Uncategorized

Verdade e mentira no sentido extramoral

Friedrich Nietzsche

Comum – Rio de Janeiro – v.6 – nº 17 – p. 05 a 23 – jul./dez. 2001

Apresentação por Noéli Correia de Melo Sobrinho

“Verdade e Mentira no Sentido Extramoral” [Über Wahrheit und Lüge im aussermoralischem Sinn] é um escrito póstumo do jovem Nietzsche do ano de 1873, um texto que ele ditou a seu amigo Carl von Gersdorff, num momento em que começava a distanciar-se intelectualmente de Wagner e também de Schopenhauer2 . Antes, ele havia escrito um prólogo intitulado Sobre o pathos da verdade, em que já anunciava uma ruptura com sua orientação anterior; agora, o lado cético do seu pensamento, certamente herdado principalmente do Kant da Crítica da Razão Pura, era mostrado mais às claras3 . De qualquer maneira, o que estava em questão era o tema da “verdade”, um problema que Nietzsche de fato jamais abandonará4, envolvendo ao mesmo tempo a ciência e a arte numa disputa em que ele chama atenção para o caráter desesperador da verdade da ciência e para a natureza redentora da arte: a verdade aniquila a vida e a tarefa da arte é salvá-la. Nietzsche é então e já o filósofo trágico que se opõe à idolatria da verdade e ao otimismo vazio dos modernos.

Continuar lendo

Anúncios

Nietzsche, a genealogia e a História

Michel Foucault. In Microfísica do Poder.

I.

A genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente documentária. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos.

Paul Rée se engana, como os ingleses, ao descrever gêneses lineares, ao ordenar, por exemplo, toda a história da moral através da preocupação com o útil: como se as palavras tivessem guardado seu sentido, os desejos sua direção, as idéias sua lógica; como se esse mundo de coisas ditas e queridas não tivesse conhecido invasões, lutas, rapinas, disfarces, astúcias. Daí, para a genealogia, um indispensável demorar−se: marcar a singularidade dos acontecimentos, longe de toda finalidade monótona; espreitá−los lá onde menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história − os sentimentos, o amor, a consciência, os instintos; apreender seu retorno não para traçar a curva lenta de uma evolução, mas para reencontrar as diferentes cenas onde eles desempenharam papéis distintos; e até definir o ponto de sua lacuna, o momento em que eles não aconteceram (Platão em Siracusa não se transformou em Maomé).

A genealogia exige, portanto, a minúcia do saber, um grande número de materiais acumulados, exige paciência. Ela deve construir seus “monumentos ciclópicos”1 não a golpes de “grandes erros benfazejos” mas de “pequenas verdades inaparentes estabelecidas por um método severo”2. Em suma, uma certa obstinação na erudição. A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta−histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da “origem”. Continuar lendo

A vida feliz das vítimas

Paulo Vaz

1. Direito à felicidade e cultura terapêutica

O direito à felicidade de cada indivíduo é um lema maior das culturas ocidentais contemporâneas. Essa felicidade à qual teríamos direito e seria nosso dever
perseguir é apresentada como residindo na esfera privada e estaria relacionada ao consumo de bens e serviços. Graças ao onipresente discurso publicitário, basta pensar em ser feliz que surgem em nossa mente imagens de uma família sorrindo numa casa repleta de objetos que trariam conforto e aliviariam a dureza do trabalho doméstico; ou então cenas de jovens se aventurando por praias, florestas e montanhas ou se divertindo em festas.

