem (cenários, idioma, atores), “a atividade musical tem um forte componente nacional. Nos países latino- americanos principalmente, praticamente a totalidade da venda de discos de variedades se realiza com cantores locais”.(32.P. Flichy. op. cit., p. 198.). Processo que certamente valoriza o elemento nacional a ser colocado no mercado, muito embora ele seja produzido e comercializado pelas multinacionais.
Uma maneira de avaliarmos a importância da indústria cultural nacional é considerarmos algumas de suas atividades “de ponta”, inserindo-as no contexto internacional. Nesse sentido o exemplo da publicidade é interessante, uma vez que se trata de um ramo cuja função principal é estimular o hábito de consumo nas sociedades capitalistas modernas. Herbert Schiller observa que a expansão das fábricas norte- americanas no exterior explicam em grande medida a projeção da publicidade americana no mundo.(33.H. Schiller, “La Comunicación Sigue al Capital”, in La Television: entre Servicio Público y Negocio, op. cit.). Essas fábricas, ao se deslocarem para fora dos Estados Unidos, davam suas contas às agências norte-americanas, o que pouco a pouco implicou o domínio da área publicitária. Não é difícil perceber como os investimentos na esfera da propaganda evoluíram ao longo dos anos. Alguns estudos mostram que entre 1915 e 1959 haviam 50 filiais de agências americanas espalhadas no mundo; entre 1960 e 1971 este número sobe para 210, o que significa que o processo de expansão é, sobretudo, um fenômeno dos anos 60. Deste quadro se pode tirar algumas implicações importantes: primeiro, ele aponta para um crescimento dos gastos de publicidade fora dos Estados Unidos; segundo, indica um monopólio por parte dos americanos do mercado internacional de propaganda. Como o próprio Schiller observa, “em 1976, as dez agências mais importantes dos Estados Unidos declararam as seguintes percentagens de suas contas estrangeiras no volume total de seus negócios: W. Thompson, 53,8%; Young & Rubicam International, 38,4%; Ogilvy & Mather International, 51,5%; McCann-Erikson, 67%; Leo Burnett, 31%; Ted Bates & Co., 52,5%; Compton Adverstising, 67,9%; SSC & B, 69,5%. Vinte anos antes, em 1955, unicamente W. Thompson, Young & Rubican e McCann-Erikson tinham operações internacionais importantes que ascendiam respectivamente a 24,9% e 20%”.(34.Idem, p.57.). A penetração dessas empresas a nível mundial confirma o monopólio americano; em 1975, “em cada país da Europa, aproximadamente a metade das dez agências com maior volume de negócios pertencem aos Estados Unidos”.(35.Idem, p. 59.). O que levou alguns especialistas a considerarem a publicidade internacional como quase exclusivamente uma indústria norte-americana. Evidentemente, a presença dessas grandes firmas nos países periféricos é bem mais acentuada. Fred Fejes mostra como na América Latina se dá a implantação das multinacionais da publicidade, o que envolve questões desde o consumo induzido de determinados bens pelas camadas populares, o confronto com as expressões culturais locais, até o controle dos órgãos de comunicação.(36.Fred Fejes, “The Growth of Multinational Advertising Agencies in Latin America”, Journal of Communication, autumn 1980.). Fato que se agrava quando se sabe que, comparativamente, “os países da América Latina são os que mais transmitem (em rádio e televisão) propaganda no mundo”.(37.Um estudo em nível internacional do fluxo de publicidade no mundo pode ser encontrado em Grahan Murdock e Norenee Janus, “Mass Communication and Advertising Industry”, Reports on Mass Communication, nº 97, Paris, UNESCO, 1985. Sobre a relação entre publicidade e multinacionais, ver ainda Norenee Janus, “Advertising and the Mass Media: Transnational Link between Production and Consumption”, Media, Culture and Society, vol. 3, 1981.).
Não obstante, a posição brasileira no contexto mundial não deixa de ser singular. Hamid Mowlana, em sua análise sobre a importância das agências multinacionais de propaganda, organizou uma tabela com os dez maiores mercados, relacionando-os com o “grau de influência” que as agências internacionais possuem nos mercados locais. Os dados são esclarecedores:(38.Hamid Mowlana, Global Information and World Communication, Nova Iorque, Longman, 1986. p. 86. O cálculo foi feito levando-se em consideração as maiores agências de cada país, inserindo-as no contexto internacional.).
1.Estados Unidos — 60%
2.Japão — 32%
3.Inglaterra — 46%
4.Alemanha — 51%
5.França — 30%
6.Austrália — 36%
7.Brasil — 22%
8.Canadá — 42%
9.Itália — 41%
10.Holanda — 42%
Evidentemente, a taxa elevada de “influência estrangeira” para os Estados Unidos decorre da opção do autor por contabilizar as transnacionais como “não-nacionais”; sendo a maioria delas de origem americana, sua influência no mercado interno do país é considerável (sic). Mas a tabela mostra como o Brasil, sétimo mercado mundial, sofre o menor “grau de influência” das agências internacionais (exceto, é claro, os Estados Unidos). Essas informações podem surpreender, mas se explicam pela própria história da publicidade brasileira. Na verdade, a chegada das grandes agências de publicidade no Brasil datam da década de 30 — Thompson (1930), Standard Propaganda (1933), McCann-Erikson (1935), Interamericana (1938); dos grupos internacionais importantes, somente a Leo Burnett surge nos anos 50. Essas grandes companhias dominam o mercado publicitário até os anos 60. Justamente no momento em que ocorre a expansão dessas grandes firmas a nível mundial, no Brasil se consolida um movimento inverso, o da afirmação das empresas nacionais. De fato, os anos 70 conhecem um crescimento considerável da publicidade, a ponto de alguns homens de negócios considerarem o período como a “década da mídia”. O investimento em propaganda, que em 1969 chegava a 220 milhões de dólares, cresce, em 1979, para 1,5 bilhão, sete vezes o volume do ano base.(39.Ricardo Ramos, Do Reclame à Comunicação, São Paulo, Atual Ed. 1985, pp. 99-100.). No entanto, boa parte deste aumento favorece as firmas brasileiras. O quadro das 15 maiores receitas de publicidade em 1982 indica que somente quatro delas são multinacionais (McCann-Erikson, Thompson, Standard, Lintas), enquanto que as três primeiras, MPM, Alcântara Machado e Salles/Interamericana são de capitais nacionais. (40.Fonte: Mercado Brasileiro de Comunicação. op. cit.). Isto não quer dizer que as multinacionais deixem de operar no território brasileiro; uma leitura deste tipo seria pura ingenuidade. Mas que ao lado das contas do governo e das paraestatais, dadas às empresas nacionais, os grandes investimentos das transnacionais se repartem entre agências brasileiras e estrangeiras. De qualquer forma, o predo-mínio das firmas de publicidade nacionais é um fato que reverte o quadro dos anos anteriores.
A análise da televisão brasileira é também interessante, principalmente quando situamos sua evolução no contexto do mercado internacional. Não resta dúvida que o sistema televisivo mundial opera segundo a lógica das grandes companhias transnacionais que controlam a indústria da mídia, os mercados estrangeiros, ocupando uma posição dominante que lhes permite ditar inclusive o preço do produto a ser comercializado. Thomas Guback e Tapio Varis mostram de forma convincente que o mercado internacional televisivo é basicamente composto por indústrias anglo-americanas que exportam para o mundo todo.(41.T. Guback e Tapio Varis, “Transnational Communication and Cultural Industries”, Report and Papers on Mass Communication, nº 92, Paris, UNESCO, 1982.). Do ponto de vista comercial é inegável a hegemonia dos Estados Unidos, que assistem a uma progressão importante de suas vendas no estrangeiro, crescendo de USS 25 milhões, em 1960, para US$ 100 milhões, em 1970, e estabilizando-se ao longo da década. É importante observar que dois terços das vendas da programação americana se dirigem para mercados mais ricos, como Canadá, Austrália, Japão e Reino Unido. O que sugere que basicamente o fluxo de programas se concentra nos países desenvolvidos, pois aí se localizam o maior número de aparelhos e as maiores audiências. Guback e Varis consideram que “do ponto de vista dos negócios, alguém poderia argumentar que os países ‘em desenvolvimento têm pouca importância econômica para o comércio mundial da indústria televisiva, por que a grande arrecadação vem das áreas mais desenvolvidas. Porém, isto seria um quadro incompleto do fenômeno. Nos negócios da televisão mundial, o estudo do lado cultural da distribuição internacional dos programas de televisão mostra que é importante, nos países em desenvolvimento, a quantidade de programas-horas importados, importante por causa do impacto cultural, social e político do material importado”.(42.Idem, pp. 9-10.).
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Não se trata, pois, de mera questão econômica; por trás desta se esconde toda uma problemática ideológica e cultural que se coloca principalmente nos países dependentes. Por exemplo, o estudo realizado pela UNESCO em 1973, sobre o fluxo da programação mundial, revela a preponderância dos Estados Unidos, principalmente no que diz respeito à América Latina, que é considerada como “zona de influência norte-americana”, e na qual a proporção de programas importados chega a atingir 84% em determinados países. Tapio Varis, com novos dados, repetiu a pesquisa dez anos depois, e chega à conclusão que “uma comparação dos dados de 1973 com os de 1983 indica que, em escala mundial, não houve mudanças substanciais na proporção dos programas importados”.(43.Tapio Varis, “The International Flow of Television Programs”, Journal of Communication, vol. 34, nº 1, 1984, p. 145. Uma versão mais completa deste estudo se encontra em Reports and Papers on Mass Communacation, nº 100, Paris, UNESCO, 1985.). Os grandes centros produtores continuam a ser os mesmos, o que implica um desequilíbrio acentuado em relação à periferia.
A pergunta que nos interessa é simples: qual a posição do Brasil dentro deste contexto? Em que ponto da periferia ele se situa? As informações relativas à distribuição das dez maiores audiências mundiais da televisão são interessantes:(44.Tapio Varis, “International Flow of Television Programs”, Reports and Papers on Mass Communication, op. cit., p. 19.).
Quadro:
País – % Total mundial 1970 – % Total mundial 1980
1.
Estados Unidos – 30,8 –
29,5
2.
URSS – 12,7 – 17,7

3.
Japão – 8,3 – 5,9
4,3
4.
Alemanha Federal – 6,1 –
5.
Reino Unido – 5,9 – 3,8

6.
França – 4,0 – 3,3

7.
Itália – 3,5 – 2,8 (8º)

8.
Brasil – 2,6 – 3,1 (7º)

9.
Canadá – 2,6 – 2,3
– —
10. Alemanha Oriental – 1,6
11. Espanha – — – 2,0
Fica clara a posição dominante dos Estados Unidos no quadro internacional. Mas chama a atenção, não só o Brasil, passar, na década de 70, do oitavo para o sétimo lugar no ranking mundial, como também o fato de que as diferenças entre as audiências de países como Brasil, França, Alemanha e Reino Unido se tornam significativamente menores. Isso implica se pensar o mercado brasileiro de televisão como possuindo uma dimensão internacional. Por isso é importante sublinhar que sua exploração é feita em grande parte pelas indústrias culturais nacionais, o que certamente contraria a perspectiva nacionalista que vê a televisão brasileira exclusivamente sob o ângulo da dependência cultural. É verdade que durante um certo período da história da televisão brasileira a presença da produção estrangeira é considerável. Não tanto no seu início, entre 1950 e 1955, fase em que os interesses americanos se limitavam à venda de tecnologia, e que o próprio mercado interno de televisão nos Estados Unidos se encontrava em expansão. A partir de meados dos anos 50, quando a indústria americana começa a exportar as séries produzidas em Hollywood, diante da fragilidade tecnológica e financeira das empresas brasileiras, torna-se mais rentável para elas importar programas do que produzi-los aqui. Quando se observa os dados sobre a percentagem de programas importados no total das horas emitidas para um estado como São Paulo nos anos 60, pode-se perceber a importância da programação estrangeira:(45.Joseph Straubhaar, “The Transformation of Cultural Dependence: The Decline of American Influence on Brazilian Television Industry”, PhD, The Fletcher School of Law and Diplomacy, Wisconsin University, 1982, p. 243.).
Quadro:
Ano – Excelsior – Record – Tupi – Globo 1963 – 41% – 26% – 30% – — 1965 – 30% – 47% – 59% – — 1967 – 24% – 43% – 27% – 59% 1969 – 35% – 48% – 37% – 44%
Os produtos estrangeiros, especialmente os “enlatados”, propiciavam às grandes redes uma forma mais barata de organizar a sua programação. Porém, paralelamente a este quadro de dependência, existe um movimento que se esboça, incentivando a produção industrial de programas nacionais. A comparação da evolução da telenovela com as séries americanas mostra como na década de 70 a novela se consolida como o principal veículo da indústria televisiva (horas-audiência do total da programação do Estado de São Paulo): (46.J. Straubhaar, “The Development of the Telenovela as the Pre-Eminent Form of Popular Culture in Brazil”, Studies in Latin American Popular Culture, vol. 1, 1982, p. 144. Obs.: a somatória não dá 100% porque foi excluído do quadro o restante da programação — filmes, shows de auditório, jornalismo, etc. O interesse em se comparar a novela às séries reside no fato de que as primeiras constituem o produto comercial industrial mais bem acabado da televisão brasileira, enquanto os “enlatados” compõem o típico material prime time produzido pela televisão americana e distribuído em todo o mundo.).
Quadro:
Telenovela – Séries importadas 1963 – 2% – 25% 1965 – 12% – 34% 1967 – 13% – 15% 1969 – 18% – 16% 1971 – 17% – 11% 1973 – 22% – 4% 1975 – 20% – 9% 1977 – 22% – 17%
Em 1965 as séries atingem um pico, e chegam a compor 34% da programação das emissoras paulistas. A telenovela começa timidamente, 2% em 1963, momento em que ensaiava os seus passos diários; mas em 1969 ela já supera qualquer tipo de programação estrangeira. Não se pode esquecer que aos dados revelados pela tabela acima tem que ser considerado ainda o fato de a telenovela ser levada ao ar durante o horário nobre, atingindo, portanto, um público bem mais amplo que os “enlatados”. O crescimento da programação nacional não se restringe, porém, às emissoras de São Paulo ou a um único produto como a novela. Durante os anos 70 são incentivadas outras atividades, como o jornalismo, o esporte e, no final da década, as séries nacionais. Se, na totalidade da programação irradiada no Brasil, a percentagem de programas estrangeiros girava, em 1972, em torno de 60%, este número diminui em 1983 para 30%.(47.Dados in Lívia Antola e Everett Rogers, Television Flows in Latin America”, Communication Research, vol. 11, nº 2, abril de 1984; e Tapio Varis, international Flow of Television Programs” ,op. cit.). No entanto, considerando-se a programação veiculada durante o horário nobre, este índice cai para 23%; o que coloca o Brasil ao lado de países como França, Itália, Reino Unido/BBC, que no mesmo horário transmitem, respectivamente, 17%, 19% e 21% de programas importados, e o distancia de outros como México (44%) e Venezuela (42 %). (48.Tapio Varis, idem.).
Portanto, uma indústria cultural de dimensões nacional e internacional: sétimo mercado mundial de televisão e publicidade, sexto na produção de discos. Elementos, quando associados a outros — o Brasil é a oitava economia mundial —, atestam uma mudança de sua posição no contexto internacional. Como captar este quadro de transformação? Para caracterizá-lo, gostaria de retomar algumas idéias que Fernand Braudel desenvolve quando escreve sobre o “tempo do mundo”, texto no qual ele nos mostra a vinculação do capitalismo a uma história geral dos povos.(49.Fernand Braudel, La Dinámica del Capitalismo, México, Fondo de Cultura Económica, 1986.). Braudel distingue entre a noção de economia mundial e economia-mundo, entendendo esta última como a economia de uma só porção do planeta, na medida em que ela constituiria um todo econômico. Por exemplo, a economia do Mediterrâneo durante os séculos XIII-XV, que formava uma totalidade com uma lógica própria, e se estendia por um território determinado. Nesse sentido, o mundo, pelo menos até o século XVI, estava dividido em zonas econômicas diferenciadas, em economias-mundo que coexistiam. Porém, com o avanço do capitalismo, essas economias se interpenetram, há uma expansão das fronteiras, elas se tornam mundiais e constituem um único sistema; no dizer de Wallerstein, um world system.(50.Immanuel Wallerstein, The Modern World System, 2 vols. Nova Iorque, Academic Press, 1976 e 1980.). Braudel descreve ainda as características dessa economia- mundo segundo uma tríplice realidade: a) ela ocupa um espaço geográfico determinado; b) se organiza sempre a partir de um centro, uma cidade-pólo dominante; c) se divide em zonas sucessivas, isto é, as regiões que se agrupam em torno dos centros se subdividem em áreas intermediárias e zonas marginais. O espaço geográfico deste world system, que se expande ao longo da história do capitalismo — grandes descobertas marítimas, mercantilismo, revolução industrial — é hoje o planeta. Mas, durante os séculos que se escoaram, existiram vários centros, substituídos gradativamente por outros, cedendo lugar a novos pólos desta economia mundial: Veneza e Gênova, no século XIV; Madri, na época dos descobrimentos; Amsterdã, capital financeira do comércio marítimo; Londres, fruto da revolução industrial; finalmente Nova Iorque, após a crise de 1929. Comentando esse panorama da história mundial, Braudel afirma: “Os países ricos e países pobres nem sempre foram os mesmos; a roda girou. Mas no que diz respeito às suas leis, o mundo não mudou: segue sendo distribuído estruturalmente entre privilegiados e desprivilegiados”.(51.Fernand Braudel, op. cit., p. 86.). No caso brasileiro, eu diria que o giro da roda deu várias voltas. Seria ingênuo, senão ilusório, imaginarmos que o centro da organização da economia mundial se transferisse para o Hemisfério Sul. Como também seria inócuo imaginarmos a existência de um mundo ideal, sem tensões ou afrontamentos entre países centrais e nações periféricas. Dentro desse quadro, a questão da dependência e do desequilíbrio internacional se impõe. Mas não há dúvidas que o estatuto do Brasil, como “área marginal”, se transformou.
Uma imagem que apreende essa mudança é a de “concerto das nações”. Podemos imaginar o mundo como uma orquestra, na qual cada país ocupa uma posição especifica dentro do cenário da música internacional. Evidentemente uma orquestra hierarquizada, distinguindo entre os instrumentos nobres e outros menos prestigiados. Eu diria que o Brasil passa do pólo folclórico (na melhor das hipóteses ele representava o papel de um percussionista talentoso) para uma posição razoável dentro do grupo dos violinos. Certamente não o primeiro, sequer o segundo ou terceiro, mas seguramente um instrumento com som distinto do que emitia no passado. Nos anos 40, a mídia internacional projetava uma identidade brasileira que se encontra condensada, por exemplo, num “ídolo” como Carmem Miranda. Como era percebido esse elemento de brasilidade no contexto mundial? Um manual, lançado pela agência de publicidade que “explora” a atriz durante sua permanência em Hollywood, sugere as seguintes catch phrases para “vendê-la” junto ao público americano: “Exótica-excitante. Vem aí uma bomba de calor. Carmem Miranda: pimenta e tempero. Bombardeio favorito da América. O tempero da vida, a irresistível estrela tórrida”. Ou ainda: “A técnica de Carmem Miranda para vender uma canção é tão modulada que faz a pele arrepiar pela excitação gerada por sua presença, o brilho de seus olhos e a sinuosa qualidade que ela injeta na sua dança casual”.(52.Exploitation Manual, Management William Morris Agency, Los Angeles, Califórnia, s. d., mimeo., in Museu Carmem Miranda, Rio de Janeiro.). Tórrida, sensual, maliciosa, sem esquecermos das frutas tropicais e da vestimenta de “baiana”. Um Brasil reconhecido pelo seu lado folclórico, representado por instrumentos musicais como o berimbau e o pandeiro, imortalizados por Walt Disney em seu “Saludos Amigos”, ao lado do asado argentino, do sombrero mexicano, do poncho andino. Mas a onda latina em Hollywood dura pouco. O musical foi um gênero estimulado exclusiva-mente pelo período da guerra, e tinha uma função política — “estreitar os laços” dos Estados Unidos com os povos do Terceiro Mundo —, e econômica — abrir novos mercados para o filme americano que não tinha condições de se impor na Europa. Carmem Miranda não foi “exportada”, como ingenuamente acreditavam nossas revistas de rádio da época; ela é uma descoberta das grandes companhias cinematográficas que reorientam sua produção, realizando musicais para a América Latina, ou filmes como Juarez, apresentado em sessão de gala para o presidente da República no México.(53.O locutor César Ladeira, da Rádio Mayrink Veiga, assim descreve a ida de Carmem Miranda aos Estados Unidos: “Contratada diretamente, sem nenhum empenho particular de quem quer que seja, apenas pelo valor pessoal, pelo valor indiscutível de sua arte incomparável, Carmem Miranda vai levar a música do Brasil, em sua expressão mais encantadora para a Broadway
— vai dar seu nome, para alegria nossa, ardendo num incêndio colorido de anúncios luminosos da ilha de Manhattan”. Citação in José Ramos Tinhorão, O Samba Agora Vai; a Farsa da Musica Popular no Exterior, Rio de Janeiro, JCM Ed., 1969, p. 58.). Porém, finda a guerra, o apelo da sensualidade latina declina diante do irresistível mercado europeu que se abre para os produtos americanos. Um popular musical da Broadway saúda esses novos tempos, revelando o “cansaço do público” com os temas latinos: “South America take way. Take back the rhumba, the mambo, and samba. Her back [de Carmem Mirandal was acking from all that shaking”.(54.Allen Woll, The Hollywood Musical Goes to War, Chicago, Nelson Hall. 1983, p. 110. Ainda sobre os musicais, ver Thomas Ayleworth, History of Movie Musicals, Nova Iorque, Bison Book, 1984. ‘Vá embora América do Sul. Leve de volta a rumba, o mambo e o samba. Suas costas (de Carmem Miranda) já estão doendo de tanto chacoalhar.”).
A consolidação de uma sociedade moderna no Brasil reorienta essa imagem na medida em que a cultura brasileira passa a integrar o mercado ajustada agora aos padrões internacionais. A penetração de um produto como a telenovela na América Latina, e em vários países da Europa, aponta para uma outra direção, a de passarmos da defesa do nacional-popular para a exportação do “internacional-popular”. Se lembrarmos que os economistas consideram por internacionalização o processo de adequação de normas de produção a nível da produção internacional, percebemos que a “qualidade” dos programas realizados no Brasil, para se “elevar”, tem que tomar como referência o gosto dominante do mass media internacional. A televisão brasileira, contrariamente a Carmem Miranda, que encontrava sua razão de ser no exotismo, luta pela concorrência no mercado mundial. (55.Muriel Cantor, num artigo sobre o mercado americano internacional de televisão, observa que os empresários americanos apontam o Japão e o Brasil “como grandes mercados onde eles foram esprimidos pelas produções locais. Eles também estão preocupados com a concorrência que um país como o Brasil está fazendo na Europa, onde a TV Globo começa a encontrar compradores para seus programas na Espanha, Itália, Portugal, e recentemente na Polônia”. In “American Television in the Internacional Market”, Communication Research, vol. 13, nº 3, julho de 1986. p. 517.). Nessa disputa acirrada vamos nos apresentar como portadores de um outro tipo de identidade, que na verdade não é tão distinta assim das dos nossos concorrentes, na medida em que elas são intercambiáveis. No entanto, dentro desse novo panorama, a discussão sobre o nacional adquire uma outra feição. Até então, ela se confinava aos limites internos da nação brasileira, seja na sua versão tradicional, seja na forma isebiana; hoje ela se transforma em ideologia que justifica a ação dos grupos empresariais no mercado mundial. Talvez por isso não há grandes diferenças entre o discurso de venda da telenovela e a argumentação dos comerciantes de armamentos no exterior (o Brasil é o quinto produtor mundial), uma vez que ambos são vistos exclusivamente como produtos nacionais. Eu diria, porém, que esse fato marca uma etapa da sociedade brasileira onde se torna impossível retornarmos à antiga oposição colonizador/colonizado com a qual estávamos habituados a operar, a menos, é claro, que queiramos confundir a idéia de realização da liberdade com as formas de dominação da sociedade industrial “nacional”.