Embora seja decisivo inquietar esse nexo entre felicidade, vida ordinária, esfera privada e consumo para realçar nossa singularidade histórica, colocando questões a partir da memória de que já se valorizou a esfera pública ou de que se acreditou que a felicidade só seria possível na vida após a morte, também cabe problematizar o lugar central ocupado pelos estados mentais de cada indivíduo. Pois essa centralidade das emoções permite conceituar as culturas ocidentais contemporâneas como culturas terapêuticas, onde o relevante é “uma sensação manipulável de bem-estar”, onde a felicidade deixa de ser “consequência colateral da busca de algum fim comunal superior” e se torna uma finalidade a ser assumida por cada indivíduo (Rieff, 1996, p. 13, p. 261 ). Continuar lendo

A afilhada rebelde

por Daniela Pinheiro

O estilo, as ideias, as decisões e a ambígua relação de Dilma com Lula

Era o final de uma manhã de brisa fria e sol quente, no início de setembro, quando o presidente do sindicato dos taxistas de São Paulo, Natalício Bezerra da Silva, tomou o microfone e se dirigiu à restrita plateia: “Vamos respeitar, hein? Nada de gracinhas. Não se convida uma pessoa para vir na casa da gente e a gente hostiliza.” O grupo aguardava a chegada da presidente da República e candidata à reeleição, Dilma Vana Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, que naquele momento tinha 36% das intenções de votos – o que a colocava em empate técnico, no primeiro e segundo turnos, com Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro, catapultada às alturas nas pesquisas depois da morte do cabeça da chapa, o ex-governador Eduardo Campos, em agosto.

“Eu não estou preocupado com vocês, não. Nossa categoria é respeitosa, mas pode aparecer alguém de fora, querer aprontar, tumultuar, aí vai ter”, continuou o sindicalista, ainda que sua preocupação fosse infundada, já que o ambiente estava cirurgicamente controlado. A imprensa foi espremida num pequeno palanque. Apenas dirigentes sindicais identificados – a maioria trazendo estampados no peito adesivos com a cara da candidata – tinham acesso à área diante do palco. Populares eram vetados. Uma mulher, moradora de um prédio vizinho, foi orientada por um segurança a dar a volta no quarteirão para entrar em casa. Meia hora depois, Dilma Rousseff foi recebida por uma audiência calorosa. A equipe da candidata filmava tudo. Continuar lendo

A mulher bem-sucedida e a participação da internet na construção de celebridades femininas1

Lígia Lana2
Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ

Resumo

De maneira crescente, narrativas de mulheres de sucesso são divulgadas pela mídia, sugerindo que a igualdade entre os gêneros, se ainda não foi alcançada, está prestes a ocorrer. As celebridades femininas personificam algumas dessas narrativas. Este trabalho discute a noção de sucesso feminino, analisando a trajetória de Geisy Arruda. Depois de ter ganhado projeção pública através do Youtube em 2009, quando foi humilhada por seus colegas da Uniban, Geisy surpreendentemente permanece hoje como figura onipresente da mídia. Quatro anos após sua aparição, convertida em celebridade, Geisy é bem-sucedidaao usar as ferramentas digitais em busca da visibilidade. O trabalho analisa a celebrização de Geisy, refletindo sobre seu empreendedorismo na internet, a moldagem seu corpo e os valores morais de gênero que desaprovam sua conduta como mulher.
Palavras Chave: Feminismo; Sucesso; Celebridade; Geisy Arruda; Youtube. Continuar lendo

7. Inconclusão

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira

Normalmente, quando falamos de tradição nos referimos às coisas passadas, preservadas ao longo da memória e na prática das pessoas. Imediatamente nos vêm ao pensamento palavras como folclore, patrimônio, como se essas expressões conservassem os marcos de um tempo antigo que se estende até o presente. Tradição e passado se identificam e parecem excluir radicalmente o novo. Poucas vezes pensamos como tradicional um conjunto de instituições e de valores que, mesmo sendo produtos de uma história recente, se impõem a nós como uma moderna tradição, um modo de ser. Tradição enquanto norma, embora temperada pela imagem de movimento e de rapidez. Penso que hoje vivemos no Brasil a ilusão de que o moderno é o novo, o que torna difícil entender que as transformações culturais que ocorreram entre nós possuem uma irreversibilidade que faz com que as novas gerações já tenham sido educadas no interior dessa “modernidade”. Por isso o tema da indústria cultural se encontra naturalizado nas discussões sobre cultura, fato que muitas vezes contraria a vivência dos próprios debatedores que, em muitos casos, só vieram experimentá-la numa fase tardia de suas vidas. Fala-se em cultura de mercado como se ela sempre tivesse existido, ao mesmo tempo em que a ela se confere o atributo do moderno. Digo 208 moderno enquanto valor, qualidade. Mas não é só em relação à área da comunicação que isso se dá. Os políticos também valorizam a idéia de um “partido moderno” (embora sem qualificá-lo), da mesma forma que as revistas de assuntos gerais cultivam a modernidade das técnicas, dos hábitos, enfim de um modo de vida que em princípio encerraria um valor em si, na medida em que diferiria do “atraso” do passado. Mas o que significa reivindicar o “moderno” numa sociedade que se transformou, mas que cultiva ainda a lembrança da modernização como projeto de construção nacional? A pergunta é interessante e nos remete à discussão com a qual iniciamos este livro. Continuar lendo