O popular e o nacional

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira

Quando nos deparamos com a literatura sobre a sociedade de consumo, reiteradamente encontramos uma discussão sobre a despolitização da sociedade. Num primeiro nível, o tema nos remete ao problema da integração dos membros da sociedade no capitalismo avançado, e se refere ao processo de “despolitização das massas”. Vários autores, oriundos de tradições teóricas distintas, têm apontado para este lado da questão. Cito, por exemplo, David Riesman, que não partilha inteiramente das críticas que se fazem à cultura de massa; que no seu livro clássico, A Multidão Solitária, mostra como elementos dessa cultura funcionam como um meio de ajustar os indivíduos à sociedade.(1.David Riesman, A Multidão Solitário, São Paulo, Perspectiva, 1971.). Ou o trabalho de Leo Lowenthal sobre as biografias dos ídolos populares.(2.Leo Lowenthal, “The Biographical Fashion” e “The Triumph of Mass Idols”, in Lirerature and Mass Culture. Nova Jersey, Transaction Books. 1984.). Lowenthal as considera como estórias exemplares que tendem a difundir junto ao público um tipo ideal de comportamento a ser alcançado. Sua análise do gênero indica que nos Estados Unidos, entre 1900 e 1940, há uma mudança no padrão do herói biografado. No início do século,as publicações privilegiam a vidados políticos e dos grandes homens de negócio. O herói exaltado era o homem de ação, que o autor chama de “ídolo de produção”, na medida em que ele retirava sua energia e legitimidade da esfera da vida produtiva. A partir de meados da década de 20 esse tipo de figura se transforma. Pouco a pouco o homem-ação cede lugar aos ídolos de entretenimento (esportistas, artistas, etc.) que estimulam no leitor não mais uma tendência à realização de uma vontade, política ou empresarial, mas o conformismo às normas da sociedade. Passa-se, portanto, de uma fase na qual a ação era considerada como foco central na orientação dos comportamentos para uma outra em que se privilegia a passividade. Uma posição mais extremada é certamente a de Adorno, quando descreve a sociedade de massas como um espaço onde praticamente não mais existem conflitos, uma vez que a luta de classes deixa de existir e a própria possibilidade de alienação se torna impossível. Sociedade marcada pela unidimensionalidade das consciências, o que reforça a integração da ordem social e elimina a expressão dos antagonismos.(3.Uma perspectiva distinta que aponta, no entanto, para o mesmo problema é a análise semiológica que Barthes faz sobre os mitos da sociedade moderna (automóvel, filmes, brinquedos, etc.). O autor mostra que “o mito tem por tarefa fundar uma intenção histórica em natureza, em eternidade. As coisas nele perdem a lembrança de sua fabricação. O mito é uma palavra despolitizada”, in Mitologias, São Paulo, DIFEL, 1985.).