6. Do popular-nacional ao internacional-popular?

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira
Quando no final do século passado Sílvio Romero procurava compreender o “atraso do povo brasileiro”, de uma certa forma ele estava inaugurando toda uma corrente de pensamento que buscava entender a questão da identidade nacional na sua alteridade com o exterior. É claro, sua interpretação do Brasil se fundamentava na ideologia da época, para a qual o conceito de raça e de clima eram essenciais. O homem brasileiro seria o produto da aclimatação da raça européia no solo brasileiro, de sua miscigenação com as raças “menos evoluídas”, o negro e o índio. Mas a conclusão de seus estudos, guardadas essas limitações, que são consideráveis, era clara: “O Brasil não deve ser cópia da antiga metrópole”.(1.Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira, op. cit. p. 81. Uma crítica recente sobre a noção de cópia pode ser encontrada em Roberto Schwarz, Nacional por Subtração, in Tradição e Contradição. Rio de Janeiro, Zahar/FUNARTE, 1987.). Essa idéia de cópia tem orientado inúmeros debates sobre a problemática da cultura brasileira. É dentro dessa perspectiva que Euclides da Cunha considerava, por exemplo, a superioridade do mestiço do interior em relação ao do litoral, uma vez que este último, por causa do fácil contato com o colonizador, estaria mais influenciado por ele, favorecendo assim o processo de imitação de sua cultura de origem. Sabemos hoje que a discussão sobre a “autenticidade” do nacional, e portanto da identidade, é na verdade uma construção simbólica, uma referência em relação à qual se discutem diversos problemas. Na verdade não existe uma única identidade, mas uma história da “ideologia da cultura brasileira”, que varia ao longo dos anos e segundo os interesses políticos dos grupos que a elaboram. Continuar lendo

5. O popular e o nacional

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira

Quando nos deparamos com a literatura sobre a sociedade de consumo, reiteradamente encontramos uma discussão sobre a despolitização da sociedade. Num primeiro nível, o tema nos remete ao problema da integração dos membros da sociedade no capitalismo avançado, e se refere ao processo de “despolitização das massas”. Vários autores, oriundos de tradições teóricas distintas, têm apontado para este lado da questão. Cito, por exemplo, David Riesman, que não partilha inteiramente das críticas que se fazem à cultura de massa; que no seu livro clássico, A Multidão Solitária, mostra como elementos dessa cultura funcionam como um meio de ajustar os indivíduos à sociedade.(1.David Riesman, A Multidão Solitário, São Paulo, Perspectiva, 1971.). Ou o trabalho de Leo Lowenthal sobre as biografias dos ídolos populares.(2.Leo Lowenthal, “The Biographical Fashion” e “The Triumph of Mass Idols”, in Lirerature and Mass Culture. Nova Jersey, Transaction Books. 1984.). Lowenthal as considera como estórias exemplares que tendem a difundir junto ao público um tipo ideal de comportamento a ser alcançado. Sua análise do gênero indica que nos Estados Unidos, entre 1900 e 1940, há uma mudança no padrão do herói biografado. No início do século,as publicações privilegiam a vidados políticos e dos grandes homens de negócio. O herói exaltado era o homem de ação, que o autor chama de “ídolo de produção”, na medida em que ele retirava sua energia e legitimidade da esfera da vida produtiva. A partir de meados da década de 20 esse tipo de figura se transforma. Pouco a pouco o homem-ação cede lugar aos ídolos de entretenimento (esportistas, artistas, etc.) que estimulam no leitor não mais uma tendência à realização de uma vontade, política ou empresarial, mas o conformismo às normas da sociedade. Continuar lendo