Num segundo nível, porém, que evidentemente está relacionado com o primeiro, mas não se confunde com ele, o processo de despolitização se vincula à própria lógica da indústria da cultura. Creio que neste ponto o estudo de Habermas sobre o espaço público pode ser tomado como paradigmático. Sua argumentação, que considera dois momentos históricos distintos da evolução do que ele denomina de “espaço público”, nos interessa particularmente. Habermas descreve o advento da cultura burguesa como um momentoem que o homem burguês secreta uma esfera pública de discussão, que ele qualifica de eminentemente política. Na sua luta contra o poder aristocrático, a novaclasse emergente se via na necessidade de engendrar um espaço onde pudesse se exprimir política e culturalmente, o que a levou a valorizar uma concepção do individuo enquanto homem universal. Nesse sentido, “a cultura burguesa não era pura e simplesmente uma ideologia. Na medida em que o uso que as pessoas privadas faziam de sua razão nos salões, clubes e sociedades de leituras não estava submetido ao circuito da produção e do consumo, nem às pressões das necessidades vitais; na medida em que, pelo contrário, este uso da razão possuía um sentido grego de independência em relação aos imperativos da sobrevivência, um caráter ‘político’, até mesmo na sua expressão simplesmente literária, pode ser elaborada esta idéia que, mais tarde, foi reduzida a uma ideologia: a idéia de humanidade”.(4.Habermas, L’Espace Public. Paris, Payot, 1978, p. 168.). Habermas reconhece, portanto, que o indivíduo do século XVIII e parte do século XIX é “burguês” e “homem”, o que significa que a noção de humanidade carrega consigo uma idéia de libertação que não se vincula exclusivamente a uma classe social determinada. Sua análise dos lugares sociais, como os salões, os clubes literários, mostra que a cultura que aí se expressava possuía uma dimensão que era simultaneamente cultural e política. Para Habermas, a transformação da cultura em consumo se acentua somente em meados do século XIX, quando a esfera pública burguesa perde o seu caráter político, não tanto por causa do aumento da sua amplitude (passa a envolver um maior número de pessoas), mas sobretudo pelo fato de que o que é produzido se fundamenta agora em um outro critério: a demanda do mercado. Nesse sentido o advento da imprensa comercial, que substitui em grande parte a imprensa política dos anos anteriores, financiada pela publicidade e voltada para o mercado, marca a emergência de uma etapa que tende a se definir como um processo de despolitização. “Se no início, no seio da imprensa diária que obedecia a imperativos essencialmente políticos, a reorganização de certas empresas numa base exclusivamente comercial somente representava ainda uma simples possibilidade de investimento rentável, ela se torna muito rapidamente uma necessidade para todos os editores. O desenvolvimento e o aperfeiçoamento da infra-estrutura técnica e organizacional levou a um aumento do capital da empresa; o risco comercial aumentou e, consequentemente, a política da empresa foi submetida aos imperativos de sua estratégia comercial.”(5.Idem.). Passa-se de um jornalismo político para um jornalismo empresarial.
A perspectiva de Habermas possui uma dimensão histórica, e capta o momento de transformação da própria concepção do que é a cultura. Penso que no caso brasileiro o mesmo tipo de lógica se manifesta na medida em que ela é estrutural à própria indústria cultural. Já havíamos observado como o jornalismo passava da idéia de “missão” para a de “atendimento das necessidades do público”, o que implicava num processo de despolitização da concepção de como se fazer um jornal. Mas a supremacia da lógica comercial tende inclusive a considerar de forma neutralizadora questões de cunho político. É o caso dos dirigentes das empresas quando se posicionam em relação a uma questão como a censura. Dirá um executivo da Folha de S. Paulo: “Acho que (a censura) deprecia a mercadoria jornalística. É mais ou menos como fabricar suco de tomate que não possa ter gosto de tomate; tenho a impressão que isso iria reduzir o mercado do suco de tomate. É um exemplo grosseiro, mas imagino no que se possa especular um pouco nessa direção: depreciar o valor da mercadoria jornalística e, portanto, poder eventualmente significar algum tipo de redução ou não no crescimento do mercado jornalístico, se confrontado com o que ele poderia ter crescido em um ambiente de liberdade política.”(6.Depoimento de Otávio Frias Filho, in Gisela Goldenstein, op. cit., p. 156.). Baseada na idéia de venda e de eficiência, a ideologia dos dirigentes da indústria cultural tende a afastar qualquer problemática que interfira na racionalidade da empresa. Como afirma um intelectual da Rede
Globo de Televisão, ao fazer o balanço das conquistas de comercialização da empresa: “É um fato que a mídia se tornou menos política e centrada agora na eficiência. Isto a Rede Globo proporcionou ao mercado: procura a Globo quem precisa de resultados e respostas comerciais”. (7.Arce, “Televisão: Ano 25/10 de Conquistas de Comercialização”, op. cit., p. 67.).
Se no Brasil o advento da indústria cultural implicou a valorização dos imperativos de ordem econômica na esfera da cultura, não é menos verdade que o caso brasileiro possui uma particularidade em relação ao que se passou em outros países. Entre nós é o Estado militar quem promove o capitalismo na sua fase mais avançada. Em que medida este traço recoloca a temática da despolitização que vínhamos considerando? Para encaminhar meu raciocínio, gostaria de considerar dois exemplos, o da Última Hora e o da TV Excelsior. Tratam-se de duas empresas que se modernizam, mas que não conseguem se desenvolver como “indústria” no quadro político pós-64.
Vimos nos capítulos anteriores como tanto a Excelsior como a Última Hora introduziram uma série de técnicas modernas na gestão e na concepção do produto que veiculavam. Não obstante, o que chama a atenção é que ambas tiveram o mesmo destino: a ruína. A Última Hora tinha sido criada em 1951 por Samuel Wainer com a finalidade de defender os interesses getulistas.(8.Ver Gisela Goldenstein, Do Jornalismo Político à Indústria Cultural. op. cit.). O jornal é, portanto, concebido como porta-voz do populismo da época, e toda a sua transformação tecnológica, assim como sua modernização, se estruturam a partir deste imperativo de ordem política que o fundamenta. Por causa de suas posições, a Última Hora será combatida por seus adversários, a UDN e as multinacionais que dominavam o mercado da publicidade. Por esse motivo, a vida econômica do jornal foi difícil durante toda a década de 50, e em 1958 ele estava à beira da falência; somente a partir desta data, com o governo Juscelino, quando a briga política se acalma, é que o jornalconsegue recursos e se recupera. Porém, o período de estabilidade é curto, pois o golpe de 64 vai eliminá-lo de cena. O itinerário da TV Excelsior é semelhante. Responsável pela introdução de uma série de medidas modernizadoras na televisão, ela foi fundada em 1960 pelo grupo Simonsen, às vésperas das eleições presidenciais. Logo no início de seu funcionamento a empresa tem problemas, pois havia apoiado o marechal Lott, candidato perdedor das eleições. Fortemente nacionalista, o grupo concessionário se coloca logo em seguida ao lado de Jango, mas com o golpe a emissora é invadida pelos militares, além de receber uma atenção especial da censura, que a trata de maneira mais rigorosa do que as outras empresas. As pressões contra a família Simonsen não tardam a aparecer. Como os proprietários eram ligados à exportação de café e aos grupos internacionais ingleses, num momento de rearticulação da economia brasileira que privilegiava os conglomerados norte- americanos, o Estado aproveita o inquérito aberto na época de Goulart que os acusava de desvio de verbas pertencentes ao Instituto Brasileiro do Café. O processo termina com o seqüestro dos bens dos proprietários (Panair), colocando a televisão numa situação econômica precária. Posto que o governo não tem interesse em que a emissora se torne inteiramente autônoma, como parcela da dívida ele confisca parte das ações para a União. Isso significa que a partir de 1965 a Excelsior não podia mais contar com a cobertura econômica que possuía anteriormente; a emissora vive um período de instabilidade, marcada por várias crises trabalhistas, e em 1969 vê sua concessão cassada pelo governo. Como declarou posteriormente Wallace Simonsen Neto, o empreendimento “era viável economicamente mas inviável politicamente”.(9.Depoimento de Wallace Simonsen Neto (FUNARTE).).
Gisela Goldenstein observa que a Última Hora teve as técnicas da indústria cultural, mas não a sua lógica. Podemos dizer o mesmo da IV Excelsior. O lado político, vinculado aos setores derrotados pelo golpe, impediram que essas empresas modernas pudessem se desenvolver dentro do novo quadro das forças políticas. O que significa que a vertente associada aos militares contou com a liberdade necessária para realizar seus projetos culturais. O caso da TV Globo contrasta com o da Excelsior. Suas atividades iniciais também foram dificultosas devido à vinculação da empresa ao conglomerado Time-Life, o que violava claramente as leis nacionais relativas à comunicação.(10.Sobre a associação da Globo ao grupo Time-Life, e o processo movido pela CPI do Congresso, ver Daniel Herz, A História Secreta da Rede Globo, Porto Alegre, Tchê. 1987.). Roberto Marinho, da mesma forma que Simonsen no caso do café, enfrentou uma cerrada campanha das comissões parlamentares de inquérito que investigaram a intromissão dos interesses americanos nos meios de comunicação brasileiros. Porém, os contatos da TV Globo junto à área militar eram fortes, e ela pôde se beneficiar da complacência do regime que não hesitou em favorecê-la. A Globo pôde, desta forma, estabelecer uma aliança com o Estado autoritário, possibilitando que os objetivos de “integração nacional” pudessem ser concretizados no domínio do sistema televisivo.
Dizer que a consolidação da indústria cultural se dá num momento de repolitização da esfera do aparelho de Estado significa afirmar que o processo de despolitização que estávamos considerando, exclusivamente a nível de mercado, se beneficia de um reforço político. Com efeito, o Estado autoritário tem interesse em eliminar os setores que possam lhe oferecer alguma resistência; nesse sentido a repressão aos partidos políticos, aos movimentos sociais, à liberdade de expressão, contribui para que sejam desmanteladas as formas críticas de expressão cultural. Quando se analisa o período relativo à ditadura militar, o que chama a atenção no que diz respeito à repressão cultural não é tanto a existência da censura, que de uma forma se encontra associada à existência em si do aparelho de Estado, mas a sua extensão. Ela não se constitui apenas de proposições mais gerais, aprovadas pela legalidade de exceção e espelhada na Constituição, na Lei de Imprensa, nas regulamentações que controlam o teatro, cinema, televisão, rádio, etc. Existem ainda inúmeras formas de pressão, diretas e indiretas, que no campo do jornalismo, por exemplo, atingem áreas diferenciadas, proibindo a publicação de informações de cunho político, moral, e até mesmo notícias locais, julgadas como potencialmente desabonadoras da imagem de tranqüilidade cultivada pelos militares. Mas esse trabalho de denúncia e de catalogação dos atos de repressão já foi realizado por vários estudiosos, por isso gostaria de considerar a problemática vista de um outro ângulo.(11.Sobre a legislação repressiva, ver Reinaldo Santos, Vade Mecum da Comunicação, Rio de Janeiro, Ed. Trabalhistas, 1986; ou ainda Paolo Marconi, A Censura Política na Imprensa Brasileira: 1968-1978, São Paulo, Global, 1980; Tânia Pacheco, “O Teatro e o Poder”, op. cit.).
Penso que é possível captarmos o quadro relativo ao embate entre censura e cultura se considerarmos, ao lado da repressão às liberdades de expressão, certas formas de comportamento que surgem durante o período autoritário. Para isso é importante retomarmos algumas análises e críticas que procuraram apreender as atitudes dos indivíduos num cotidiano que refletiria os impasses de uma cultura marcada pela violência e pela censura. O ensaio sobre autoritarismo e cultura de Luciano Martins é, neste sentido, interessante; nele o autor busca entender as manifestações culturais emergentes na sociedade brasileira como uma resposta à situação de repressão.(12.Luciano Martins, “A Geração AI-5”, Ensaios de Opinião, setembro de 1979.). Luciano Martins toma como objeto um grupo de jovens pertencentes a uma classe média mais escolarizados, com acesso à universidade, que ele denomina de “geração AI-5”, e que a partir de 1968 promovem e valorizam as correntes de contracultura. Dentro desse universo ele procura detectar um conjunto de valores e comportamentos, práticas que seriam vividas como uma receita de libertação pessoal no quadro global de repressão da sociedade brasileira. Dito de outra forma, tenta-se compreender o surgimento de valores similares aos da contracultura nos países centrais, só que agora ajustados a uma sociedade periférica. No conjunto dessas práticas, ele considera particularmente três delas: o uso da droga, a desarticulação do discurso e o modismo da psicanálise. A droga é vista como um instrumento de evasão do mundo, uma forma de escapismo. O processo de desarticulação do discurso, o autor pode percebê-lo no uso que esta geração AI-5 faz das palavras, em particular analisando os novos termos da gíria juvenil, que em princípio implicariam uma falta de precisão, uma indeterminação que se oporia a qualquer tipo de conhecimento mais conceitual. Por fim, o “modismo” da psicanálise diz respeito à expansão deste tipo de terapia junto a setores cultivados da classe média, expansão que não corresponderia tanto à existência de uma neurose de origem estritamente individual, mas expressaria uma ansiedade autêntica, não-neurótica, induzida por toda uma conjuntura social específica. Esses elementos formariam um conjunto de valores para a orientação da vida, mas devido a sua despolitização, comporiam um antiprojeto de liberação na medida em que seria “uma expressão da alienação produzida pelo próprio autoritarismo”.(13.Idem, p.74.) A reflexão que Gilberto Vasconcelos faz sobre a música popular brasileira, embora focalize um objeto distinto, aponta para esses mesmos traços revelados. É bem verdade que o ponto de partida deste autor é bastante diferenciado do anterior. Sua crítica ao populismo dos movimentos culturais da década de 60, sua valorização da Tropicália, e por conseguinte da vertente alegórica inaugurada por Oswald de Andrade, o filia a uma tradição de pensamento que se afasta desta visão um tanto rígida dentro da qual se enquadra a análise de Luciano Martins. Mas é justamente essa diversidade de pontos de vista que é esclarecedora, pois se os autores se fundamentam em categorias teóricas distintas, a argumentação desvenda elementos análogos, o que sugere que um determinado tipo de comportamento é algo mais geral dentro desta conjuntura política. Tomando como referência o período de 1969 a 1974, momento em que viceja uma “cultura da depressão”, ele procura compreender como a partir de 1968, após uma explosão de utopia política, na qual a esquerda possuía a hegemonia do movimento cultural, se instaura um clima de conformismo e de passividade. “Cultura de depressão com variações no irracionalismo, no misticismo, no escapismo, e sob o signo da ameaça, eis os traços essenciais que acompanham alguns setores da produção cultural brasileira a partir de 1969. Suas características apresentam espantosa convergência ideológica: enterra-se arbitrariamente a noção de mimese com base numa concepção reificada da linguagem, declara-se espúria ou careta a esfera do político e, através de um argumento equivocado do perigo da recuperação via indústria cultural ou pelo establishment, faz-se a profissão de fé do silêncio teórico, isto é, a recusa apologética do discurso conceptualizado sobre a produção artística, sobretudo a musical. Isto tudo mesclado a um culto modernoso do nonsense, a um repúdio à pontilhação racional do discurso.”(14.Gilberto Vasconcelos, Música Popular: de Olho na Fresta, Rio de Janeiro, Graal, 1977, pp. 66-67.). Portanto, ênfase no sujeito “alienado”, que busca na droga, no misticismo ou na psicanálise, a forma de expressar sua individualidade; desarticulação do discurso, reificação da linguagem, o que equivaleria a uma desvalorização do conhecimento racional; recusa em se encarar o elemento político.
Não deixa de ser interessante observar que o diagnóstico corresponde ao que vários autores fazem sobre a modernidade nas sociedades avançadas. Basta lembrarmos do debate sobre modernismo e pós-modernismo, que considera a emergência de formas sociais como a contracultura, o misticismo dos jovens, os movimentos ecológicos que “romanticamente” valorizam a natureza, a fragmentação do indivíduo na sociedade de consumo, como expressão da “irracionalidade” das sociedades modernas.(15.Ver Arte em Revista, especial sobre Pós-Modernismo, nº 7, 1973; vários ensaios in Hal Foster (org.), The Anti-Aesthetic: Essays on Postmodern Culture, Washington, Bay Press, 1985, e Richard Bernstein (org.), Habermas and Modernity, Cambridge, Massachusetts, 1985.). Não pretendo nesse texto aprofundar sobre a temática da contracultura nas sociedades avançadas, muito menos sobre a discussão do pós-modernismo; creio que é suficiente sublinhar minhas dúvidas em relação a esta perspectiva que apreende esses movimentos exclusivamente como sinais de irracionalismo, ou de escapismo. Identifico-me mais com a postura que, mesmo apontando para os limites que possuem os movimentos juvenis dos anos 60, neles descobre uma tendência ativa de se contrapor à sociedade tecnológica. (16.Sobre a contracultura, ver Theodore Roszak, The Making of a Counter Culture, Nova Iorque, Anchor Books, 1969.). De qualquer forma, este não me parece ser o ponto central para a discussão que estamos realizando no momento, na seqüência de minha argumentação; o relevante é realçar o fato de que um mesmo conjunto de manifestações é compreendido de maneira diferenciada por autores de continentes distintos, O que os estudiosos estrangeiros vêem como decorrente da expansão da própria racionalidade da sociedade (seja para valorizá-los, seja para contestá-los), os críticos brasileiros atribuem à superestrutura política do quadro nacional. O estágio de racionalização da sociedade, e por conseguinte do comportamento individual, é percebido como conseqüência da existência do Estado autoritário. Dentro dessa perspectiva, a pergunta que se coloca é a seguinte: como entender essa discrepância? Formaria o Brasil um quadro à parte, a ponto de buscarmos a explicação de um fenômeno que sem dúvida parece ser internacional, numa esfera completamente distinta daquela encontrada nas sociedades avançadas? Penso que esta contradição pode ser resolvida quando voltamos à especificidade deste capitalismo brasileiro promovido pelas forças repressivas. Entre nós o Estado é o agente da modernização, o que significa que por um lado ele é propulsor de uma nova ordem social, por outro, é promotor de um “desencantamento duplo do mundo”, na medida em que sua racionalidade incorpora uma dimensão coercitiva. A nível estrutural ela acompanha o processo de transformação da sociedade como um todo; a nível da esfera política, ela expressa o lado autoritário do regime militar. Talvez pudéssemos dizer que no caso brasileiro houve uma conjunção de forças que se concentraram num determinado período, favorecendo o ajustamento acelerado dos indivíduos às novas normas de organização da sociedade.
A relação entre cultura e política nos remete ainda a uma discussão clássica sobre o popular e o nacional no Brasil. Minha tese é de que o advento de uma cultura popular de massa implica a redefinição desses conceitos, e nos próprios parâmetros da discussão cultural. No entanto, antes de entrarmos especificamente no tema, é necessário referenciar as posições em torno das quais historicamente esse debate evoluiu. Pode-se dizer que até recentemente existiram entre nós duas grandes tradições que procuravam pensar a problemática do nacional-popular. A primeira, mais antiga, se liga aos estudos e às preocupações folclóricas, e tem início com Silvio Romero e Celso Magalhães, em fins do século passado. Popular significa tradicional, e se identifica com as manifestações culturais das classes populares, que em princípio preservariam uma cultura “milenar”, romanticamente idealizada pelos folcloristas. Dentro dessa perspectiva, o popular é visto como objeto que deve ser conservado em museus, livros e casas de cultura, alimentando o saber nostálgico dos intelectuais tradicionais.
Mas a emergência do pensamento folclórico no Brasil está, como na Europa, também associada à questão nacional, uma vez que as tradições populares encarnam uma determinada visão do que seria o espírito de um povo. Peter Burke observa que a descoberta da cultura popular pelos intelectuais europeus se dá preferencialmente nos países periféricos da Europa, pois Inglaterra e França, centros do mundo moderno até meados do século XIX, se encontravam relativamente ausentes do movimento romântico que se volta para o estudo das tradições populares.(17.Peter Burke, Popular Culture in Early Modern Europe, Nova Iorque, University Press, 1978. Sobre o conceito de cultura popular na Europa, ver Renato Ortiz, ‘Cultura Popular: Romanticos e Folcloristas”, Texto 3, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, PUC-SP, 1985.). Na verdade, o estudo do folclore se desenvolve em países como Alemanha, Itália, Portugal, Espanha, lugares onde a questão da construção nacional tem que ser enfrentada no plano material e simbólico. Na Alemanha o interesse pela cultura popular existe porque o que está em pauta é a problemática nacional; seu estudo é uma forma de se identificar como alemão, isto é, de se construir uma nacionalidade que não existe ainda em sua totalidade, mas que se pretende consolidar como realidade histórica. O mesmo pode ser dito em relação à Itália, onde a reunificação durante o Ressurgimento coloca o folclore como elemento da consciência nacional.(18.Não é por acaso que um autor como Gramsci, diferentemente dos marxistas dos países mais industrializados, tem que levar em consideração a questão do folclore.). No caso do Brasil, o início dos estudos folclóricos também é marcado pelo mesmo tipo de preocupação. Sílvio Romero tem como objetivo fundamental estabelecer o terreno da nacionalidade brasileira, e seus trabalhos se voltam para o cruzamento do negro, do branco e do índio, na busca de uma identidade nacional. (19.Ver Sílvio Romero, Estudos sobre a Poesia Popular no Brasil, Petrópolis, Vozes, 1977, e História da Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, José Olympio, s.d.). Nesse sentido se pode dizer que a cultura popular é um elemento simbólico que permite aos intelectuais tomarem consciência e expressarem a situação periférica da condição do país em que se encontram. Mesmo no interior de um único país, essa relação entre centro versus periferia parece se manifestar. Teófilo Braga, quando considera o desenvolvimento do folclore brasileiro, observa que “a vitalidade da tradição poética despertou o interesse dos críticos longe da capital, no Maranhão, onde o malogrado Celso Magalhães começou a sua colheita de romances, em Sergipe, terra natal de Sílvio Romero, que continuou em Pernambuco as suas pesquisas durante o curso acadêmico, e no Rio Grande do Sul onde Carlos Koseritz coligiu os cantos líricos”.(20.Teófilo Braga, “Sobre a Poesia Popular no Brasil”, introdução ao livro de Sílvio Romero, Cantos Populares no Brasil, Lisboa, s.d., p. XIV.). Na verdade, o estudo da cultura popular é uma forma de manifestação da consciência regional quando ela se opõe ao Estado centralizador. Não é casual que os folcloristas predominantemente se concentram em regiões periféricas como o Nordeste, e que o folclore se institucionalize no Brasil na década de 30. Penso que, no momento em que a elite local perde o poder no processo de unificação nacional, tem-se o florescimento do estudo da cultura popular; um autor como Gilberto Freyre poderia talvez ser tomado como representante paradigmático dessa classe que procura reequilibrar seu capital político através da temática do regional.
Uma outra tradição, mais politizada, aparece na cena histórica em meados dos anos 50, e vem marcada pelo clima de efervescência da época. Ela terá, no entanto, vários matizes ideológicos: será reformista para o ISEB, marxista para os Centros Populares de Cultura, católica de esquerda para o movimento de alfabetização e o Movimento de Cultura Popular no Nordeste. Existe, porém, um elemento que as unifica: a tônica política. Graças à reinterpretação do próprio conceito de cultura realizado pelos intelectuais isebianos, pode- se romper com a perspectiva tradicionalista e conservadora que percebia a cultura popular unicamente do ponto de vista folclórico. A cultura se transforma, desta forma, em ação política junto às classes subalternas. O método Paulo Freire é um bom exemplo disso; o que se pretendia com ele era resolver uma educação popular que orientasse a sociedade brasileira na direção de um projeto alternativo ao vigente naquele momento. O mesmo podemos dizer do teatro e do cinema realizados nesse período, que se aproximavam em muito à literatura engajada de Sartre. Não dizia o manifesto do cinema novo que a estética da fome, tematizando o subdesenvolvimento brasileiro, daria ao espectador a consciência de sua própria miséria? O que se buscava, pois, através da cultura popular, era levar às classes populares uma consciência crítica dos problemas sociais. Movimento que caminhava ao lado da questão nacional, pois, de acordo com o pensamento dominante, a “autêntica” cultura brasileira se exprimiria na sua relação com povo-nação. Não vem ao caso discutirmos agora os descaminhos dessa perspectiva, ou questionar a idéia de autenticidade ou inautenticidade de uma identidade que sabemos ser fruto da construção ideológica de grupos políticos que se enfrentam. Já tivemos a oportunidade de abordar esse tema em outros escritos.(21.Ver Cultura Brasileira e Identidade Nacional, op. cit.). O que nos interessa no momento é compreender em que medida o advento de uma indústria cultural vem modificar o panorama dessa discussão.
Não resta dúvida que essas visões apresentadas fazem parte da história intelectual e política brasileiras, nesse sentido elas permanecem presentes ainda hoje nos debates e na implementação de determinadas ações culturais. A perspectiva folclorista sobrevive, sobretudo, nas regiões periféricas do país, onde ocorre uma simbiose entre o popular tradicional e as políticas de cultura realizadas pelas secretarias e conselhos municipais e estaduais. Ela se encontra ainda associada a uma ideologia das agências governamentais, para as quais o argumento da tradição é fundamental na orientação de atividades que se voltam para a preservação da “memória”, dos museus, das festas populares e do artesanato folclórico. Esse tipo de argumentação legitima a ação do Estado nessas áreas, desenvolvendo uma proposta que em princípio recuperaria a memória e a identidade nacional cristalizada no tempo. A vertente mais politizada se manifesta junto a diversos setores de alguns partidos de esquerda, ou ainda em certas políticas da Igreja, onde predomina uma ideologia da “opção pelos pobres”. Esta perspectiva, é claro, vem agora reorientada politicamente, contém uma critica exaustiva ao populismo e ao vanguardismo que marcava os movimentos culturais anteriores, e no caso das comunidades de base integra elementos novos trazidos pela Teologia da Libertação.(22.Ver, por exemplo, Ed. Valle e J. Queiroz (org.), A Cultura do Povo. São Paulo, Cortez, 1979; Marilena Chaui, Conformismo e Resistência, São Paulo, Brasiliense, 1986; Política Cultural (Proposta de um Grupo de Intelectuais do Partido dos Trabalhadores), Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984. Sobre o debate do popular nos meios católicos, ver em particular a leitura que os setores da Teologia da Libertação fazem da própria história da Igreja: E. Hoornaert, R. Azzi, K. van der Grijp, B. Brod, História da Igreja no Brasil, tomo 2, Petrópolis, Vozes, 1977.). Não obstante, penso que a concepção hegemônica do que é popular, embora enfrente no campo da definições legítimas aquelas legadas pela história, tende a se modificar. A emergência da indústria cultural e de um mercado de bens simbólicos organiza o quadro cultural em novas bases e dá à noção uma outra abrangência. Tanto o ponto de vista folclorista como o outro percebem a questão popular e do nacional em termos que apontam, seja para a conservação da ordem tradicional, seja para a transformação da situação presente. No caso da moderna sociedade brasileira, popular se reveste de um outro significado, e se identifica ao que é mais consumido, podendo-se inclusive estabelecer uma hierarquia de popularidade entre diversos produtos ofertados no mercado. Um disco, uma novela, uma peça de teatro, serão considerados populares somente no caso de atingirem um grande público. Nesse sentido se pode dizer que a lógica mercadológica despolitiza a discussão, pois se aceita o consumo como categoria última para se medir a relevância dos produtos culturais. Eu diria que esta tendência se acentua quando se percebe que o mercado exige do produtor uma postura mais profissional. A relação entre cultura e política se expressava como complementaridade nos anos 50 e até meados de 60, porque vivíamos um clima de utopia política no interior de uma sociedade de mercado incipiente. Os grupos culturais podiam, desta forma, associar o fazer cultura ao fazer política. Com o golpe militar e o avanço da sociedade de consumo ocorre um desenvolvimento e uma especialização do mercado, os produtores culturais se encontram atomizados, e para se expressar enquanto tal devem se profissionalizar. Isto não significa que eles não mais irão se posicionar politicamente. Só que doravante se acentua uma dicotomia entre trabalho cultural e expressão política. Enquanto cidadãos, como o resto da população, eles poderão participar das manifestações políticas; enquanto profissionais, eles devem se contentar com as atividades que exercem nas indústrias de cultura ou nas agências governamentais.
Com a consolidação de um mercado de bens culturais, também a noção de nacional se transforma. Vimos que a consolidação da televisão no Brasil se associava à idéia de seu desenvolvimento como veículo de integração nacional; vinculava-se, desta forma, a proposta de construção da moderna sociedade ao crescimento e à unificação dos mercados locais. A indústria cultural adquire, portanto, a possibilidade de equacionar uma identidade nacional, mas reinterpretando-a em termos mercadológicos; a idéia de “nação integrada” passa a representar a interligação dos consumidores potenciais espalhados pelo território nacional. Nesse sentido se pode afirmar que o nacional se identifica ao mercado; à correspondência que se fazia anteriormente, cultura nacional-popular, substitui-se uma outra, cultura mercado-consumo. Podemos observar como se desdobra este movimento e esta ideologia quando analisamos, por exemplo, a expansão da televisão, em particular da Rede Globo, junto aos mercados regionais. A estratégia de implantação da Globo no Rio Grande do Sul, no final da década de 70, isto é, após a consolidação de sua rede nacional, é significativa. Os homens de marketing da empresa percebem que este estado é o terceiro mercado de consumo do Brasil, o que coloca a necessidade de se elaborar uma política de sua exploração. O interior gaúcho apresentava, no entanto, algumas dificuldades. A primeira, de ordem cultural, uma grande diversidade de hábitos e de gostos que fazem parte de toda uma história da população regional. A segunda, de caráter empresarial: a existência de emissoras locais (TVs Caxias-Tuiuti-Imembuí-Santa Maria-Erexim-Uruguaiana- Bagé-Gaúcha) que se desenvolveram na fase anterior à da “integração nacional”. Isto colocava para a Rede Globo um problema cultural e político na exploração desses novos mercados. A solução encontrada foi a de se formar “um sistema Regional, através dos principais pólos econômicos do Estado, adicionando em sua programação um toque local à massa de informação transmitida”.(23.“Rio Grande do Sul: um Mercado Total a Passos Largos”. Mercado Global, ano IV. Nº 34, março/abril de 1977, p. 5.). Como observa Maria Rita Kehl, “a programação da rede regional é prioritariamente a que a Rede Globo transmite para todo o país, (24.Maria Rita Kehl, op. cit., p. 66.) restando às emissoras a geração de poucos programas produzidos localmente. No entanto, o que chama a atenção é que a expansão da rede nacional se faz através da valorização do regional. O “toque local” dá um colorido folclórico, quando se apropria dos “costumes gaúchos” que em princípio constituiriam a identidade regional. Um artigo de Mercado Global é sugestivo a esse respeito; nele se afirma que “a implantação da Rede Regional de Televisão foi uma forma de impedir que o homem do campo ficasse alienado do meio em que vive, produzindo-se localmente programas que abordassem temas sobre a vida da comunidade-pólo”.(25.In Mercado Global, op. cit., p. 5.). O próprio conceito de alienação, essencial para a discussão da identidade nos anos 60, é recuperado, mas invertendo-se o problema, uma vez que a liberdade do sujeito alienado se encontraria resolvida no âmbito do mercado local. Dizer que a indústria cultural se apropria dos valores locais é, na verdade, considerar que na luta pela definição do que é legitimamente regional temos agora a entrada de uma nova força. Ruben Oliven mostra que no Rio Grande do Sul, até recentemente, a fabricação da identidade gaúcha era praticamente monopólio das correntes tradicionalistas, particularmente do Movimento Tradicionalista Gaúcho, cuja finalidade é promover e preservar os traços genuínos da região. Movimento que realiza diversas atividades, como Semana Farroupilha, bailes tradicionais, peças teatrais, possui um instituto de folclore, além de combater as influências julgadas “nefastas” para o caráter gaúcho. Porém, dentro do quadro de mudanças sócio-econômicas por que passa o estado, “o Movimento Tradicionalista Gaúcho não consegue controlar todas as expressões culturais do Rio Grande do Sul, nem disseminar hegemonicamente sua ideologia. Os tempos são outros e ser gaúcho deixou de ser exclusividade dos Centros de Tradições Gaúchas”.(26.Ruben Oliven, “A Fabricação do Gaúcho”, Cadernos do CERU, série II, nº 1, maio de 1985.). No caso da implantação da rede nacional de televisão, temos agora um complicador, uma vez que o veículo,
como agente da modernidade, vai concorrer com as imagens produzidas pela consciência regional. O novo Ser local somente existe quando vinculado à realidade do mercado nacional. Este processo de apropriação das identidades pode ser também observado no caso de Minas Gerais. Ronaldo Noronha e Francisco Jacob mostram que, vencida a fase de consolidação nacional da televisão brasileira, surge a necessidade de se explorar os mercados regionalmente. Dentro deste quadro é importante para que o regional seja resgatado a partir do olhar e das idéias do centro. A proposta que a Rede Globo aplicou em Minas Gerais foi de substituir a velha idéia de mineiridade, marcada por uma definição provinciana e paroquial, por uma “nova mineiridade construída a partir dos restos da antiga identidade, hoje inviável e irreal em face das transformações sociais que Minas Gerais experimentou nas últimas décadas, [mas] sob a influência do moderno, do cosmopolitismo e da massificação social”.(27.Ronaldo Noronha, Francisco Jacob, “O imaginário Televisivo ou a re-Criação de uma identidade Mineira”, 9º Encontro da ANPOCS, Grupo Sociologia da Cultura Brasileira, São Paulo, Águas de São Pedro, outubro de 1985, p. 5, mimeo.). Na inexistência de emissoras locais, como no caso do Rio Grande do Sul, a hegemonia tem que ser construída no plano exclusivo do simbólico, integrando-se os valores internalizados pela população: culinária, arquitetura barroca, tradição.
Não é somente na área da televisão que ocorre esta identificação entre cultura popular de massa e cultura nacional, este traço de união está vinculado à idéia de positividade da cultura que se produz — fascículos, discos, filmes, etc. O exemplo da indústria cinematográfica brasileira é significativo. Toda a política e a ideologia do Instituto Nacional do Cinema e posteriormente da EMBRAFILME expressa a necessidade de desenvolvimento de uma filmografia voltada para o mercado. Por isso o cinema de autor, em particular o cinema novo, será o alvo principal das críticas, uma vez que sua característica artística, seu código estético, implicava a restrição do público consumidor. Para os intelectuais da nova indústria cinematográfica, o esteticismo e a arte (na sua dimensão política ou não) se associavam ao “elitismo” dos pequenos grupos, em contraposição à “comunicação universal” do mercado. Carlos Mattos Jr., ao descrever a realidade do cinema brasileiro na década de 70 dirá: “Ele saiu de uma fase em que a multiplicidade de realizações experimentais e contestatórias provocou a retração do público. Agora há uma franca procura de narrativas de fácil aceitação popular”.(28.Carlos Mattos Jr., “Diálogos de planejamento”, Filme e Cultura, nº 21, julho/agosto de 1972.). Dito de outra forma, o cinema brasileiro encontra finalmente o seu caminho e a sua vocação no entretenimento. Dentro dessa perspectiva, a idéia de mercado adquire um peso desproporcional. Gustavo Dahl, ao procurar diagnosticar os problemas que enfrenta o filme brasileiro, parte do princípio de que a ambição primeira de um pais é ter um cinema que fale sua língua, independente do critério de maior ou menor qualidade cultural. Mas, “para que o país tenha um cinema que fale a sua língua é indispensável que ele conheça onde essa linguagem vai se exercitar. Esse terreno é realmente o seu mercado. Neste sentido explícito, é válido dizer que mercado é cultura, ou seja, que o mercado cinematográfico brasileiro é objetivamente a forma mais simples da cultura brasileira”.(29.Gustavo Dahl, “Mercado é Cultura”, Cultura, nº 24, janeiro/março de 1977.).
A citação é interessante. Por um lado, ao identificar cultura ao mercado, o que se está fazendo não é somente exprimir uma realidade que toca a área cinematográfica; é todo o espírito de uma época que se enuncia. Mas ela possui ainda uma outra face; Gustavo Dahl, ao se referir à língua portuguesa como expressão da nacionalidade, está recuperando a antiga idéia que orientava o movimento cultural dos anos 50/60, onde a problemática nacional se colocava com toda força. Os defensores do cinema brasileiro sempre privilegiaram a problemática da língua, da fala nacional, como forma de se contrapor ao cinema estrangeiro, ao processo de “alienação cultural” pelo qual passava o país. Diziam eles que, para reencontrarmos nosso Ser, era necessário voltarmos para o idioma nacional, fonte inequívoca de nossa autenticidade. E dentro desta perspectiva que se deve entender uma afirmação como “todo filme brasileiro é bom, independentemente de sua qualidade”, princípio que condensava uma luta contrária à penetração das influências colonialistas, e aludia às dificuldades de se fazer cinema numa sociedade com poucos recursos tecnológicos. Acontece, porém, que a mesma afirmativa reaparece agora num contexto radicalmente diferente. Da mesma forma que o discurso dos intelectuais da televisão se apropriam da questão nacional e regional, temos uma recuperação de valores que no passado eram concebidos como elementos contestatórios. Como fica dentro deste novo quadro a problemática do nacional? Em que medida a idéia de projeto, com a qual iniciamos nossa reflexão, se modifica? Penso que é possível considerar este ponto se focalizarmos particularmente um aspecto para discussão, a idéia de realismo, que a meu ver é uma dimensão sugestiva para compreendermos como se dão as mudanças no campo cultural brasileiro. Para tanto, procurarei considerar primeiramente a relação entre industria cultural e realismo, em seguida passarei para a discussão sobre realismo e critica. Só depois retomarei a problemática do nacional, relevante para nosso debate.
A relação entre indústria cultural e realismo tem sido apontada por vários autores, particularmente no que diz respeito ao cinema. Janet Staiger observa que desde o início da formação da indústria cinematográfica nos Estados Unidos, ainda em torno de 1910, quando se desenvolve a primeira fase do star system, a ênfase no elemento realístico era sobretudo incentivada pelas publicidades dos filmes. Novidade, realismo, espetáculo, estrelas, eram partes necessárias para se compor um padrão de qualidade que pudesse ser absorvido pelo mercado. Realismo como autenticidade, a ponto de os “jornais de comércio promoverem este valor encorajando os consumidores a escreverem sobre os erros que percebessem nos filmes”.(30.Janet Staiger, “The Hollywood Mode of Production to 1930”, in The Classical Hollywood Film, Nova Iorque, Columbia University Press, 1985, p. 100.). Realismo que, segundo Staiger, influenciou inclusive a mudança no modo de produção cinematográfica entre 1909 e 1914, deslocando o processo de filmagem de Nova Iorque para Los Angeles, pois, devido a seu apelo, muitos filmes eram feitos em locações fora do estúdio, o que implicava em viagens e problemas por causa do mau tempo. Como a costa Oeste não possui um inverno rigoroso, e tem paisagens diferenciadas, vários filmes começaram a ser rodados ali. Los Angeles tinha ainda a vantagem de ser um centro teatral relativamente importante, o que facilitava o recrutamento da mão-de-obra. Porém, esta busca pela autenticidade tem limites determinados, inclusive técnicos, somente a partir de 1930, se observa uma alteração substantiva no conteúdo e na forma dos filmes, mudanças que alguns autores definiram como uma tendência para o realismo. A descoberta do som torna o clima dos filmes ainda mais realista, mas é necessário, para que a indústria evolua, uma transformação do próprio sistema de estrelas. Na medida em que existe um crescimento do público, os grandes estúdios se esforçam para responder da melhor maneira ao maior número de demandas particulares possíveis. Como afirma Edgar Morin, “o imaginário burguês se aproxima do real multiplicando os sinais de verossimilhança e de credibilidade. Ele atenua ou mina as intrigas que se esforçam em se tornar plausíveis. Daí o que se chama realismo. Os apelos do realismo são de menos em menos os acasos, a possessão do herói por uma força oculta, e de mais em mais as motivações psicológicas”. Isto significa que os gêneros populares que floresciam em domínios compartimentados têm que ser misturados. Primeiro, com as mudanças dos temas, que passam do folhetim e do melodrama para um realismo psicológico. Isto porque os heróis do folhetim eram “especializados”, encarnavam determinados tipos, o “bem”, o “mal”, diziam respeito somente a uma parcela da sociedade, forma ficcional que entra em colisão com a necessidade de se ampliar o mercado, que exige uma multiplicação dos temas (amor, aventura, comédia) dentro de uma mesma narrativa. Segundo, com a transformação do próprio tipo de herói forjado pela mitologia do cinema mundial até os anos 30. Um arquétipo como a vamp dá nascimento a diversos subarquétipos, eu diria estereótipos, como a good-bad-girl. O arquétipo não possui, na verdade, uma existência real, ele condensa uma gama de traços gerais que constituem um tipo abstrato; neste sentido, a vamp reflete mais uma projeção, de desejos masculinos e femininos, encarnando um tipo de mulher fatal que sofre, vive seus problemas, arruína os homens que por elas se apaixonam, mas que na verdade não pode ser identificada a uma realidade particular. Precisamente por causa deste elemento de “abstração”, ela tinha os seus dias contados dentro do novo quadro da indústria cultural; esta mulher semifantástica, que se distancia da dona-de-casa ou da mulher profissional, na sua frigidez destrutiva, dificilmente poderia se adaptar aos tempos da verossimilhança sem cair no ridículo de ser reduzida a traços genéricos como a piteira, o vestido negro colante, o olhar sedutor. O estereótipo possui uma outra qualidade, ele mistura partes do real, e tem uma dimensão concreta que identifica o tipo produzido a determinadas situações vividas. A good-bad-girl capta sinais do mundo que nos cerca, o lado “bom” e o lado “ruim” da personalidade, permitindo à espectadora de alguma forma se refletir nela, identificando-se com um comportamento que se apresenta como pretensamente mau, embora se revele como bom no final da película. Em contraposição à “garota-boa-ruim”, é possível dizermos da vamp o que Adorno falava do palhaço da comédia dell’arte, seus “tipos estavam tão afastados da existência cotidiana do público que a ninguém ocorreria passar a ajustar o seu comportamento conforme aqueles clowns mascarados”.(31.Adorno, “Televisão, Consciência e Indústria Cultural”, in Gabriel Cohn (org.), Comunicação e Indústria Cultural, São Paulo, Cia. Ed. Nacional. 1975. p. 353.). Esta mudança no padrão do herói cinematográfico, que também ocorre nas comédias “pastelão”, nas quais o tipo principal é substituído por personagens de consistência mais críveis, pode ser observada também na forma de se filmar uma estória. Prokop chama a atenção para o fato de que “as perseguições do slapstick mostram como numa corrida de carros, uma roda que se afasta do veículo é perseguida com a bicicleta nas situações mais impossíveis, com esforços fantásticos e cheios de imaginação, até que seja montada com extremo cuidado no carro em movimento. No filme de hoje a roda escapa realisticamente… mesmo quando se dirige com o carro na diagonal, tudo permanece realista, pois o motorista poderia possuir de fato essa habilidade em sua profissão. Tudo é mostrado de forma realista: quem cai, cai mesmo, e quem sai fora da estrada se carboniza no veículo que rola”. (32.Dieter Prokop, “Ensaio sobre Cultura de Massa e Espontaneidade”, in Ciro Marcondes (org.), op. cit., p. 124.).
Em que medida esse tipo de realismo se afasta ou se aproxima de uma perspectiva crítica? A pergunta já foi levantada várias vezes, particularmente quando se considera filmes de autores como Eisenstein ou movimentos como o neo-realismo italiano. André Bazin já havia definido como realista todo recurso narrativo tendendo trazer e adicionar uma medida de realidade à tela. Nesse sentido, “a realidade não deve ser tomada quantitativamente. O mesmo acontecimento, o mesmo objeto, pode ser representado de várias maneiras. Cada representação descarta ou retém várias qualidades que nos permitem reconhecer o objeto na tela. Cada uma introduz, por razões didáticas ou estéticas, abstrações que operam mais ou menos corrosivamente e desta forma não permitem ao original subsistir em sua inteireza. Como conclusão desta inevitável e necessária ação química, a realidade inicial é substituída por uma ilusão de realidade composta por um complexo de abstrações (branco e preto, plano de superfície), de convenções (regras de montagem) e de realidade autêntica”.(33.André Bazin, “An Aesthetic of Reality”, in What is Cinema?, Berkeley, University of California Press, vol. II, 1971, p. 27. Ver ainda Sergei Eisenstein, La Forma del Cine, México, Siglo XXI, 1977.). Essa idéia de construção da realidade, de sua ilusão, é que permite a um autor como Eisenstein procurar interpretá-la teoricamente, transmitindo para o espectador um conhecimento reflexivo sobre a realidade projetada. Como afirma Bazin, o Encouraçado Potemkin revolucionou o cinema não tanto por sua mensagem política, mas porque o “realismo” dos filmes soviéticos da época se mostrava mais estético do que os melhores trabalhos dos artistas do expressionismo alemão. Eu diria que esse tipo de perspectiva, que trabalha a pluralidade de apresentações de um mesmo objeto, se contrapõe ao “realismo reflexo” (34.Retomo a expressão de Prokop, op. cit.) da indústria cultural, o qual em princípio procura consagrar uma única versão da realidade, eliminando qualquer tentativa de reflexão sobre ela. Os filmes do neo- realismo italiano propunham uma leitura social que necessariamente implicava o distanciamento do espectador em relação à sua posição atual. O real mostrado na tela deslocava a atenção do público, colocando-o na situação incômoda de ter ou não que tomar partido (e não simplesmente gostar ou desgostar) sobre o que lhe era proposto. O realismo reflexo, ao contrário, reforça as demandas subjacentes às exigências do espectador, ele “cola” à realidade já preexistente. É a falta de distância que lhe retira o caráter reflexivo.
Não obstante, se podemos estabelecer uma fronteira teoricamente nítida entre esses dois gêneros de realismo, não deixa de ser verdade que em vários casos concretos essa separação se dilui, ocorrendo uma passagem entre os pólos. Um exemplo é a invenção da fotonovela, que surge como um subproduto do neo-realismo italiano. Cino DelDuca é produtor de filmes e procura introduzir através da fotografia um elemento de cotidiano junto à narrativa das estórias ilustradas para mulheres. Claro, pode-se sempre argumentar que com isso ocorre um redimensionamento das preocupações críticas do neo-realismo, que buscava uma reflexão sobre a humanidade dos tipos que descrevia, e não simplesmente ilustrar com dados da realidade uma estória de amor. Mas não deixa de ser interessante observar que historicamente existe uma correlação entre duas formas de produzir a realidade, que em princípio deveriam ser consideradas como diametralmente opostas. Mas não é somente no caso da Itália que isto se passa. Richard Pells, quando analisa a história da cultura radical nos Estados Unidos, aponta para o mesmo fenômeno. Os intelectuais de esquerda, que saíram do Worker’s Theater para Hollywood, partilhavam em grande medida das mesmas preocupações da indústria cultural. Ao considerarem, na tradição da novela realista para trabalhadores, como características fundamentais de uma peça de teatro, a sua simplicidade, a preparação mínima dos diálogos e das situações, a fim de que os oprimidos pudessem entender mais facilmente o enredo, e se identificarem com a realidade, de uma certa forma eles estavam retomando, querendo ou não, uma boa parte das premissas da cultura popular de massa. “Desta forma, desde o início, o caminho entre a Union Square e Hollywood estava pavimentado de uma maneira relativamente fácil”.(35.Richard Pells, Radical Visions American Dreams: Culture and Social Thought in the Depression Years, Connecticut. Wesleyan University Press, 1984, p. 254.). O que efetivamente ocorreu, com vários cineastas americanos de esquerda que, rejeitando os filmes “estéticos” (Sternberg, Griffith, etc.), buscaram na indústria do cinema maximizar os efeitos do real, na ilusão de estarem transmitindo ao espectador uma consciência crítica do mundo.
Se é possível apontar nos países europeus e nos Estados Unidos uma confusão de fronteiras entre o realismo da indústria cultural e os movimentos críticos, muito embora teoricamente proceda a distinção entre um realismo reflexo e outro reflexivo, eu diria que no caso brasileiro esta interpenetração de domínios se dá de maneira mais acentuada. Entre nós, a discussão sobre o realismo passa por um problema anterior, o da construção de uma “realidade” brasileira; a questão nacional coloca um elemento que redimensiona o debate que estávamos considerando. São vários os exemplos que podem ser considerados. Vejamos o caso dafotonovela.(36.Ver Angeluccia Habert, op. cit.). Da mesma forma que na Itália, este gênero de narrativa visa um público feminino urbano, procurando apreendê-lo dentro de um mundo moderno que diga respeito à sua realidade cotidiana. Angeluccia Habert observa que esse movimento de “modernização vai ser realizado na direção de uma aproximação da época contemporânea e de ambientes urbanos, além de introduzir uma linguagem mais coloquial”.(37.Idem, p. 28.). São ainda estimulados novos tipos de práticas e de crenças, que se contrapõem às “superstições” do passado; os horóscopos, a leitura de mãos, a grafologia, os testes de psicologia, são formas cientifizadas de conhecimento e de ação no mundo, mais adequadas aos tempos. Dessa forma, a pesquisa, isto é, o avanço tecnológico, e a psicologia, que prescreve conselhos fundamentados na autoridade científica, são colocados à disposição do leitor. Porém, este movimento de aproximação do leitor, no caso brasileiro, tem um elemento adicional. Como as fotonovelas são importadas, a busca da realidade passa por um processo de nacionalização do texto, das temáticas, e da própria estrutura da linguagem. No início, revistas como Grande Hotel e Capricho praticamente copiavam as estórias adquiridas junto à matriz italiana, mas a necessidade de se conquistar um público nacional logo implicou em mudanças substanciais. Primeiro a nível da própria seleção dos textos a serem traduzidos. Contrariamente ao gosto popular europeu, que cultiva as estórias de aristocratas e plebeus, herança do antigo romance de folhetim, privilegia-se os personagens urbanos como os industriais, os homens de negócio, os membros das profissões liberais. Segundo, substitui-se a nacionalidade estrangeira do texto matriz pela nacionalidade brasileira, acentuando-se o caráter local do herói. À medida que as agências produtoras de fotonovela se desenvolvem, este processo se acelera, e os ídolos dos meios de comunicação, que no início dos anos 50 estavam fora do imaginário fotonovelístico, passam a integrá-lo. Não deixa de ser interessante observar que em 1958, quan-do surge Sétimo Céu, ela nasce apoiada no mundo do rádio e da televisão nacional. Seus editores têm consciência deste caráter brasileiro que querem promover e, alguns anos mais tarde, fazendo um balanço do sucesso da revista, escrevem em editorial: “Quando há alguns anos nos lançamos na aventura de produzir fotonovelas brasileiras, com artistas brasileiros, em ambientes brasileiros, segundo argumentos de autores brasileiros, não faltou quem duvidasse do nosso êxito. Afinal, para que produzir no Brasil o que podemos importar pronto do estrangeiro, perguntavam os descrentes. Hoje, é com orgulho que podemos proclamar, pela aceitação cada vez maior de nossa revista, a vitória desta nossa política de valorização do que é brasileiro”.(38.Idem, p. 25.).
Essa progressão em relação ao nacional também pode ser observada ao longo da história da televisão no Brasil. No início dos anos 50, sua consolidação se fundamentava na vontade pioneira de alguns empresários; por isso o veículo será criticado por muitos como alienado, isto é, como fora da “realidade” brasileira. O caso do teleteatro é exemplar. Até o final da década ele praticamente era modelado pela literatura e pela dramaturgia internacional. Como observa Flávio Porto e Silva, “predominavam os textos estrangeiros, muitos deles em razão do sucesso obtido em versões cinematográficas, cujos roteiros cedidos pelas distribuidoras, eram adaptados para a televisão. Este predomínio de textos estrangeiros e cinematográficos, é explicado segundo alguns produtores pela influência direta do cinema na época e pelas dificuldades em retratar uma realidade brasileira”. (39.Flávio Porto e Silva, O Teleteatro Paulista nas Décadas de 50 e 60, op. cit., p. 70.). Dificuldades reais, que se enraizavam na precariedade tecnológica, empresarial e profissional do período. É somente no início dos anos 60, aproveitando-se as inovações dramatúrgicas introduzidas pelo teatro, que autores como Oduvaldo Viana Filho, Osman Lins, Plínio Marcos, Vinícius de Morais, ou adaptações de livros de Antônio Callado e Jorge Amado passam a ser integrados com regularidade na programação. Oclima nacionalista da TV Excelsior favorece no início uma série de programações que valorizam o escritor e a realidade nacional; por exemplo, a proposta do Teatro 63, que visava combater as temáticas estrangeiras, e procurava se aproximar do cotidiano, apresentando no vídeo “gente que pudesse ser vista na rua mesmo”. (40.Depoimento de Walter Durst in O Teleteatro Paulista, op. cit. p. 80.). Um autor como Walter Durst, que dirige essa experiência teatral durante seu curto período de existência, quando se vê obrigado, por razões econômicas, a passar da produção do teleteatro para a telenovela, pondera a respeito do “preconceito” que os intelectuais tinham em relação a esse gênero: “Por que essa coisa contra a novela? Porque a novela estava começando naquele momento e estava repetindo o processo anterior. Ela era puramente alienada, totalmente alienada. Ela tinha acabado de nascer em 63, assim como uma coisa de todo dia, com essa obsessão que a novela tem, e transplantada da Argentina. Isso explica nosso nariz erguido, dizendo, puxa vida, em não fazer novela. Nós que já tínhamos conquistado, saído da alienação para chegar numa realidade brasileira, e de repente, voltou tudo pra trás”.(41.Depoimento de Walter Durst (IDART: história da telenovela).).
O depoimento é interessante. Ele pressupõe dois momentos. Um primeiro, de alienação, isto é, a fase estrangeira do teleteatro que é superada, um segundo, de retomada da dimensão alienadora, agora dentro de um outro tipo de narrativa. Não resta dúvida que o desenvolvimento da telenovela nos anos 60 de alguma forma repete o que ocorre com o teleteatro na década de 50, se tomarmos como parâmetro, é claro, a autoria dos textos encenados. De fato, com o surgimento de sua programação diária, transplanta- se para o Brasil a fórmula já testada em outros países latino-americanos, privilegiando-se os “dramalhões” escritos em Cuba, México e Argentina. Pode-se afirmar que entre 1964 e 1968 existe um padrão a ser seguido, o melodrama, que funciona como referência inclusive para autores brasileiros como Ivani Ribeiro e Janete Clair, que já possuíam experiência em escrever radionovelas dentro da mesma linha. É somenteno final da década que os escritores nacionais começam a se consagrar como roteiristas de telenovelas, mas, sintomaticamente, justamente no momento em que a discussão sobre o realismo ressurge no campo da televisão. Daniel Filho se refere a esta mudança da seguinte maneira: “… foi quando deixei de imitar a história estrangeira e comecei a fazer a brasileira. Quando deixei de imitar a problemática de um toureiro e comecei a fazer a história de um jogador de futebol. O nosso gângster é o Mineirinho. E esse tipo de coisa nos trouxe não só qualidade, mas trouxe também verdade. E assim acho que trouxe cultura para a novela. A televisão deve ser um espelho que mostre a verdade em que você vive. Então a televisão é a sua realidade”.(42.Entrevista com Daniel Filho, Opinião, 27 de agosto- 3 de setembro, 1973, p. 21.). Realismo que pode ser elaborado somente nos anos 70, quando a televisão brasileira adquire uma qualidade empresarial e tecnológica, possibilitada pela filmagem de cenas externas, edição eletrônica, acompanhamento minucioso das cenas, pesquisas, o que permite uma aproximação convincente do mundo do telespectador. A fala de Daniel Filho é paradigmática. Ela marca uma reorientação das novelas de televisão consagrando um estilo realista que contrasta com o padrão do melodrama. Instaura-se, a partir de então, uma divisão entre novelas consideradas “boas” e aquelas percebidas como “alienadas”, na linha do velho folhetim do século passado. O testemunho de Jorge Andrade é exemplar: “Eu acho que a telenovela está formando uma dramaturgia televisiva no Brasil. Eu me refiro, é claro, àquelas que tentam contar alguma coisa de nossa realidade, colocando os problemas brasileiros. Não me refiro às que estão presas ao Ibope, prendendo o público com chavões costumeiros e demais besteiras. Eu me refiro às novelas como Gabriela, do Durst, ou as do Dias Gomes, que sempre contam alguma coisa que realmente interessa ao povo brasileiro. E claro que existem as novelas alienantes e alienadoras, subliterárias e burras, mas essas mesmas eu não conto”. (43.Depoimento de Jorge de Andrade (IDART: história da telenovela).). Também uma crítica da televisão como Helena Silveira, partilha deste ponto de vis-ta, tomando partido das novelas “sem alienação”, “engajadas na realidade”, que ela cuidadosamente diferencia dos melodramas, escritos preferencialmente por autores como Janete Clair e Ivani Ribeiro, e que apelam para “o sonho, a fantasia e a irrealidade” para captar o público. Preocupada em desenvolver sua argumentação, Helena Silveira apresenta um argumento que lhe parece irrefutável: “O real dá mais bilheteria do que a fantasia” . (44.Depoimento de Helena Silveira(IDART: história da telenovela).). Dito de outra forma, as novelas realistas se adequam melhor à demanda do “povo” no mercado.
A contraposição que os intelectuais fazem entre a novela realista e o melodrama pode ser entendida de várias maneiras. Uma primeira revela a existência de uma tensão no campo dos produtores da televisão, e mostra uma disputa entre posições que valorizam de forma diferenciada o gênero em questão. Na luta pela legitimidade do que viria a ser a forma correta de se fazer novela, o pólo do realismo se identifica às demandas da sociedade e se distancia do passado, das velhas fórmulas herdadas da tradição. Os novos intelectuais são mais modernos que os anteriores. Porém, o confronto aponta para mudanças de caráter estrutural que me parecem análogas às que ocorreram com o cinema mundial na década de 30. Como havia observado Morin, a exigência de uma narrativa mais realista tem a ver com a consolidação da indústria cultural que se vê na necessidade de atender a demanda de um público diferenciado. O melodrama tinha o inconveniente de estar restrito a uma temática feminina, estrangeira; portanto, distante do interesse de platéias especializadas como os homens ou os jovens. Por isso, da mesma forma que os filmes pós-30 começam a misturar gêneros diferentes na mesma projeção, a novela passa a retratar uma quantidade de subtemas com apelos específicos para os públicos-alvo que se quer conquistar (mistura de personagens, temáticas para jovens, homens, mulheres, pessoas de idade, etc.). É esta exigência do mercado que assegura ao realismo uma “maior bilheteria” do que as estórias fantasiosas do passado.
No entanto, o que chama a atenção no discurso que justifica esse novo tipo de produção é que as razões de mercado se encontram encobertas, legitimadas por uma perspectiva superficialmente política e nacionalista. Política, porque muitos intelectuais da televisão, provenientes dos movimentos culturais dos anos 50 e 60, carregam com eles a mesma ideologia sobre o “povo alienado”, só que agora aplicado a um contexto inteiramente deslocado. Dias Gomes, resumindo sua trajetória, dirá: “Faço parte de umageração de dramaturgos que levantou entre os anos 50 e 60 a bandeira quixotesca de um teatro político e popular. Esse teatro esbarrou numa contradição básica: era um teatro dirigido a uma platéia popular, mas visto unicamente por uma platéia de elite. De repente a televisão me ofereceu essa platéia popular”.(45.Entrevista com Dias Gomes, Opinião, 26 de fevereiro-4 de março, 1973, p. 19.). A nível da ideologia professada, tudo se passa como se a televisão fosse não só o prolongamento das perspectivas utópicas que nortearam a produção cultural das décadas anteriores, mas ainda o locus privilegiado de um trabalho político voltado para as massas. Nacionalista, na medida em que a proposta de construção de uma linguagem, de uma dramaturgia brasileira, encontra na televisão um espaço para se realizar. A fala de Guarnieri é, nesse sentido, ilustrativa: “Eu acho que é na televisão que o ator aprendeu a interpretar dentro dos padrões de atuação brasileiros, imitando o homem, brasileiro, a realidade brasileira, pela qual nós tanto lutamos no teatro de Arena, Oficina, etc. Ou seja, deixar a impostação do teatro estrangeiro e viver mais a nossa realidade de interpretação. Eu vejo isso hoje na televisão, e era o que nós pregávamos em 55 e 66. No teatro daquela época o ator não podia dar as costas ao público, não podia se coçar, não podia ter certas naturalidades que foram quebradas pela televisão. Eu vejo a televisão como um lugar de interpretação naturalista, como um certo relax, sem tensões, dentro do mais real possível”.(46.Depoimento de Gianfrancesco Guarnieri (IDART: história da telenovela).). Não é difícil apontarmos para vá-rias contradições no discurso de Guarnieri ou de Dias Gomes, basta compará-los com as posições que os autores defenderam no passado, ou com a euforia dos movimentos culturais dos anos 50/60, mesmo na sua vertente mais populista.(47.Ver, por exemplo, entrevista com Guarnieri, in Encontros com a Civilização Brasileira, nº 1, julho de 1978.). Seria ingenuidade acreditar que a ideologia do nacional-popular se exprime política e culturalmente no interior da indústria cultural. O importante, porém, é entendermos como a contradição é resolvida pelos autores. A proposta do nacional-popular, quando enunciada no contexto da cultura popular de massa, conserva categorias teóricas do passado que adquirem agora uma função justificadora do funcionamento da indústria cultural. Se levarmos a sério sua perspectiva, temos que aceitar a idéia de que a cultura se “desalienou” na medida em que o Ser nacional se realizou. Mas é também possível uma interpretação paralela a essa. A noção de ideologia pressupõe a existência de um universo autônomo, separado da realidade. E esta contradição que permite contrapormos realidade e ilusão, no sentido de falsa consciência. Como não há dúvidas sobre a consolidação de uma indústria da cultura de caráter nacional, aceitarmos que a realidade da sociedade seja idêntica à proposta do realismo nacional-popular significa admitir que a identidade brasileira se efetivou. Dentro desse raciocínio não haveria mais oposição entre o que se propunha realizar e o que se alcançou, e a própria noção de alienação deixaria de fazer sentido. O que os intelectuais do nacional-popular não perceberam é que eles são presas de um discurso que se aplicava a uma outra conjuntura da história brasileira, e são, portanto, incapazes de entender que a ausência da contradição os impede inclusive de tomar criticamente consciência da sociedade moderna em que vivem.