4. O mercado de bens simbólicos

Renato Ortiz, em Moderna Tradição Brasileira

Se os anos 40 e 50 podem ser considerados como momentos de incipiência de uma sociedade de consumo, as décadas de 60 e 70 se definem pela consolidação de um mercado de bens culturais. Existe, é claro, um desenvolvimento diferenciado dos diversos setores ao longo desse período. A televisão se concretiza como veículo de massa em meados de 60, enquanto o cinema nacional somente se estrutura como indústria nos anos 70. O mesmo pode ser dito de outras esferas da cultura popular de massa: indústria do disco, editorial, publicidade, etc. No entanto, se podemos distinguir um passo diferenciado de crescimento desses setores, não resta dúvida que sua evolução constante se vincula a razões de fundo, e se associa a transformações estruturais por que passa a sociedade brasileira. Creio que é possível apreendermos essas mudanças se tomarmos como ponto para reflexão o golpe militar de 64.(1.Retomo neste ponto minha argumentação desenvolvida no capítulo “Estado Autoritário e Cultura”, in Cultura Brasileira e Identidade Nacional. op. cit.). O advento do Estado militar possui na verdade um duplo significado: por um lado se define por sua dimensão política; por outro, aponta para transformações mais profundas que se realizam no nível da economia. O aspecto político é evidente: repressão, censura, prisões, exílios. O que é menos enfatizado, porém, e que nos interessa diretamente, é que o Estado militar aprofunda medidas econômicas tomadas no governo Juscelino, às quais os economistas se referem como a segunda revolução industrial” no Brasil. Certamente os militares não inventam o capitalismo, mas 64 é um momento de reorganização da economia brasileira que cada vez mais se insere no processo de internacionalização do capital; o Estado autoritário permite consolidar no Brasil o “capitalismo tardio”. Em termos culturais essa reorientação econômica traz conseqüências imediatas, pois, paralelamente ao crescimento do parque industrial e do mercado interno de bens materiais, fortalece-se o parque industrial de produção de cultura e o mercado de bens culturais. Continuar lendo

Epistemologia da Sociologia – Apontamentos para a sua compreensão.

José Manuel L. Saragoça

RESUMO

Esta reflexão, dirigida sobretudo a estudantes que iniciam o estudo da sociologia,centra-se nas práticas de “vigilância” das operaçõe s conceptuais e metodológicas adoptadas pela sociologia na tentativa de anular a eficácia dos obstáculos epistemológicos que entravam a produção de conhecimentos científicos.

Ao longo do texto procuramos clarificar a forma como esta ciência social se foi desenvolvendo, fruto do trabalho de inúmeros sociólogos que nem sempre estiveram (e continuam a não estar) de acordo em relação a as pectos epistemológicos fundamentais, tais como questões de natureza metodo lógica, a relação sujeito- investigador, ou mesmo a definição do próprio objecto de estudo.

Dividimos a nossa abordagem em duas partes. A primeira, introdutória, apresenta as principais categorias epistemológicas e caracteriza, genericamente, a epistemologia das ciências sociais e humanas. Na segunda parte, o nde olhamos a sociologia do ponto de vista da sua epistemologia, apresentamos, primeiramente, as diferenças entre dois paradigmas da sociologia (individualismo metodológico e holismo), algumas perspectivas de superação da aparente contradição entre estas correntes, as singularidades epistemológicas da sociologia e os principais obstáculos epistemológicos que entravam a objectividade nesta jovem ciência. A terminar, reflectimos sobre novos desafios epistemológicos dasociologia contemporânea.

PALAVRAS-CHAVE: epistemologia; obstáculos epistemológicos; vigilânc ia epistemológica; ruptura epistemológica; crise da sociologia.

Universidade de Évora, Departamento de Sociologia1

Continuar lendo