O mercado de bens simbólicos

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira

 

Se os anos 40 e 50 podem ser considerados como momentos de incipiência de uma sociedade de consumo, as décadas de 60 e 70 se definem pela consolidação de um mercado de bens culturais. Existe, é claro, um desenvolvimento diferenciado dos diversos setores ao longo desse período. A televisão se concretiza como veículo de massa em meados de 60, enquanto o cinema nacional somente se estrutura como indústria nos anos 70. O mesmo pode ser dito de outras esferas da cultura popular de massa: indústria do disco, editorial, publicidade, etc. No entanto, se podemos distinguir um passo diferenciado de crescimento desses setores, não resta dúvida que sua evolução constante se vincula a razões de fundo, e se associa a transformações estruturais por que passa a sociedade brasileira. Creio que é possível apreendermos essas mudanças se tomarmos como ponto para reflexão o golpe militar de 64.(1.Retomo neste ponto minha argumentação desenvolvida no capítulo “Estado Autoritário e Cultura”, in Cultura Brasileira e Identidade Nacional. op. cit.). O advento do Estado militar possui na verdade um duplo significado: por um lado se define por sua dimensão política; por outro, aponta para transformações mais profundas que se realizam no nível da economia. O aspecto político é evidente: repressão, censura, prisões, exílios. O que é menos enfatizado, porém, e que nos interessa diretamente, é que o Estado militar aprofunda medidas econômicas tomadas no governo Juscelino, às quais os economistas se referem como a segunda revolução industrial” no Brasil. Certamente os militares não inventam o capitalismo, mas 64 é um momento de reorganização da economia brasileira que cada vez mais se insere no processo de internacionalização do capital; o Estado autoritário permite consolidar no Brasil o “capitalismo tardio”. Em termos culturais essa reorientação econômica traz conseqüências imediatas, pois, paralelamente ao crescimento do parque industrial e do mercado interno de bens materiais, fortalece-se o parque industrial de produção de cultura e o mercado de bens culturais.

Evidentemente a expansão das atividades culturais se faz associada a um controle estrito das manifestações que se contrapõem ao pensamento autoritário. Neste ponto existe uma diferença entre o desenvolvimento de um mercado de bens materiais e um mercado de bens culturais. O último envolve uma dimensão simbólica que aponta para problemas ideológicos, expressam uma aspiração, um elemento político embutido no próprio produto veiculado. Por isso, o Estado deve tratar de forma diferenciada esta área, onde a cultura pode expressar valores e disposições contrárias à vontade política dos que estão no poder. Mas é necessário entender que a censura possui duas faces: uma repressiva, outra disciplinadora. A primeira diz não, é puramente negativa; a outra é mais complexa, afirma e incentiva um determinado tipo de orientação. Durante o período 1964- 1980, a censura não se define exclusivamente pelo veto a todo e qualquer produto cultural; ela age como repressão seletiva que impossibilita a emergência de um determinado pensamento ou obra artística. São censuradas as peças teatrais, os filmes, os livros, mas não o teatro, o cinema ou a indústria editorial. O ato censor atinge a especificidade da obra, mas não a generalidade da sua produção. O movimento cultural pós-64 se caracteriza por duas vertentes que não são excludentes: por um lado se define pela repressão ideológica e política; por outro, é um momento da história brasileira onde mais são produzidos e difundidos os bens culturais. Isto se deve ao fato de ser o próprio Estado autoritário o promotor do desenvolvimento capitalista na sua forma mais avançada.

Seria importante aprofundarmos mais a questão da censura. Qualquer pessoa que se interesse pela história cultural brasileira deste período tem que enfrentá-la. O importante, porém, é dimensionar seus efeitos, e não confundir sua atuação tópica (que é real e consideraremos posterior-mente no capítulo 6) e a dimensão estrutural do mercado de bens culturais. Tomemos como base de raciocínio a Ideologia da Segurança Nacional, que constitui o fundamento do pensamento militar em relação à sociedade. Resumidamente se pode dizer que essa ideologia concebe o Estado como uma entidade política que detém o monopólio da coerção, isto é, a faculdade de impor, inclusive pelo emprego da força, as normas de conduta a serem obedecidas por todos. Trata-se também de um Estado que é percebido como o centro nevrálgico de todas as atividades sociais relevantes em termos políticos, dai urna preocupação constante com a questão da “integração nacional”. Uma vez que a sociedade é formada por partes diferenciadas, é necessário pensar uma instância que integre, a partir de um centro, a diversidade social. De uma certa forma, o que a Ideologia da Segurança Nacional se propõe é substituir o papel que as religiões desempenhavam nas “sociedades tradicionais”. Nessas sociedades, o universo religioso soldava organicamente os diferentes níveis sociais, gerando uma solidariedade orgânica entre as partes, assegurando a realização de determinados objetivos. Não é por acaso, quando lemos os documentos dos militares, que toda sua apresentação gira em torno de idéias como solidariedade (no sentido durkheimiano de coesão social) e “objetivos nacionais”, isto é, as metas a serem atingidas. Procura-se garantir a integridade da nação na base de um discurso repressivo que elimina as disfunções, isto é, as práticas dissidentes,organizando-as em torno de objetivos pressupostos como comuns e desejados por todos. No entanto, como observa Joseph Comblin, esse Estado de Segurança Nacional não detêm apenas o poder de repressão, mas se interessa também em desenvolver certas atividades, desde que submetidas à razão de Estado.(2.Ver Joseph Comblin, A Ideologia da Segurança Nacional, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980.).Reconhece-se, portanto, que a cultura envolve uma relação de poder, que pode ser maléfico quando nas mãos de dissidentes, mas benéfico quando circunscrito ao poder autoritário. Percebe-se, pois, claramente a importância de se atuar junto às esferas culturais. Será por isso incentivada a criação de novas instituições, assim como se iniciará todo um processo de gestação de uma política de cultura. Basta lembrarmos que são várias as entidades que surgem no período — Conselho Federal de Cultura, Instituto Nacional do Cinema, EMBRAFILME, FUNARTE, Pró-Memória, etc. Reconhece-se ainda a importância dos meios de comunicação de massa, sua capacidade de difundir idéias, de se comunicar diretamente com as massas, e, sobretudo, a possibilidade que têm em criar estados emocionais coletivos. Com relação a esses meios, um manual militar se pronuncia de maneira inequívoca: “bem utilizados pelas elites constituir-se-ão em fator muito importante para o aprimoramento dos componentes da Expressão Política; utilizados tendenciosamente podem gerar e incrementar inconformismo”.(3.Manual Básico da Escola Superior de Guerra, Departamento de Estudos MB-75,ESG, 1975, p. 121.). O Estado deve, portanto, ser repressor e incentivador das atividades culturais.

Se compararmos a ditadura militar ao Estado Novo podemos apreender algumas analogias e diferenças que esclarecem o papel do Estado em relação à cultura. Nas duas ocasiões, 37 e 64, o que define sua política é uma visão autoritária que se desdobra no plano da cultura pela censura e pelo incentivo de determinadas ações culturais. Da mesma forma que o governo militar desenvolve atividades na esfera cultural, Vargas cria uma série de instituições como o Instituto Nacional do Livro, o Instituto Nacional do Cinema Educativo, museus, bibliotecas, além de sua atuação decisiva na área do ensino. Ao lado dessa plêiade de promoções o braço repressor do DIP não deixa de se manifestar. Talvez pudéssemos dizer que o Estado militar tem uma atuação mais abrangente, uma vez que a política cultural de Capanema tinha limites impostos pelo próprio desenvolvimento da sociedade brasileira. Porém, o que diferencia esses dois momentos é que em 64 o regime militar se insere dentro de um quadro econômico distinto. A relação que se estabelece, portanto, entre ele e os grupos empresariais é diferente, eu diria, mais orgânica, pois somente a partir da década de 60 esses grupos podem se assumir como portadores de um capitalismo que aos poucos se desprende de sua incipiência. Os cientistas políticos têm insistido que o golpe não é simplesmente uma manifestação militar, ele expressa autoritariamente uma via de desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Esta afirmação, que no nível da teoria política é banal, se desdobra no plano histórico de forma concreta. O livro de Rene Dreifuss mostra detalhadamente como os interesses dos militares e dos empresários brasileiros se articulam para a derrubada do regime de Goulart.(4.Rene Dreifuss, 1964: A Conquista do Estado, Ação Política, Poder e Golpe de Estado, Petrópolis, Vozes, 1981.). Os empresários da esfera cultural parecem não escapar à regra. Hallewel observa que entre o grupo de livreiros que financiaram as atividades do IPES estão a AGIR, Globo, Kosmos, LTB, Monterrey, Nacional, José Olympio, Vecchi, Cruzeiro, Saraiva, GRD.(5.Laurence Hallewel, O Livro no Brasil, op. cit., p. 462.). Se lembrarmos que a partir de 1966 é dado um incentivo real à fabricação de papel, e facilitada a importação de novos maquinários para a edição, percebemos que existe claramente uma gama de interesses comuns entre o Estado autoritário e o setor empresarial do livro. Talvez o melhor exemplo da colaboração entre o regime militar e a expansão dos grupos privados seja o da televisão.(6.Ver Sérgio Mattos, “O Impacto da Revolução de 64 no Desenvolvimento da Televisão”, Cadernos INTERCOM, ano 1, nº 2, março de 1982; sobre as inovações tecnológicas na área da telecomunicação, ver “Telecomunicações: Décadas de Profundas Modificações”, Conjuntura Econômica, vol.24, nº 1, janeiro de 1970.). Em 1965 é criada a EMBRATEL, que inicia toda uma política modernizadora para as telecomunicações.

Neste mesmo ano o Brasil se associa ao sistema internacional de satélites (INTELSAT), e em 1967 é criado um Ministério de Comunicações. Tem início a construção de um sistema de microondas, que será inaugurado em 1968 (a parte relativa à Amazônia é completada em 70), permitindo a interligação de todo o território nacional. Isto significa que as dificuldades tecnológicas das quais padecia a televisão na década de 50 podem agora ser resolvidas. O sistema de redes, condição essencial para o funcionamento da indústria cultural, pressupunha um suporte tecnológico que no Brasil, contrariamente dos Estados Unidos, é resultado de um investimento do Estado. Não deixa de ser curioso observar que o 4ue legitima a ação dos militares no campo da telecomunicação é a própria ideologia da Segurança Nacional. A idéia da “integração nacional” é central para a realização desta ideologia que impulsiona os militares a promover toda uma transformação na esfera das comunicações. Porém, como simultaneamente este Estado atua e privilegia a área econômica, os frutos deste investimento serão colhidos pelos grupos empresariais televisivos.

Não se pode esquecer que a noção de integração estabelece uma ponte entre os interesses dos empresários e dos militares, muito embora ela seja interpretada pelos industriais em termos diferenciados. Ambos os setores vêem vantagens em integrar o território nacional, mas enquanto os militares propõem a unificação política das consciências, os empresários sublinham o lado da integração do mercado.

O discurso dos grandes empreendedores da comunicação associa sempre a integração nacional ao desenvolvimento do mercado. Como afirma Mauro Salles em sua palestra na Escola Superior de Guerra: “O programa brasileiro não aceita a paralisação do crescimento. Ao contrário, partimos para criar riquezas que agora nos permitem -organizar um II Plano Nacional de Desenvolvimento em que a palavra Integração, com seu sentido social e econômico, passa a ter um sentido maior. O II PND vai dar as grandes linhas para uma expansão ainda mais acelerada do consumo de massa, do desenvolvimento do mercado interno”.(7.Mauro Saltes, Conferencia Escola Superior de Guerra, 4.9.1974, p. 6. Na mesma linha, ver Walter Clark, “TV: Veículo de Integração Nacional”, palestra na Escola Superior de Guerra, 15.9.1975, in Mercado Global, nºs 17/18, ano 2, 9.10.1975.).

Colocada nesses termos, a questão da censura pode ser melhor compreendida. Os interesses globais dos empresários da cultura e do Estado são os mesmos, mas topicamente eles podem diferir. Como a ideologia da Segurança Nacional é “moralista” e a dos empresários, mercadológica, o ato repressor vai incidir sobre a especificidade do produto. Devemos, é claro, entender moralista no sentido amplo, de costumes, mas também político. Mas se tivermos em conta que a indústria cultural opera segundo um padrão de despolitização dos conteúdos, temos nesse nível, senão uma coincidência de perspectiva, pelo menos uma concordância. O conflito se instaura quando ocorre o tratamento de cada produto pela censura, o que permite que a questão de fundo, a liberdade de expressão, ceda lugar a um outro tipo de reivindicação. Um documento da Associação de Empresários de Teatro (1973), divulgado no auge da ação repressiva, é significativo. Ele diz: “Não nos cabe analisar neste documento os efeitos do excessivo rigor da Censura sobre a permanente e legítima aspiração de liberdade de expressão, para que os artistas e intelectuais formulem, de maneira cada vez mais íntegra, sua visão pessoal da temática que abordam em seu trabalho. Neste documento, o problema da Censura está sendo ventilado porque sua ação excessivamente rigorosa é um fato dos fatores conjunturais que prejudicam a sobrevivência econômica da empresa teatral”.(8.Citação in Tânia Pacheco, “O Teatro e o Poder”, in Anos 70 — Teatro. Rio de Janeiro, Ed. Europa, 1979, p. 97.). O mesmo tipo de crítica é feito pelos empresários do cinema no I Congresso da Indústria Cinematográfica Brasileira (1972). O que eles propõem é uma reformulação dos critérios da censura “levando-se em conta a época atual, o desenvolvimento da cultura, [pois] os cânones rígidos de antigamente não poderão prevalecer atualmente (…) nossa censura não acompanha a evolução dos costumes”.(9.“I Congresso da Indústria Cinematográfica”, Filme e Cultura, nº 22, novembro/dezembro de 1972, p. 14.). A crítica se desloca, desta maneira, do pólo político para o econômico. Ela é “excessivamente rigorosa”, ou “não acompanha a evolução dos costumes”, o que significa que sua atuação traz prejuízos materiais para o lado empresarial. Tânia Pacheco tem razão quando afirma que o objetivo dos empresários teatrais é sugerir um pacto com o poder, procurando desta forma garantir o financiamento das obras teatrais pelo Estado. Este tipo de estratégia não se limita, porém, a uma esfera altamente dependente de verbas estatais como o teatro ou o cinema, ela é mais geral. Quando a TV Globo e a TV Tupi assinam um protocolo de autocensura em 1973, procurando controlar o conteúdo de suas programações, o que essas emissoras estão fazendo é circunscrever a vontade de se conquistar o mercado a qualquer preço, aceitando-se cumprir os compromissos adquiridos anteriormente junto ao Estado militar.(10.Sobre o pacto entre TV Globo e Tupi, e a censura aos programas popularescos ver Sônia Miceli, “Imitação da vida: Pesquisa Exploratória sobre a Telenovela”, tese de mestrado, FFLCH, USP, 1973.). Se elas cortam ou redimensionam determinados programas popularescos (Chacrinha, Derci Gonçalves, etc.) é porque é necessário garantir o pacto com os militares, que vêem esse tipo de espetáculo como “degradante” para a formação do homem brasileiro definido segundo a ideologia da Segurança Nacional. A contradição entre cultura e censura não se expressa, pois, em termos estruturais, mas ocasionais, táticos, por isso é possível deslocar a questão para o plano econômico. A conferência de Mauro Salles, que havíamos citado anteriormente, é sugestiva quando afirma que “é de uma imprensa livre economicamente, com sua sobrevivência garantida pela receita de uma publicidade julgada em bases técnicas, que se deve esperar uma imprensa livre em termos políticos. É certo que estamos todos ainda a braços com problemas da censura. Mas também é certo que os censores são passageiros e a censura não se institucionalizará e não há nenhum sinal oficial ou oficioso de que vamos marchar na direção inversa do progresso”.(11.Mauro Salles, op. cit., p. 9.).

Se tivermos em mente que a constituição de um sistema de comunicações economicamente forte, dependente da publicidade, passa no caso brasileiro necessariamente pelo Estado, podemos avançar no terreno de nossa discussão. A evolução do mercado de propaganda no Brasil está intimamente associada ao Estado, que é um dos principais anunciantes. O governo, através de suas agências, detém um poder de “censura econômica”, pois ele é uma das forças que compõem o mercado.(12.Sobre o papel do governo como anunciante, ver Marco A. Rodrigues Dias, “Política de Comunicação no Brasil”, in Jorge Wertheim (org.), Meios de Comunicação. Realidade e Mito, São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1979.). Não há, portanto, um conflito aberto entre desenvolvimento econômico e censura. Evidentemente os empresários têm prejuízos com as peças, livros, programas, filmes censurados, mas eles têm consciência que é o Estado repressor que fundamenta suas atividades. A censura “excessiva” é certamente um incômodo para o crescimento da indústria cultural, mas este é o preço a ser pago pelo fato de ser o pólo militar o incentivador do próprio desenvolvimento brasileiro.

O que caracteriza a situação cultural nos anos 60 e 70 é o volume e a dimensão do mercado de bens culturais. Se até a década de 50 as produções eram restritas, e atingiam um número reduzido de pessoas, hoje elas tendem a ser cada vez mais diferenciadas e cobrem uma massa consumidora. Durante o período que estamos considerando, ocorre uma formidável expansão, a nível de produção, de distribuição e de consumo da cultura; é nesta fase que se consolidam os grandes conglomerados que controlam os meios de comunicação e da cultura popular de massa. Os dados, quaisquer que sejam eles, confirmam o crescimento dessa tendência. Tomemos como exemplo a evolução da produção de livros entre 1966 e 1980 (em milhões de exemplares).(13.Laurence Hallewel, op. cit. p. 510. Os dados sobre o setor livreiro provêm da mesma fonte.).

Ano: – Exemplares: 1966: 43,6

1974: 191,7 1976: 112,5 1978: 170,8 1980: 245,4

Mesmo se levarmos em consideração o índice de analfabetismo que continua alto na sociedade brasileira, e a distorção do desenvolvimento que concentra a riqueza nas regiões do sul do país, dificilmente poderíamos equiparar este quadro aos números das décadas anteriores. Na verdade, o setor livreiro se beneficia de toda uma política implementada pelo governo que procura estimular a produção de papel e reduzir o seu custo. Em 1967, 91% do papel para livros era fabricado no Brasil. O governo criou ainda em 1966 o GEIPAG, órgão que implementa uma política para a indústria gráfica, favorecendo a importação de novas maquinarias para a impressão. Hallewel observa que isso aumentou consideravelmente a capacidade de produção da indústria. Os dados mostram claramente uma evolução constante e acelerada da impressão em off-set, em detrimento de outras formas como a tipografia e a rotogravura. Em 1960 a produção brasileira de papel off-set para livros era de 7% do total, em 1978 ela sobe para 58%. Mas não é somente o setor livreiro que se beneficia da política governamental; a indústria editorial, na sua totalidade, pode se modernizar com a importação de novos maquinários. Isto se reflete não só no aprimoramento da qualidade do impresso, como no volume da produção que encontra um mercado receptivo. Consideremos, por exemplo, o crescimento do mercado de revistas (em milhões de exemplares).(14.Thomas Souto Corrêa, “Mercado de Revistas, Onde Estamos para Onde Vamos”, Anuário Brasileiro de Propaganda, 78/79. Obs.: o ano de 1985 é uma projeção.).

Ano: – Exemplares: 1960: 104 1965: 139 1970: 193 1975: 202 1985: 500

Se tomarmos 1965 como referência, temos que em vinte anos o mercado praticamente quadruplicou, sendo que no mesmo espaço de tempo a população aproximadamente dobrou. Mas não é somente a quantidade que caracteriza esse mercado emergente. O setor de publicação tem-se diversificado cada vez mais com o surgimento de públicos especializados que consomem produtos diretamente produzidos para eles. O caso exemplar é o da Editora Abril, que hoje domina o mercado de revistas. Fundada em 1950 por Victor Civita, ela inicia sua produção comprando o direito de publicar o Pato Donald no Brasil. Entre 1950 e 1959 ela edita 7 títulos; entre 1960 e 1969 este número sobe para 27; no período de 1970 a 1979 atinge 121 títulos.(15.Ver Epopéia Editorial: uma História de Informação e Cultura, Ed. Abril, abril de 1987.). Se observarmos suas publicações ao longo desses anos, percebemos que não é somente o volume que aumenta, mas também a diversidade do que é editado. Na década de 50 a Editora Abril praticamente se sustenta através de suas fotonovelas (Capricho, Você, Ilusão, Noturno) e o Pato Donald. Nos anos 60 surgem revistas mais especializadas: Transportes Modernos para Executivos, Máquinas e Metais, Quatro Rodas, Claudia. São lançados ainda os fascículos, que cobrem um público de gosto variado, os jovens (Curso Intensivo de Madureza), os universitários (Pensadores), os curiosos (Conhecer). A década de 70 consolida e expande este processo de diversificação. Multiplicam-se os títulos infantis (Cebolinha, Luluzinha, Piu-Piu, Enciclopédia Disney, etc.). A publicação de o Pato Donald, que em 1950 era de 83 mil exemplares, é agora ultrapassada pelos 70 títulos infantis, que totalizam uma tiragem de 90 milhões de exemplares (1986). Para a Editora Abril, o gosto feminino na década de 50 é sobretudo marcado pelo lado sentimental; ela edita principalmente fotonovelas. Mais tarde é lançada Manequim, revista especializada em moda. A partir dos anos 60 a empresa busca atingir o público feminino setorizando sua produção: fotonovelas (linha já inaugurada anteriormente), costura (Agulha de Ouro), cozinha (Forno e Fogão, Bom Apetite), moda (Manequim), decoração (Casa Claudia), assuntos gerais (Claudia). O mesmo ocorre com o público masculino: automóveis (Quatro Rodas), chofer de caminhão (O Carreteiro), sexo (Playboy), motocicleta (Moto), futebol (Placar), navegação (Esportes Náuticos), economia e negócios (Exame). A editora procura, desta forma, cobrir o interesse dos leitores potenciais, da camada dominante aos setores médios e a franja superior da classe trabalhadora, que em boa parte é excluída do sistema de ensino após a conclusão dos estudos primários. Para esta camada, os fascículos cumprem uma função didática, discorrendo sobre a história dos homens, a ciência, e as artes.

Até mesmo para o cinema nacional, pelo tipo de produção que demanda uma grande soma de investimento, o quadro atual, apesar das dificuldades, é radicalmente distinto dos anos 50. Com a criação do Instituto Nacional do Cinema, em 1966, e posteriormente da EMBRAFILME, a produção cinematográfica conhece sem dúvida um momento de expansão. No período de 1957 a 1966, a produção de longa-metragem atingia uma média de 32 filmes por ano; nos anos 1967-1969, quando o INC começa a atuar, ela passa para 50 filmes.(16.Ver Alcino Teixeira de Meio, Legislação do Cinema Brasileiro, Rio de Janeiro, EMBRAFILME, 1977.). Com o surgimento da EMBRAFILME, a política do Estado se torna mais agressiva, aumentando as medidas de proteção do mercado, e dando um maior incentivo à produção. Em 1975 são produzidos 89 filmes, e em 1980 103 películas.(17.“Cinema Brasileiro: Evolução e Desempenho”, São Paulo, Pesquisa 5, Fundação Japão, 1985, p. 45.). Não devemos, porém, nos entusiasmar muito com a qualidade desta indústria brasileira; a maior parte dos filmes são pornográficos ou pornochanchadas. Em 1979 eles totalizavam apenas 8% da produção, mas em 1984, com o crescimento do mercado, chegam a compor 71% do que é produzido.(18.Jornal da Tela, MEC, EMBRAFILME, março de 1986, p. 3.).

Não é somente o cinema brasileiro que se expande. Muitas vezes uma oposição muito rígida entre o nacional e o estrangeiro, que é sem dúvida real e importante no campo cinematográfico, nos impede de perceber que é o próprio hábito de ir ao cinema que se consolida no período que estamos considerando. Na década de 70 a evolução do número de espectadores é a seguinte: em 1971, 203 milhões; atinge em 1976 um pico de 250 milhões; e cai em 1980 para 164 milhões.(19.“Cinema Brasileiro: Evolução e Desempenho”, op. cit., p. 134.). Muitas vezes esses dados são considerados exclusivamente como expressão do declínio do cinema em contraposição a outras formas de lazer, em particular a televisão. Isto é, sem dúvida, verdadeiro. Porém, se introduzirmos uma dimensão histórica em nossa análise, e tomando-se alguns dados de outros países, é possível encaminhar nossa reflexão para uma outra direção. Consideremos, por exemplo, a evolução do número de espectadores em outros países (em milhões): (20.Idem, p. 114. Sobre o declínio da freqüência ao cinema, ver René Bonoell, Le Cinema Exploité, Paris, Seuil, 1978.).

Tabela:

Países / Nº de espectadores Melhor ano / Nº de espectadores 1970 / Declínio em % do melhor ano até 1970.

EUA / 4400 (1946) / 1288 / 79 Inglaterra / 1430 (1949) / 193 / 86 Alemanha Oc. / 818 (1956) / 167 / 80 Japão / 1127 (1958) / 247 / 78 França / 411 (1957) / 183 / 55

Itália / 819 (1955) / 556 / 32

Uma primeira conclusão, já conhecida de todos, se impõe: a queda da freqüência ao cinema é um fenômeno mundial. São várias as razões que concorrem para isso: o preço das entradas, o fechamento dos cinemas de bairro, sua concentração nos centros urbanos em zonas servidas por uma maior estrutura de lazer, como restaurantes, shopping centers, e, é claro, a concorrência de outros meios, como a televisão comercial, a cabo, e o videocassete, além de formas alternativas de lazer, como o turismo, os passeios, o automóvel. Como entender a evolução do cinema no Brasil, colocando-o no contexto internacional? O gráfico abaixo é sugestivo.

Tabela: (o número de salas vai de 0 à 3500, com intervalo de 500. Juliano, como é gráfico, não tem como dar os dados precisos)

Evolução do número de cinemas

1947: em torno de 490 1949: em torno de 510 1951: em torno de 750 1953: em torno de 750 1955: em torno de 750 1957: em torno de 750 1959: em torno de 750 1961: em torno de 750 1963: em torno de 750 1965: em torno de 750 1967: em torno de 750 1969: em torno de 1750 1971: em torno de 2200 1973: em torno de 2700 1975: em torno de 3250 1977: em torno de 3100 1979: em torno de 2900 1981: em torno de 2250 1983: em torno de 2000

Se tomarmos a curva de evolução do número de salas como correlata à freqüência, observamos que é entre 1975 e 1976 que se atinge um pico de espectadores. Isto significa que o processo de expansão do público, que foi variado nos diversos países, atingindo um máximo em 1946 nos Estados Unidos, 1955 na Itália, 1957 na França, só ocorre no Brasil em meados da década de 70. Como o próprio gráfico sugere, durante a década de 50 e metade da de 60, o número de salas de cinema permanece praticamente o mesmo; a formação de um verdadeiro mercado de consumo de filmes se dá somente em 1967, conseguindo se manter num patamar mais elevado pelo menos até 1979. A partir daí, o cinema se equipara às dificuldades que o mercado de filmes vinha enfrentando mundialmente desde os anos 40 e 50. O capitalismo tardio “retarda” os problemas de crise que somente iríamos enfrentar anos depois. De uma situação de incipiência passamos por um momento de expansão para então “acertarmos o relógio”, como talvez dissesse Oswald de Andrade, com o quadro internacional.

Também o mercado fonográfico, que até 1970 conhecia um crescimento vegetativo, a partir deste momento “deu sua arrancada para um verdadeiro e significativo desenvolvimento”.(21.“O Mercado de Discos no Brasil”, Mercado Global, nº 34, ano 4, 3.4.1977, p. 20.). Isto se deveu em grande parte às inúmeras facilidades que o comércio passou a apresentar para a aquisição de eletrodomésticos. Como o mercado de fonogramas se desenvolve em função do mercado de aparelhos de reprodução sonora, é importante observarmos a evolução das vendas industriais de aparelhos eletrônicos domésticos. Entre 1967 e 1980, a venda de toca-discos cresce em 813%.(22.Fonte ABINEE.). Isto explica por que o faturamento das empresas fonográficas cresce entre 1970 e 1976 em 1375%. (23.“Disco em São Paulo”, Pesquisa 6, IDART, 1980.). O mercado fonográfico pode ainda ser avaliado quando consideramos a venda de discos na década de 70 (em milhares de unidades):(24.Fonte: Associação Brasileira de Produtores de Discos.).

Quadro:

Ano – LPs – Compacto simples – Compacto duplo – Fitas 72 – 11.700 – 9.900 – 2.500 – 1.000 73 – 15.000 – 10.100 – 3.200 – 1.900 74 – 16.000 – 8.200 – 3.500 – 2.800 75 – 16.900 – 8.100 – 5.000 – 3.900 76 – 24.000 – 10.300 – 7.100 – 6.800 79 – 39.252 – 12.613 – 5.889 – 8.481

O quadro mostra uma diversificação do consumo com a introdução de produtos “recentes” (em termos de massa), como as fitas cassetes, que ao longo da década passam a integrar o hábito dos consumidores. Isto se deve substancialmente a uma generalização do uso do cassete nos automóveis e nos momentos de lazer fora de casa. Mas o que os números indicam é, sobretudo, o aumento do volume de vendas, que no período cresce de 25 milhões para 66 milhões de discos comercializados anualmente, O LP, que foi introduzido em 1948, mas até a década de 60 era ainda considerado um produto caro, cada vez mais é caracterizado como um elemento de consumo, inclusive das classes mais baixas. O mercado de discos não opera somente com a estratégia de diferenciação dos gostos segundo as classes sociais. Ele descobriu uma forma de penetrar junto às camadas mais baixas, desenvolvendo os “álbuns compilados”, discos ou fitas cassetes reunindo uma seleção de músicas de diferentes gravadoras. A Som Livre, vinculada à Rede Globo de Televisão, se especializou no ramo das músicas de novela, deslocando do mercado inclusive as multinacionais. Iniciando suas atividades em 1970 com o compilado da trilha sonora da novela O Cafona, já em 1976 se torna líder do mercado fonográfico, e em 1982 detém 25% do seu faturamento.

Penso que o que melhor caracteriza o advento e a consolidação da indústria cultural no Brasil é o desenvolvimento da televisão. Vimos como nos anos 50 o circuito televisivo era predominantemente local, enfrentando problemas técnicos consideráveis. Com o investimento do Estado na área da telecomunicação, os grupos privados tiveram pela primeira vez a oportunidade de concretizarem seus objetivos de integração do mercado. Como dirá um executivo: “A televisão, por sua simples existência, prestou um grande serviço à economia brasileira: integrou os consumidores, potenciais ou não, numa economia de mercado”.(25.Arce, “Televisão: Ano 25/10 de Conquistas de Comercialização”, op. cit., p. 66.). Para isso foi necessário um incremento na produção de aparelhos, na sua distribuição, e a melhoria das condições técnicas. Como o videoteipe, a transmissão em cores, a edição eletrônica, este último ponto pode ser garantido. Quanto à produção de aparelhos, já em 1970 ela era de 860 mil unidades, volume que contrasta radicalmente com o da década anterior, e que elimina a necessidade de importação. A implantação da televisão como meio de massa pode ser avaliada quando examinamos a evolução do número de aparelhos em uso:(26.Geraldo Leite, “A Necessidade de uma Ecologia da Mídia”, op. cit., p. 66.)

Gráfico:Evolução do total de aparelhos (PB&C) em uso no país

Ano: Número

50: 2 55: 170 60: 760

65: 2.202 70: 4.931

75: 10.185 80: 19.602

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Esses dados podem ser melhor compreendidos quando comparamos a evolução de número de domicílios com televisão. Em 1970 existiam 4 milhões 259 mil domicílios com aparelhos de televisão, o que significa que 56% da população era atingida pelo veículo; em 1982 este número passa para 15 milhões 855 mil, o que corresponde a 73% do total de domicílios existentes.(27.Ver Mercado Brasileiro de Comunicação, Brasília, Presidência da República, Secretaria de Imprensa e Divulgação, 1983, p. 87. Consultar também Briefing, “Os Trinta Anos da Televisão”, op. cit.) Por outro lado, como mostram alguns estudos de mercado, o hábito de assistir televisão se consolida definitivamente, e se dissemina por todas as classes sociais.(28.Ver Mídia e Mercado, São Paulo, Lintas, 1984. Vários estudos sobre a penetração da televisão junto às diferentes classes e públicos consumidores podem ser encontrados, para a década de 70, na revista Mercado Global, que era publicada pela Rede Globo de Televisão.).

Herbert Schiller, num de seus artigos, observa que a comunicação segue o capital, e que o capital se relaciona intrinsecamente com a publicidade, Na verdade, seria impossível considerarmos o advento de uma indústria cultural sem levarmos em conta o avanço da publicidade; em grande parte, é através dela que todo o complexo de comunicação se mantém, O caso brasileiro não foge à regra. Basta olharmos como evolui o investimento em propaganda neste período (em milhões de cruzeiros): (29.Fonte: “A Televisão Brasileira”, Mercado Global, nºs 31/32, ano 3, 11.12.1976, p. 20. O dado de 1976 foi retirado de Roberto Amaral Vieira, “Alienação e Comunicação: o Caso Brasileiro”, in Comunicação de Massa: o Impasse Brasileiro, Rio de Janeiro, Forense, 1978, p. 100.).

Ano – Total investido – % sobre o PNB 1964 – 152 – 0,80 1966 – 440 – 0,95 1968 – 960 – 1,00 1970 – 1.840 – 1,05 1972 – 3.460 – 1,25 1974 – 6.300 – 1,29 1976 – 12.600 – 1,28

Pode-se observar que a partir de 1968 o total de investimento dá um salto para atingir níveis até então desconhecidos. Maria Arminda Arruda, quando analisa o desenvolvimento da publicidade brasileira entre 1970 e 1974, mostra que essas taxas de crescimento não ocorrem em nenhum outro pais, mesmo os mais avançados, o que permite que em 1972 o Brasil supere países como Itália, Holanda e Austrália, para se constituir em 1974 o sétimo mercado de propaganda do mundo.(30.Maria Arminda Arruda, “A Embalagem do Sistema”, tese de mestrado, FFLCH. USP, 1978.). Se entre 1935 e 1954 o mercado de agências publicitárias permanece inalterado (só em 1954 é criada uma agência importante, a Leo Burnett), o quadro muda radicalmente nos anos 60 com o surgimento da maioria de agências que hoje atuam no mercado: Esquire, Álvares Penteado, JMM, Mauro Salles, MPM, DPZ, Proeme, Propeg, Artplan, Lage, P. A. Nascimento, Alcântara Machado, Denison, Norton, Benson.(31.Ver Ricardo Ramos, op. cit., e L. E. Carvalho e Silva, op. cit.). O desenvolvimento das atividades profissionais ligadas à propaganda já vinha se realizando desde a década de 50, com a criação da primeira escola de propaganda, a Cásper Líbero (1951), e a fundação da Associação Brasileira de Agências de Propaganda. Mas é nos anos 60 que ele se intensifica, a profissão de publicitário ganha a universidade e tem o seu reconhecimento em nível superior. São criadas as escolas de comunicação: ECA (1966), Álvares Penteado (1967), UFRJ (1968), ISCM (1969); e proliferam novas associações que congregam profissionais: Associação Brasileira de Anunciantes (1961), Conselho Nacional de Propaganda (1964), Federação Brasileira de Marketing (1969). Este crescimento na área publicitária demanda serviços especializados, pois, agora, o mercado tem que ser bem dimensionado, medido segundo critérios objetivos, de preferência “científicos”, para que se possa fazer um cálculo entre as pretensões dos clientes e a capacidade de absorção do produto. Não é por acaso que a década de 60 assiste também a um processo de multiplicação dos institutos de pesquisas mercadológicas: IVC (1961), Mavibel (1964); Ipsem (1965), Gallup (1967), Demanda (1967), Simonsen (1967), Ipape (1968),Audi-TV (1968), Sercin (1968), Nielsen (1969), LPM (1969).

Se nas décadas de 40 e 50 faltava às emissoras de rádio e de televisão o traço integrador paracaracterizá-las como uma indústria cultural, temos agora uma transformação. O caso da televisão é evidente, uma vez que o Estado possibilita a transmissão em rede a partir de 1969. Mas também o rádio acompanha as mudanças mais gerais da sociedade, pressionado sobretudo pela diminuição do investimento em propaganda. O quadro do percentual de participação dos veículos de comunicação no investimento publicitário é claro: (32.Fonte: Meio e Mensagem e Grupo Mídia.).

Quadro:

Ano – TV – Revista – Rádio – Jornal – Outros 1962 – 24,7 – 27,1 – 23,6 – 18,1 – 6,5 1972 – 46,1 – 16,3 – 9,4 – 21,8 – 6,4 1982 – 61,2 – 12,9 – 8,0 – 14,7 – 3,2

A fase de ouro do rádio pôde existir porque este veículo concentrava a massa de investimento publicitário disponível na época. Com o deslocamento da verba publicitária para a televisão, sua exploração comercial teve que levar em conta novos fatores de mercado, caminhando para a especialização das emissoras e a formação de redes. Este processo de especialização não é exclusivo do rádio, ele atende uma imposição mais geral da indústria cultural que tem necessidade de responder à demanda de um mercado onde existem faixas econômicas diferenciadas a serem exploradas. As empresas radiofônicas procuram, desta forma, oferecer uma programação unificada, e específica para um determinado tipo de público, dando assim maiores opções para o anunciante. Trata-se, portanto, de um sistema que trabalha associado às análises de audiência, pois elas são as únicas garantias, para o cliente, que a emissora realmente atinge determinada camada ou público. Porém, como o mercado é restrito, sofre uma concorrência cerrada da televisão, uma nova tendência se esboça para a maximização dos lucros: a formação de redes. Gisela Ortriwano observa que essas redes nacionais, que integram emissoras regionais, transmitem uma programação unificada para os mais diversos pontos do país. “ O objetivo principal dessa nova tendência está ligado unicamente a fatores econômicos: fortalecer o rádio como alternativa publicitária, procurando obter maior lucratividade com menor investimento. As emissoras que fazem parte de uma rede recebem, ao mesmo tempo, programação e patrocinador.”(33.Gisela Ortriwano, A Informação no Rádio, op. cit., p. 31). Há duas maneiras dessas redes operarem. A primeira através das produtoras radiofônicas; a Studio Free e a L&C trabalham diretamente com as agências e os anunciantes, possibilitando ao cliente conhecer de antemão a programação na qual seu anúncio será inserido. A L&C desenvolveu um.tipo de programação integrada, com música característica, vinhetas, além, é claro, da gravação dos comerciais. Este material é enviado para as “regionais” onde será veiculado. “Para atender os pedidos musicais, foram criados personagens com vozes masculinas e femininas, que atendem pelo mesmo nome em todas as localidades. A programação nacional reserva espaços para a prestação de serviços e as entradas publicitárias locais.”(34.Idem, pp. 31-32.). A segunda forma é a das emissoras em rede, geralmente propriedade de um único concessionário. São vários os exemplos: o Sistema Globo de Rádio, formado por 13 emissoras AM e cinco FM, que atua nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Bahia; a Transamérica, composta por 28 emissoras atingindo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraná, Bahia, Minhas Gerais, Sergipe, Pará, Santa Catarina, Maranhão, Paraíba, Mato Grosso e Brasília. Poderíamos ainda citar outros exemplos, como a Rede. Capital de Comunicação, a Rede Brasil Sul de Comunicação, a Rede Manchete de Rádio. O espaço de irradiação tende a se ampliar, mas o público atingido não é mais caracterizado como local, ele se integra dentro do mercado nacional consumidor. Esta nova fase de desenvolvimento do rádio não se esquece inclusive de absorver um traço definidor da indústria cultural segundo Adorno e Horkheimer: a padronização. Não só os programas são padronizados, mas a publicidade e até mesmo as vozes dos apresentadores.

Dentro deste quadro, a própria concepção de atividade gerencial se modifica. Vários sociólogos têm insistido que a modernização da sociedade brasileira implicou a mudança da mentalidade empresarial, seja no setor industrial, como estudou Fernando Henrique Cardoso, seja na área vinculada ao Estado. Lúcio Kowarick mostra que a idéia de planejamento econômico somente se sistematiza com o plano de metas de Juscelino Kubitschek; Octávio Ianni considera que é a partir do golpe militar que o planejamento adquire uma dimensão individualizada, conferindo à política governamental uma especificidade que ela não possuía até então.(35.Lúcio Kowarick, “Estratégias do Planejamento Social no Brasil”, Cadernos do CEBRAP, 2, 1976; Octávio Ianni, Estado e Planejamento no Brasil, Rio de Janeiro Civilização Brasileira, 1979.). A indústria cultural não escapa a este processo de transformação; os capitães de indústria dos anos anteriores devem ceder lugar ao manager. O espíritoempreendedor-aventureiro de Chateaubriand caracteriza toda uma época, mas ele é inadequado quando se aplica ao capitalismo avançado. Nos anos 60 e 70, os grandes empreendedores do setor cultural são outros. Homens que administram conglomerados englobando diversos setores empresariais, desde a área da indústria cultural à indústria propriamente dita. Civita: Editora Abril, Distribuidora Nacional de Publicações, Centrais de Estocagem Frigorificada, Quatro Rodas Hotéis, Quatro Rodas Empreendimentos Turísticos. Roberto Marinho: TV Globo, Sistema Globo de Rádio, Rio Gráfica, VASGLO (promoção de espetáculos), Telcom, Galeria Arte Global, Fundação Roberto Marinho. Frias e Caldeira: Folha da Manhã S. A., Impress, Cia. Lithográfica Ypiranga, Última Hora, Notícias Populares, Fundação Cásper Libero. Contrariamente ao espírito capitalista weberiano, que se fundamentava no indivíduo, traço correspondente ao início do capitalismo, os novos proprietários são homens de organização, e de uma certa forma se perdem na impessoalidade dos “impérios” que construíram.

Eles devem contrabalançar sua vontade individual e submetê-la à racionalidade da própria empresa que engendraram. A história das organizações que construíram não coincide mais com a história individual do seu fundador; ela se apóia e se sustenta no esforço de inúmeros profissionais, alguns mais conhecidos, outros anônimos, que reproduzem e recriam a racionalidade da empresa no seu dia-a-dia. A esse respeito, a fala de Walter Clark é significativa. Comparando dois tipos de empresários, Pipa Amaral, da antiga TV Rio, e Roberto Marinho, ele dirá: “Acho que o sujeito que teve a idéia mais grandiosa de TV no Brasil foi o Pipa Amaral, um personagem incrível, com visão mais gigantesca do veículo do que o próprio Chateaubriand. Aprendi muito com ele, mas seu grande defeito é que não confiava em ninguém, nem no próprio filho, não delegava nada”. (36.A Vida de Walter Clark, op. cit., pp. 41-42.). Em relação a Roberto Marinho: “O sucesso da TV Globo tem a ver com o fato do Roberto Marinho ter entregue a TV para que o Walter Clark, o Joe Wallach, o Boni, o José Ulisses Arce e o José Otávio Castro Neves, a fizessem”(37.Idem, pp. 48-49.). Pipa Amaral ainda retém os traços da individualidade ascética que concebe o ator social como demiurgo de qualquer tipo de empreendimento. Mas ele não “delega nada”, isto é, impede que se forme uma equipe de colaboradores essenciais para o funcionamento da organização. Roberto Marinho compreende melhor os novos tempos, e se conforma ao anonimato de sua própria criação. Restam a esses novos empreendedores prêmios de consolação para que sejam reconhecidos socialmente na sua individualidade, as comendas, as biografias encomendadas, a promoção das artes, atividades que trazem prestígio mas que são vividas como subproduto de suas tarefas comerciais.(38.Um exemplo típico deste tipo de estratégia é “biografia” encomendada de Victor Civita, que tem por objetivo enaltecer as obras de sua pessoa. Ver Luiz Fernando Mercadante, Victor Civita, São Paulo, Nova Cultural, 1987. Ou ainda promoções de instituições como a Fundação Roberto Marinho.).

Pode-se perceber com clareza a mudança do etos empresarial quando se toma o exemplo da televisão. Neste sentido, a TV Excelsior, fundada em 1960, dá um primeiro passo no processo de racionalização. O depoimento de Álvaro Moya, seu primeiro diretor artístico, é ilustrativo: “A TV Excelsior era o grupo Simonsen, e o sonho deles era fazer a ITT no Brasil. Eles é que tinham montado uma rede para a televisão Tupi na inauguração de Brasília; fizeram uma transmissão simultânea da inauguração. Então o Simonsen sentiu que podia fazer uma rede e dominar a televisão, eles tinham uma visão empresarial”. (39.Depoimento de Álvaro Moya, (FUNARTE).). O testemunho de Walter Simonsen Neto caminha na mesma direção: “Na época nós procurávamos criar uma cadeia no estilo da Globo. Quando eu digo no estilo da Globo, é no sentido empresarial. Nós tínhamos consciência de que se nós produzíssemos uma boa programação, essa programação teria um mercado dentro do Brasil, muito maior do que os filmes. porque nós estávamos vendendo cultura brasileira — as novelas que começamos a fazer, os programas humorísticos”.(40.Depoimento de Walter Simonsen Neto (FUNARTE).). A idéia de “vender cultura”, colocada de maneira tão explícita, abria a possibilidade de se planejar o investimento em termos de uma racionalidade empresarial. Talvez o que o grupo Simonsen não percebesse, como veremos mais adiante, é que o nacionalismo do momento lhes seria politicamente adverso. A grande inovação introduzida pela Excelsior foi a racionalização do uso do tempo.(41.Sobre a Excelsior, ver Edgar Amorin, História da TV Excelsior, São Paulo, IDART, mimeo., e Alcir Costa, Excelsior: Destruição de um Império, op. cit.). A programação passa agora a obedecer determinados horários, não se atrasa mais, ela é horizontal, programas diários como as telenovelas, e vertical, seqüência de programas, buscando fixar o telespectador num único canal. A empresa inventa seu próprio logotipo e passa a promover a si mesma. Desenvolve- se também a racionalização do tempo dos comerciais. A Excelsior é a primeira emissora de televisão a conceber uma identidade entre tempo e espaço comercial. Os programas tendem agora a não ser mais vendidos ao patrocinador, para se transformarem em veículo do produto a ser anunciado, em tempo comercializável comprado pelo cliente. Da mesma forma que o anunciante comprava o espaço no jornal, ele podia adquirir um “espaço de tempo” no vídeo para veicular sua mensagem publicitária. Tempo sem conteúdo, vazio, abstrato, portanto mensurável e comercializável.

A TV Globo aprofunda essas mudanças. No início, como observa Maria Rita Kehl, ela é dirigida por pessoas do meio artístico e jornalístico, mas logo há uma modificação no quadro da direção.(42.Maria Rita Kehl, Reflexão para uma História da TV Globo, Rio de Janeiro, FUNARTE, 1982.). Os novos administradores são executivos provenientes das áreas de marketing e planejamento: “Acabava a fase em que os vales eram concedidos pelo proprietário da emissora, que também negociava cachê e assinava cheque. Um americano que durante muitos anos havia cuidado da área administrativa, Joe Wallach, foi contratado para gerir a área administrativa da Globo, implantando um sistema mais empresarial de gestão. Um homem de vendas, bastante calejado pelo mercado, José Ulisses Arce, ficou responsável pela área de vendas. No mesmo nível hierárquico que o da administração e o da produção e da programação, seria contratado algum tempo depois o Boni. Como regente dessas três áreas ficava Walter Clark, com a visão de homem de marketing que era”.(43.Revista Briefing, “Trinta Anos de Televisão”, op. cit.). Esta descrição da revista Briefing é entusiasta, ela preza os valores da racionalidade desses homens-empresa, mas, para além do seu tom ideológico, ela aponta para transformações profundas por que passa o sistema televisivo quando administrado por elementos que se distanciam do antigo padrão de empresário. Dotada de uma mentalidade empresarial, a Globo procura planejar suas atividades a longo prazo, reinveste o lucro sobre si mesma, e apresenta novidades até mesmo no uso do tempo dos comerciais. “A Globo introduziu o sistema rotativo, padronizou o preço do tempo comercializável, e passou a negociar apenas com pacotes de horários, isto é, quem quisesse anunciar no horário nobre era obrigado a colocar propaganda em outros horários.”(44.Citação in Maria Rita Kehl, op. cit., p. 7.). Técnica que permitiu à emissora financiar os horários menos concorridos e criar no telespectador Q hábito de sintonizar um único canal.

Também na área jornalística se pode observar o avanço desta racionalidade. A Folha de S. Paulo é um bom exemplo disso.(45.Ver Carlos Guilherme Mota e Maria Helena Capelato, História da Folha de S. Paulo,op. cit.). Sua origem remonta a 1921, quando foi fundada como Folha da Noite. Nasce como um empreendimento aventureiro, arriscado, sendo vendida em 1931, e tendo seu nome alterado para Empresa Folha da Manhã Ltda. Durante esse período, o jornal é representante da oligarquia e assume uma posição marcadamente agrarista. Em 1945, ela troca novamente de mãos, e José Nabantino assume sua direção. Homem dinâmico e inovador, ele seria, segundo Carlos Guilherme Mota e Maria Helena Capelato, o típico weberiano calvinista, que transforma seu trabalho em “missão”, além, é claro, de ser marcado pela idéia de eficácia que caracteriza o espírito pioneiro capitalista. Sob Nabantino a empresa conhece uma série de reformas que acentuam o seu lado moderno. A nova sede é construída,cria-se a Impress, pequena indústria gráfica visando abastecer internamente o jornal, e em 1948 surge um Programa de Ação para as Folhas, com o objetivo de transformá-la numa empresa rentável. Gisela Goldenstein observa que um dos itens deste novo plano era claro. Dizia: “a empresa, pela sua atividade jornalística, não tem outras fontes de receita que não sejam as assinaturas, vendas avulsas e publicidade, pelos preços constantes das respectivas tabelas”.(46.Gisela Goldenstein, “Folhas ao Vento: Contribuição ao Estudo da Indústria Cultural no Brasil”, tese de doutoramento, FFLCH, USP, 1986.). Uma tentativa, portanto, de se pensar o jornal como veículo, mídia do que deve ser anunciado. Ao lado da Folha de S. Paulo, Nabantino tenta expandir seu projeto criando dois outros jornais, matutino e vespertino (Folha da Manhã e Folha da Tarde). Também é desta fase a preocupação de se introduzir novas normas na redação, procurando torná-la mais produtiva e eficiente. Para estimular a produção, foi instituído um prêmio por “centimetragem de coluna”; quem escrevesse mais, ganharia uma compensação salarial extra. Ocorre ainda, como em outros jornais, uma importante racionalização do trabalho jornalístico: a introdução do deadline. Como dizia Samuel Wainer, “antes a redação trabalhava os textos até ficar bons, e isso ocorria a noite inteira nos primeiros tempos do jornal”.(47.Entrevista de Samuel Wainer a Gisela Goldenstein, op. cit., p. 110.). No entanto, todas essas medidas esbarravam nas dificuldades da precariedade da época. Algumas delas puderam se concretizar, outras não. Devido a problemas de importação, toda a tentativa de modernização do parque gráfico e industrial se desmorona. Gisela Goldenstein mostra que “a partir de 1956, o parque gráfico das Folhas começou aconstituir-se em um ponto de estrangulamento para empresa, não dando conta de prover em tempo hábil a feitura dos jornais”.(48.Idem, p.71.) Sua análise detalhada da produtividade da Impress demonstra que a firma se torna cada vez mais problemática e deficitária. O mesmo pode ser dito em relação à política de diversificação do produto; em 1962, Nabantino desiste de ter três edições, mantendo somente uma com o título de Folha de S. Paulo. Mesmo as transformações que ocorrem na redação tinham limites concretos. Cada semana havia uma reunião de toda a redação, onde os jornalistas expunham seus problemas, e a própria atividade jornalística era discutida quando colegas chegavam de viagem ao terminarem a elaboração de determinadas matérias. Essas reuniões funcionavam como contrapeso ao processo de racionalização, uma vez que o “trabalho em migalhas” dos redatores podia ser juntado neste espaço secretado pela própria empresa.

Em 1962, a Folha é adquirida pelo grupo Frias-Caldeira, e passa ao longo dos anos por uma reestruturação profunda. De início uma reforma tecnológica, econômica e comercial, medidas compatíveis para uma empresa que agora seria parte de todo um conglomerado. Depois mudanças substanciais no processo mesmo do trabalho jornalístico. Um novo Manual de Redação foi elaborado, procurando planejar melhor as atividades e homogeneizar o método de produção do jornal. Com a automação do jornal, a composição dos artigos se tornou mais ágil e precisa, imprimindo uma velocidade mais rápida na fabricação do produto. Como observa um dos técnicos: “o sistema Folhas de terminais veio trazer velocidade e autenticidade maior às informações, uma vez que nos permitiu eliminar etapas no processo industrial gráfico”.(49.Ver Regina Festa, “Os Computadores Revolucionam a Folha de S. Paulo e o Jornalismo Brasileiro”, Instituto para América Latina, São Paulo, 1986, pp. 1344.). É difícil perceber a relação entre autenticidade da notícia e velocidade da impressão, mas fica claro que a adoção do novo sistema reduziu o tempo de produção industrial, diminuindo os custos e aumentando a agilidade do processo. Este tipo de tecnologia oferece ainda vantagens comerciais: “nos balcões de anúncio onde já estão instalados os terminais, o anunciante pode ter uma visão exata da sua publicidade classificada por seções e ordem alfabética, fazendo o ajuste na hora, se desejar. O sistema fornece várias possibilidades de preço das inserções e fatura imediata”.(50.Idem, p. 13.). Não é surpreendente que dentro desses parâmetros a filosofia da empresa se modifica; nesse sentido a fala de um executivo é esclarecedora. “Temos combatido a idéia de que o jornalismo tem uma missão a cumprir, no sentido mais político-partidário ou romântico, meio místico, que existe em torno disso: a missão da imprensa. A gente procura ver a imprensa como um serviço público prestado por particulares, daí a gente estar sempre procurando saber onde está o interesse do leitor e vamos satisfazer esse interesse — porque a gente quer fazer um jornalismo mais exato, mais agudo, mais agressivo, a gente quer vender mais jornal, subir sua circulação”. (51.Entrevista de Otávio Frias Filho, editor-chefe, a Gisela Goldenstein, op. cit., p. 155.). Se lembrarmos que a idéia de missão encerra uma dimensão religiosa, podemos dizer com Max Weber que assistimos a realização de um exemplo claro de secularização, de desencantamento do mundo. A “missão” é substituída pelo cálculo, o lado “exatidão” buscando eliminar os elementos “político” e “romântico” que insistem em desafiar as normas da produção industrializada.

O processo de racionalização da sociedade implica também num novo tipo de relacionamento entre a empresa e o empregado. O antigo “acordo de cavalheiros”, que existia no rádio e na televisão, tinha que ser quebrado como uma exigência dos novos tempos. No caso da televisão, isto ocorre com a entrada da TV Excelsior no mercado. O depoimento de Walter Simonsen Neto é sugestivo: “Naquela época, isso em 59, por aí, havia uma coisa odiosa que era o chamado convênio entre as estações, ou seja, um determinado artista ou elemento que trabalhasse numa estação e fosse dispensado dela por algum motivo, não era contratado por outra estação. Eu me lembro que o primeiro caso desses que ocorreu comigo já na direção da estação, foi um caso com o Silvio Caldas. Na época ele tinha um programa de muito sucesso na Record, mas ele brigou não sei por que, saiu, e eu o contratei. O Edmundo Monteiro, que era diretor geral da Tupi em São Paulo pediu a meu pai que fizéssemos uma reunião com ele, e chegou inclusive a ameaçar meu pai. Esse foi o primeiro passo para a quebra do chamado convênio”.(52.Depoimento de Walter Simonsen Neto (FUNARTE).). Do ponto de vista subjetivo, essa atitude talvez pudesse ser interpretada como a compreensão de um empresário em relação às dificuldades pelas quais passavam os artistas. A perspectiva sociológica nos orienta para uma outra direção. As transformações sócio-econômicas que sofre a sociedade brasileira repercutem diretamente inclusive nas formas de contrato, liberando-as do peso de uma tradição mais personalizada. Quando a TV Excelsior, em 1963, muda a orientação de sua política, buscando atingir uma audiência maior, ela se vê na necessidade de romper certos laços do passado, buscando nas emissoras concorrentes os talentos que não possuía. Alcir Costa observa que num só dia ela contratou dezenas de artistas da TV Rio, oferecendo o dobro dos salários, e esvaziando o potencial de competição da firma concorrente.(53.Alcir Costa, Excelsior… , op. cit.). Deslealdade? Talvez, mas o que importa perceber é que as novas forças em jogo se tornavam mais impessoalizadas, e, como uma empresa realmente capitalista, a emissora passa a aplicar seus princípios mercadológicos.

Paralelamente a essas mudanças nas relações de trabalho, assistimos as empresas redimensionarem melhor a utilização de seu pessoal, procurando retirar disso uma produtividade maior. Até mesmo em relação ao uso dos atores ocorre uma mudança de estilo. “A canal 9 (Excelsior) já compreendia, ao contrário das outras estações, que quando um ator está fazendo sucesso junto ao público, sua presença no vídeo precisa ser planejada para que o público não fique saturado. Assim, os atores representavam 3 ou 4 meses em uma telenovela e descansavam 3 meses ou até mais para entrar em outra telenovela.”(54.Edgar Amorin, História da TV Excelsior, op. cit., p. 142.). Planejamento da exposição da aura, elemento fundamental para o funcionamento do sistema de ídolos do mass media. Uma aura diferente da desejada por Benjamin, mais se aproximando de uma estratégia para provocar no consumidor a ilusão de unicidade da “obra de arte”.

A contrapartida desse processo de racionalização empresarial é a profissionalização crescente. Com a especialização da produção se intensifica o movimento de divisão das tarefas: cenógrafos, figurinistas, cabelereiros, pesquisadores, roteiristas, fotógrafos, redatores. Basta olharmos a divisão de trabalho de uma agência de propaganda, que é simples por causa de seu tamanho, para perceber como este movimento de segmentação se acentua.(55.Ver Zilda Knoploch, Ideologia do Publicitário, Rio de Janeiro, Achiamé, 1980.). Departamento de criação, subdividido em redação e arte, cabendo ao redator definir títulos e escrever textos, enquanto que o diretor de arte se ocupa da visualização, dos leiautes. Departamento de Atendimento, que efetua o contato com o cliente, interpreta suas necessidades, e traz a ele as sugestões da agência. Departamento de mídia, responsável pela definição do público- alvo segundo os critérios econômicos. Departamento de Pesquisa, onde se coletam informações sobre o público e os mercados. Divisão de trabalho que se complexiza quando a empresa é maior, como a televisão, envolvendo, além do setor da produção, artistas, diretores, escritores, editores, sonoplastas, etc. Esse movimento de racionalização não se expressa somente pela especialização, mas determinadas profissões, essenciais para o funcionamento da indústria cultural, conhecem neste período um crescimento substancial. O caso dos fotógrafos é sugestivo, sobretudo se compararmos a evolução desta profissão com os Estados Unidos. DeFleur e Ball-Rokeach mostram que o desenvolvimento da profissão de fotógrafo foi essencial para a constituição de uma indústria cinematográfica americana.(56.DeFleur y Ball-Rockeach, Teorias de la Comunicación de Masas, Barcelona, Paidós, 1982, p. 86.). Entre 1880 e 1930 o número desses profissionais passa de 9900 para 39000. No caso brasileiro, temos uma evolução semelhante, mas com datas trocadas. Em 1950 existiam 7921 fotógrafos, número que passa para 13.397 em 1960, 25.453 em 1970 e 48.259 em 1980.(57.Dados in José Carlos Durand, Arte, Privilégio e Distinção, op. cit., p. 379.). A insuficiência de profissionais na década de 50 corresponde à precariedade da indústria da cultura nessa época. Somente na década de 70 vamos alcançar os índices americanos da década de 30, para superá-los em 80. A comparação com os Estados Unidos é sugestiva porque é na década de 30 que realmente se instaura nesse país uma verdadeira industria da cultura. Não estou com isso sugerindo que a história da cultura na periferia deva repetir o destino que teve nos países centrais (inclusive porque essa história é distinta na Europa), mas apontar para o fato de que determinadas mudanças estruturais levam necessariamente a certos fenômenos que me parecem ser internacionais. A constituição de uma sociedade de consumo nos Estados Unidos dos anos 30 tem traços semelhantes às mudanças que se consolidam no Brasil anos depois.

A implantação de uma indústria cultural modifica o padrão de relacionamento com a cultura, uma vez que definitivamente ela passa a ser concebida como um investimento comercial. o processo de industrialização da televisão, e particularmente o papel que nele desempenha a telenovela, é esclarecedor. Com a introdução do videoteipe, novos gêneros puderam ser reinventados. É o caso da telenovela diária, narrativa que dificilmente poderia ser construída dentro de um esquema de filmagem ao vivo, demandando toda uma estrutura de Produção que adequasse sua realização ao processo de exibição das imagens. A fabricação da telenovela necessita de uma estrutura empresarial sólida, maiores investimentos iniciais, implica numa acentuada divisão de trabalho, num ritmo intenso de produção. As empresas, ao escolherem este gênero como carro-chefe da indústria televisiva, de uma certa forma se vêem na Posição de se reformularem Para produzi-lo. Lançada experimentalmente em 1963, a novela se torna logo um sucesso, o que se manifesta claramente em 1964, com O Direito de Nascer. Ao longo da década de 60 este tipo de narrativa se consolida definitivamente junto ao público consumidor. Entre 1963 e 1969 são levadas ao ar 195 novelas.(58.Os dados relativos à telenovela são provenientes de uma pesquisa coordenada por mim sobre “A Produção industrial da Novela”. Trabalho em andamento, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais,PUC-SP.). Se em 1963 somente três novelas foram exibidas, este número sobe para 26 em 1964, atingindo um pico de 48 em 1965. Todos os canais existentes lançam mão dessa nova estratégia para conquistar o mercado, inclusive a TV Cultura.

É interessante observar que no Brasil a telenovela foi escolhida como o produto por excelência da atividade televisiva. Contrariamente aos Estados Unidos, onde a soap-opera seguiu na televisão o esquema do rádio, se dirigindo a um público feminino durante o horário da tarde, a novela se transformou entre nós num produto prime-time, e para ela convergiram todas as atenções (de melhoria do padrão de qualidade e dos investimentos). O interesse comercial que existia em relação às radionovelas no Brasil se transfere, portanto, para as telenovelas, as firmas preferindo um tipo de investimento seguro para atingir um público de massa. No início, algumas multinacionais como Colgate Palmolive e Gessy Lever procuraram repetir o esquema que mantinham no rádio, produzindo paralelamente às emissoras algumas novelas, contratando autores e adaptadores de textos latino-americanos. Mas esta nova fase de industrialização era incompatível com a descentralização, o que fez com que as emissoras se tornassem as únicas centrais geradoras de programas. Não deixa de ser importante sublinhar que a popularidade da novela, e por conseguinte sua exploração comercial, vai redimensionar a lógica da produção das empresas, implicando no desaparecimento de gêneros dramáticos que marcaram a década de 50. Refiro-me em particular ao teleteatro e ao teatro na televisão, exibições que se voltavam para textos clássicos, adaptações de filmes, peças de autores nacionais, e que atuavam em compasso com o movimento teatral. Em 1963, momento de experimentação da primeira novela diária, a Excelsior acaba com dois programas culturais, Teatro 9 e Teatro 63. Se 1964 é o ano de O Direito de Nascer, exibido pela TV Tupi, ele também marca o fim do Grande Teatro Tupi, considerado até então como o símbolo dos Diários Associados. Em 1967 a Tupi tira do ar o TV Vanguarda, encerrando definitivamente o ciclo do teleteatro, e inaugurando-se a era da hegemonia da telenovela, produto de massa que canaliza toda a dramaturgia televisiva brasileira.

O exemplo da telenovela nos remete à discussão do relacionamento entre as esferas de produção de bens restritos e a de bens ampliados, que havíamos abordado anteriormente. Normalmente esse debate tem sido traduzido na literatura sobre comunicação de massa como uma oposição entre cultura de massa e cultura de elite. O seminário dirigido por Lazersfeld, em 1959, organizado pelo Tamiment Institut e a revista Daedalus, ilustra bem como se dividem as opiniões dos intelectuais e dos especialistas quando tratam da questão.(59.Ver Norman Jacobs (org.), Culture for Millions, op. cit. Sobre o mesmo debate, Georges Friedman, “Culture pour les Millions”, in Ces Merveilleux Instruments, Paris, Denoel, 1979.). No caso da escola de Frankfurt, creio que em linhas gerais suas idéias são conhecidas. Numa sociedade de consumo a cultura se torna mercadoria, seja para aquele que a fabrica ou a consome. Na medida em que a sociedade avançada é caracterizada pela regressão da audição, isto é, pela incapacidade de reconhecer o novo, produtores e consumidores fariam parte de um mesmo pólo, reforçando o sistema de dominação racional.(60.São vários os escritos sobre a cultura como mercadoria. Seguindo esta tradição temos, no caso da imprensa, Ciro Marcondes Filho, O Capital da Noticia, São Paulo, Ática, 1986. É sintomático que um autor como Hoffman, que na Alemanha tem defendido a tese da “imprensa como negócio”, tenha recentemente sublinhado os impasses deste tipo de abordagem exclusivamente econômica. Ver B. Hoffman, “On the Development of a Materialist Theory of Mass Communication in West Germany”, in Media, Culture and Society, nº especial Alter the Frankfurt School, vol. 5, nº 1, Janeiro de 1985.). Não quero me alongar neste texto sobre as questões teóricas, são várias as críticas que poderíamos levantar; pessoalmente penso que a perspectiva frankfurtiana que vê a ideologia exclusivamente como técnica, o que significa assimilar a cultura à mercadoria, tem o mérito de chamar a atenção para certos problemas, mas nos impede de compreendermos outros. Eu diria que a cultura, mesmo quando industrializada, não é nunca inteiramente mercadoria, ela encerra um “valor de uso” que é intrínseco à sua manifestação. Há uma diferença entre um sabonete e uma ópera de sabão. O primeiro e sempre o mesmo, e sua aceitação no mercado depende inclusive desta “eternidade” que garante ao consumidor a qualidade de um padrão. A segunda possui uma unicidade, por mais que seja um produto padronizado. Por isso prefiro a postura de Edgar Morin quando afirma que “a indústria cultural deve constantemente suplantar uma contradição fundamental entre suas estruturasburocratizadas-padronizadas e a originalidade do produto que ela fornece. Seu funcionamento se fundamenta nesses dois antitéticos: burocracia-invenção, padrão- individualidade”.(61.Edgar Morin, L’Esprit du Temps, Paris, Grasset, 1962, p. 27.). Sua análise sobre as estrelas de cinema é neste sentido exemplar, ele as apreende como mercadoria e como mito.(62.Edgar Morin, Les Stars, Paris, Seuil, 1972.).

Porém, seria ingênuo descartar pura e simplesmente a análise frankfurtiana, pois a ênfase na questão da racionalidade nos permite captar mudanças estruturais na forma de organização e de distribuição da cultura na sociedade moderna. Essa transformação não se reduz, no entanto, à sua natureza econômica, o que significa dizer que a cultura não é simplesmente mercadoria, ela necessita ainda se impor como legítima. A cultura popular de massa é produto da sociedade moderna, mas a lógica da indústria cultural é também um processo de hegemonia. Com isso entendemos que a análise da problemática cultural deve levar em conta o movimento mais amplo da sociedade, e, ao mesmo tempo, perceber a cultura como um espaço de luta e de distinção social. Penso que o advento da sociedade industrial nos colocou frente a uma força que tende a ser hegemônica no campo da cultura. No caso brasileiro percebemos essa tendência quando comparamos os anos 40 e 50 ao desenvolvimento da indústria cultural na década de 70. A relação de intercâmbio e cumplicidade que havia entre a esfera de produção restrita e a ampliada é revertida. O exemplo do surgimento da telenovela em detrimento do teleteatro é sugestivo. Ele aponta para o fato de que o espaço de criatividade na indústria cultural deve estar circunscrito a limites bem determinados. Não quero dizer com isso que a criatividade não possa se expressar mais, que ela desaparece diante da produtividade do sistema, mas chamar a atenção para o fato de que sua manifestação se torna cada vez mais difícil, encontra menos espaço, e está agora subordinada à lógica comercial.(63.A relação entre teatro e televisão exprime bem como se estrutura atualmente a tensão entre essas esferas culturais distintas. A consolidação da televisão como indústria reorganiza a lógica do campo teatral na medida em que ela constitui o grande mercado para os atores. Isto significa que as peças, para dar bilheteria, tendem a utilizar roteiristas, e principalmente artistas consagrados pelo grande público (de preferência os que atuaram nas telenovelas). Não se trata simplesmente de um conflito entre áreas diferenciadas, é o próprio quadro da produção teatral que se modifica, fazendo com que o teatro se torne cada vez mais dependente da produção televisiva. Um artigo interessante sobre este tema é o de Yan Michalski, “Teatro — Progresso ou Retrocessos”, UnB, Humanidades, ano IV, nº 12, fevereiro/abril de 1987.). Utilizando uma expressão de Foucault, eu diria que a indústria cultural age como uma instituição disciplinadora enrijecendo a cultura. Se nos anos passados era possível um trânsito entre as áreas “eruditas” e de massa nos moldes como a analisamos anteriormente, isto se devia à própria incipiência da sociedade de consumo brasileira; a distinção social conferida pela cultura “artística” cumpria um papel supletivo no subdesenvolvimento da esfera de bens ampliados. Morin tem razão quando diz que a indústria cultural tem necessidade da invenção, mas é necessário completar o pensamento e afirmar que a relação entre os dois pólos antitéticos não é dialética, como algumas vezes ele sugere; existe um processo de subordinação entre eles. O advento de uma sociedade moderna reestrutura a relação entre a esfera de bens restritos e a de bens ampliados, a lógica comercial sendo agora dominante, e determinando o espaço a ser conferido às outras formas de manifestação cultural.(64.A década de 60 não corresponde somente ao advento das indústrias da cultura no Brasil. Durante esse período se constitui também um mercado de artes plásticas que até então inexistia entre nós. Ver José Carlos Durand, op. cit.).